Considere nosso pano evolutivo, desde a revolução cognitiva há 70 mil anos atrás pouco mudamos (Harari, 2011). Nossos mecanismos cerebrais continuam sendo associativos e a economia de energia mental e corporal continuam sendo a regra em nossa genética, o que antes era uma grande vantagem, hoje pode nos tornar obesos e abrir brechas para escolhas pobres no contexto atual.

A mudança radical que estamos vivendo ano após ano em nossa sociedade é muito maior que nossa capacidade adaptativa e evolutiva. O que nos leva a ter comportamentos primatas em mundos modernos. Do ponto de vista moderno, comer todos os doces possíveis é um disparate, do ponto de vista evolutivo faz todo sentido empanturrar todo aporte calórico acessível naquele momento, isso não soa irracional em uma savana (Aula 04 – Gigerenzer, 2015).

E onde entram os Nudges?

Primeiramente a definição de nudge é a seguinte “é qualquer aspecto da arquitetura de escolhas que altera o comportamento das pessoas de maneira previsível sem proibir nenhuma opção nem mudar significativamente seus incentivos econômicos. Para ser considerada uma mera cutucada ou orientação, uma intervenção deve ser fácil e barata de evitar. As cutucadas não são ordens (Thaler e Sustein, 2008)”.

Um nudge por definição influência a decisão de alguém, mas não a proíbe de escolher. Facilita ou dificulta uma escolha sem que isso acabe com a liberdade de indivíduo. O leitor atento deve se questionar:

Facilita uma escolha, qual escolha?

Quem escolheu facilitar isso para mim?

E aí entramos no ponto de discussão se os nudges, seriam ou não uma forma disfarçada de paternalismo ou manipulação?

nudge push brain

Antes de responder essa pergunta, questiono a você os dados apresentados por Paul Dolan. Escolas com uma lanchonete até 150 metros por perto aumentam a taxa de obesidade dos jovens em 5%. Do ponto de vista libertário, essas pessoas estão fazendo isso por opção, do ponto de vista que o próprio Dolan nos mostra no livro Felicidade Construída (2015) ¼ das nossas decisões são tomadas deliberadamente, os outros ¾ são frutos da ocasião. A ocasião de ter uma lanchonete por perto me parece bem clara aqui.

A obesidade em si é um problema, nos EUA e o Brasil caminha para ter o mesmo problema (G1, 2017). Pessoas obesas são mais propensas a ter diabetes, pressão alta, derrame e consequentemente são mais gastos para o governo. Se podemos ajuda-las com nudges para escolherem comidas mais saudáveis, por que não?

O nudge clássico relacionado a isso é citado por Thaler & Sustein (2008) em seu livro Nudge. Sua colega estava abrindo uma cantina e as comidas saudáveis ficavam mais acessíveis aumentando o consumo das mesmas. Observe que a dona da cantina não proibiu as pessoas de pegarem comidas “ruins” ela apenas organizou a arquitetura de escolha de forma a beneficiar a saúde do usuário.

Quando se trata de governo e corporações eles constantemente tentam influenciar as decisões das pessoas, sejam por propagandas e priming em filmes (ou você acha que o protagonista resolveu andar em um Audi pois achou confortável?) ou subsidiando algum produto para que as pessoas consumam mais (a exemplo o Prooalcol na década de 70). Entre outras tentativas de influenciar nosso comportamento.

Aqueles que defendem que o governo não deve auxiliar essas escolhas estão defendendo indiretamente que somente o setor privado o faça. E os que defendem que o setor privado também não faça, estão fora da realidade do que é um simples comércio.

A vantagem do Nudge é justamente tornar opcional o que o indivíduo vai escolher. A exemplo a doação de órgãos e Áustria e Alemanha. Em ambos o cidadão tem total liberdade de escolher se doará ou não seus órgãos. A diferença está em um Nudge, para os austríacos o empurrão é a favor da doação pois essa é a opção padrão no país mas para os Bávaros e seus conterrâneos a opção padrão exclui o doador. Nesse último caso o alemão deve optar por doar e registrar isso. A diferença de um país e outro passam de 80% em número de doação (Thaler & Sustein, 2008). Pense em quantas vidas foram salvas.

Outro ponto são os vieses, que são desvios sistemáticos do nosso funcionamento mental. Muitas vezes quando tomamos decisões eles auxiliam o que escolher e em geral com regras simplificadoras. Esses vieses nos acompanham ha tempos às vezes possuindo papéis importantes na nossa linha evolutiva (desde 70 mil anos atrás). Quando estamos em um momento de decisão é difícil desliga-los. Como a frase uma vez citada: “Quando uma flor não floresce você não repara a flor, você muda o ambiente em que ela cresce”.

E quem definiria o que é bom ou ruim? A reposta é: Experimentos. Os nudges devem ser testados incansáveis vezes com grupos controles para ver a efetividade deles. Devem ser renovados e caso não sejam validados devem ser descartados e pensado em algo melhor. A indústria farmacêutica vive dessa lógica a anos e a sociedade em geral aceita livremente.

Há um outro contraponto na balança do que é bom ou ruim. O arquiteto de escolha, que está criando o nudge, deve se perguntar “Eu teria problemas para explicar o que estou fazendo com essa pessoa?” ou “Se eu aplicasse isso em um parente, eu entendo como algo positivo?” Por fim, o nudge para ser viável pode ser revelado a quem é aplicado.

Aos que defendem que todas essas são formas de manipulação que são senhores das próprias escolhas e que as pessoas devem ser livres para escolher, sugiro que comecem a se questionar sobre o próprio livre arbítrio. Se questionem em que momento e quando tomaram alguma decisão e o que embasou essa decisão. Provavelmente terão dificuldade em achar resposta, e então como um passe de mágica uma racionalização aparecerá com a resposta para você.

Referências:

Bem-estar e Felicidade – Gigerenzer 2015.

Felicidade Construída, Como Encontrar Prazer e Propósito no Dia a Dia – 2015.

G1 – Reportagem acessada em: https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/sobrepeso-obesidade-em-alta-no-brasil-diz-onu-20819122.

Nudge, Improving Decisions About Health, Wealth and Happines – 2008.

Sapiens, Uma Breve História da Humanidade – Harari, 2011