As vezes quando pensamos em intervenções comportamentais, logo imaginamos algo ao estilo pegadinha. Muito do que se tem propagado sobre Nudges, pode parecer até certa forma simplório ou apenas uma “sacada” descolada e inteligente que faz com que pessoas tenham incentivos adicionais a adotar determinados comportamentos.

Não existe engano maior do que este.

É verdade que algumas intervenções comportamentais impressionam pela criatividade, mas posso garantir que por detrás até mesmo das intervenções (Nudges) mais “descolados” há muita ciência, análise, perspicácia e dedicação dos envolvidos para que haja efetividade das ações propostas.

Minha primeira experiência formatando uma intervenção com Nudge, foi muito desafiante do que poderia imaginar quando li pela primeira vez o Best Seller de Ricahard Thaler sobre o tema. Não que tivesse negligenciado o planejamento, ou que estivesse mal assessorado. Posso garantir que recebi um suporte além das expectativas, de uma equipe simplesmente espetacular.

Mas acontece que programar intervenções que promovam mudanças em comportamentos não é nada simples. Primeiro porque há pessoas envolvidas. Se aprendi algo nesses últimos anos lendo e estudando economia comportamental, é que pessoais nem sempre respondem a incentivos. É preciso que o(s) incentivos tenham coerência. É preciso que as intervenções considerem inúmeras variáveis comportamentais, ambientais, culturais, econômicas…

Resumindo, é preciso muito mais do que uma boa ideia ou uma “sacada” qualquer, para que os resultados positivos ou negativos encontrados em experimentos comportamentais tenham validade. Muitas das críticas negativas à Economia Comportamental residem no fato de que os experimentos (intervenções) foram pouco ou nada replicados (repetidos).

Por isso mesmo, pode ser que os achados até o momento sejam ou de magnitude mais restrita. Pode ser ainda que sejam mera singularidade de determinada população, não podendo ser generalizado para ambientes diferentes daquele em que o estudo (experimento / intervenção) foi realizado.

Outra crítica constante, se refere ao fato de que grande parte dos resultados encontrados se referem a pesquisas com estudantes. Nada contra, afinal de contas somos todos humanos, mas generalizações podem neste caso, contaminar os resultados com vieses mais fortemente presentes nos estudantes pesquisados, porque não?

Independente de tudo isso, não há motivos para desolamento, afinal de contas é exatamente dessa mesma forma que ciência evolui em todo campo do conhecimento. Não era de se esperar que na Economia Comportamental fosse diferente!

Desde a descoberta dos Raios-X, que certamente abreviou a vida do físico alemão Wilhelm Conrad Rontgen (1845-1923), seu criador. Passando por tantos outros pesquisadores, do uso de choques elétricos para tratamento de doenças mentais à criação da fusão nuclear que culminaria na bomba atômica, a ciência avança, com muitos acertos, mas cobrando caro por seus erros.

E é assim que a Economia Comportamental vai evoluindo. As críticas certamente irão se depurando com o tempo. Da mesma forma em o preço do avanço será cobrado. Muitos sofrerão pela existência insistente de pessoas mal-intencionadas, com régua ética excessivamente dilatada. Outros, no entanto colherão as benesses e ao final do processo, certamente a ciência econômica sairá fortalecida.

Muito mais do que simples maneirismos, o uso de nudges e outras formas de intervenções comportamentais são métodos que precisam de rigor científico apurado. Não saia por aí comparando toda história bem-sucedida de uso de nudges ou qualquer outro tipo de intervenção baseada na Economia Comportamental, sem antes observar cuidadosamente a metodologia utilizada e todo o background científico que deu suporte à mesma.

No entanto cabe um alerta: não confunda rigor científico com rigor acadêmico, nem muito menos pesquisa científica com pesquisa acadêmica. Ambas têm seu valor e suas diferenças. O que as difere, no entanto, deve ser apenas o ambiente onde são realizadas e não os caminhos e precauções adotados na elaboração de seus estudos e na publicação dos resultados associados a eles.

Nos últimos meses tenho visto uma montanha quase infinita de pessoas e empresas alardeando e dando conta de anunciar aos quatro cantos, resultados da aplicação de nudges em tudo que é lugar. Muitos pregam ter encontrado o novo eldorado do marketing. Outros usam termos descolados como growth hacking e tantos outros, preocupados em entregar algo que venda, algo cool.

A verdade sobre esse enxame de oportunistas de palavras chaves como nudge? Quase que a totalidade apresenta dados sem nenhuma formalidade. Propagam resultados de bases de dados que são verdadeiras caixas pretas. E usam isso na grande maioria para vender nada menos do que os mesmos serviços a muito oferecidos por competentes profissionais de marketing, publicidade, data analytics e por aí vai. Outros tantos se ancoram no empirismo torcendo para que a coincidência e o acaso continuem garantindo bons resultados.

Muitos farão fortunas vendendo ilusões como a do pote de outro ao final do arco-íris.

Como bom e velho cético, vou passando os dias selecionando muito bem aquilo em que acreditar e em quem acreditar. De resto, vou finalizando por aqui fazendo uma analogia ao livro de Nassin Nicholas Taleb, deixando os oportunistas por conta dos “Cisnes Negros”.