Vivemos em 2016 um grande momento na história do esporte brasileiro. As olimpíadas do Rio de Janeiro foram bem avaliadas e a estrutura desportiva montada para esse grande evento atendeu as necessidades da elite do esporte mundial. Entretanto, o chamado legado olímpico (especialmente no que diz respeito ao material esportivo) corre perigo. Em grande parte, isso se deve aos problemas de gestão desportiva e escolha intertemporal no Brasil e dos brasileiros.

Para exemplificar, imagine que você coordena uma equipe desportiva que tem como meta principal a participação em uma competição internacional que acontecerá no início de 2019 tendo sido estimado inicialmente um alto custo para esse fim. Considere também que haverá outras competições relevantes em curto prazo que irão gerar custos de menor escala.

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De acordo com a teoria econômica tradicional, você racionalmente irá avaliar os custos e benefícios das alternativas que acontecerão em momentos diferentes de acordo com suas preferências e seu orçamento. Essa visão considera ainda que isso acontecerá porque seu objetivo é maximizar seus benefícios de maneira egoísta.  Dessa maneira, você poderia ordenar suas escolhas e, consequentemente sua disposição de gastar com as competições em curto prazo, evidenciando quão disposto você está a abdicar de sua participação no evento internacional ou o inverso.

Outro aspecto muito importante da abordagem neoclássica em economia está relacionado ao conceito de invariância que considera as decisões estáveis, ou seja, se optar por poupar recursos para a participação na competição internacional, essa alternativa será preferida independente do contexto em que a decisão for tomada e não mudará.

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Mesmo que essa perspectiva tenha trazido diversos ganhos para os estudos econômicos, na vida real nossas escolhas são influenciadas pela limitação de informações que temos à disposição e geralmente temos dificuldade de prever o que iremos preferir no próximo ano. Isso significa que, em termos práticos, ferimos frequentemente os princípios de transitividade e invariância defendidos pelos economistas neoclássicos.

É sobre a influência de determinados aspectos na tomada de decisão, que são capazes de tornar uma escolha inconsistente sob o ponto de vista tradicional, que se debruça a economia comportamental. Essa visão, que avalia o comportamento dos indivíduos, permitiu compreender a relevância do contexto, do enquadramento e tantos outros fatores, ampliando a visão sobre os agentes econômicos e criando novas ferramentas simples e eficazes na solução de problemas.

A economia comportamental utiliza predominantemente a observação empírica, em laboratório ou no campo. Essa prática faz com que os indivíduos sejam observados enquanto fazem as escolhas, de forma que os resultados observados sejam os mais próximos ao que obtém na realidade. Os testes são usualmente separando-se os indivíduos em tratamentos e expondo-os a determinados estímulos enquanto um grupo, chamado controle, é mantido sem nenhuma intervenção estabelecendo qual seria o comportamento “padrão” para determinada circunstância. Comparativamente, a economia comportamental utiliza a teoria descritiva onde são avaliados aspectos sobre o comportamento real dos indivíduos enquanto na economia tradicional a perspectiva é normativa que assume que um comportamento ideal será adotado.

Considerando que no Brasil há poucos estudos relacionados à gestão esportiva e que o volume de investimentos destinados ao esporte de forma geral não é suficiente para atender às necessidades do mercado, uma abordagem descritiva baseada na realização de experimentos diminui não somente a incerteza quanto à aplicabilidade dos incentivos testados mas também, e principalmente, reduz os custos associados à ações de marketing e adoção de políticas públicas. Isso faz com que a utilização de ferramentas comportamentais seja recomendada para suportar gestores desportivos na utilização de recursos em iniciativas de curto e longo prazo.

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Uma política pública parte da necessidade da sociedade que, uma vez diagnosticada, é incluída na agenda pública e segue para a busca de soluções onde são levantadas as alternativas que serão submetidas à decisão. Posteriormente inicia-se o planejamento e por fim a implantação da política pública.

Diante da relevância das questões relacionadas ao esporte e sua influência na sociedade, vamos assumir que trata-se de um problema público que já faça parte da agenda. Em um cenário hipotético, o aprimoramento da gestão desportiva é identificado e aprovado como solução. A elaboração de um plano de execução baseado em uma abordagem comportamental inclui a análise de variáveis muitas vezes negligenciadas em estudos tradicionais. Como resultado, podem ser implementados estímulos capazes de modificar de forma significativamente a maneira como as escolhas são feitas, contribuindo para o atingimento dos resultados esperados.

A aplicação da economia comportamental em políticas públicas pode ser criticada em função de modelar o comportamento dos cidadãos sem consentimento prévio e também pela restrição de ampliação de seu uso em escala, caracterizada pela especificidade associada a arquitetura de escolhas. Entretanto, a redução de custos e a possibilidade de avaliar aspectos que até então não eram pesquisados justificam a proposição de projetos dessa natureza.

Tomando por base nosso exemplo de seleção de investimentos na gestão desportiva, considerado um dos problemas mais críticos, o que se observa no Brasil é que há pouco investimento na formação de atletas em categorias de base. Os recursos disponíveis são utilizados na manutenção de equipes de ponta apenas para remediar situações problemáticas, evidenciando a dificuldade de adiar gratificações. Em países que possuem bom rendimento esportivo, predomina o investimento na formação de base que em longo prazo aumenta a possibilidade de que haja mais atletas de alto rendimento. Nesse contexto, a construção de um possível plano de execução de política pública baseada em princípios comportamentais passa, inevitavelmente pela análise de descontos intertemporais.

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Mesmo que os humanos sejam capazes de adiar gratificações questões como as emoções e a força de vontade influenciam o comportamento dos indivíduos. Na situação problema descrita inicialmente, a decisão de investir em competições nacionais de curto prazo ou na competição internacional em longo prazo, ambas as alternativas envolvem o adiamento das gratificações. O gestor desportivo precisa portanto escolher entre duas competições imaginárias que não possuem garantia de que as recompensas de fato virão. A decisão é tomada de imediato com base na projeção imaginada dos resultados das competições, ponderando em uma mesma escala a dor de abdicar de um ganho presente (competição nacional) e o prazer do ganho futuro (competição internacional).

Partindo do princípio de que a influência da dor de abdicar do ganho pode ser neutralizada pela antecipação prazerosa da conquista futura, a utilização de nudges associados a antecipação do prazer aumentam a possibilidade de os recursos serem direcionados corretamente. Mecanismos de divulgação que tangibilizem os ganhos projetados e estratégias de compromisso prévio parecem ser, preliminarmente, úteis para esse fim. Entretanto, somente após a realização de experimentos que comprovem a efetividade dos fundamentos teóricos seria possível iniciar os testes relacionados ao uso dos nudges.