Você já fez, ou já ouviu falar, da “dieta do pratinho?”

Se você não conhece, é bem simples: a ideia é que você utilize pratos menores para as refeições, assim acaba colocando uma porção menor de alimento e cria-se a impressão de que a quantidade de comida é bem maior, pois o prato está “cheio”.

Já ouviu aquela frase: comemos com os olhos??

A dieta é fundamentada na Ilusão de Delbeouf, descoberta pelo psicólogo belga Joseph Delbeouf em 1845. Aquela imagem clássica de dois círculos pretos exatamente do mesmo tamanho circunscritos por dois círculos brancos de tamanhos diferentes, um menor e outro bem maior. Olha só:

ilusao delbeouf

Ilusão de Delbeouf. By Wikipedia

 

Agora é só trocar os círculos pretos por um pedaço de torta de frango (hhhmmm!) e voilà! Restaurantes utilizam desse truque há tempos e acredito que você já deve ter passado por uma experiência dessas.

Em um experimento simples de Koert Van Ittersum e Brian Wansink, em 2012, foram expostas tigelas de diferentes tamanhos para o pessoal se servir. As pessoas acabavam colocando mais sopa quando a tigela era maior, e consequentemente comendo mais do que a s pessoas que se serviam em tigelas pequenas.

Escassez, o tamanho da moeda e das pizzas

Recentemente dois psicólogos, Noa Zitron-Emanuel e Tzi Ganel, da Ben-Gurion University of the Negev, em Israel, divulgaram um artigo interessante. Os pesquisadores queriam ver se efeitos motivacionais, e até de escassez, poderiam influenciar na percepção da Ilusão de Delbeouf.

No brilhante livro Escassez: Uma nova forma de pensar a falta de recursos na vida das pessoas e nas organizações, de Sendhil Mullainathan e Eldar Shafir, é relatado uma pesquisa onde crianças pobres distorcem o tamanho da moeda, superestimando mais do que crianças ricas — as moedas de U$$0,25 e U$$0,50 foram as mais distorcidas. Um conceito forte que permeia todo o livro é que a escassez gera uma captura da atenção e pode alterar a experiência do indivíduo.

(…) A captura da atenção pela escassez afeta não apenas o que vemos ou a rapidez com que vemos, mas também o modo como interpretamos o mundo. — Sendhil Mullainathan

O psicólogos israelenses dividiram dois grupos para iniciar o experimento. Um grupo ficou sem comer por três horas antes do experimento e o outro foi permitido comer 1 hora antes do iniciarem os estudos. As imagens ilusórias de Delbeouf incluíam itens alimentícios (pizzas em bandejas) e não alimentícios (círculos pretos dentro de círculos brancos e calotas de pneu).

O resultado mostrou que os dois grupos foram igualmente suscetíveis ao efeito Delbeouf quando os itens não eram alimentícios. Já para as pizzas, o grupo que havia sido privado de comida estimou os pedaços nas bandejas com um tamanho menor do que o outro grupo. Ou seja, ambos os grupos foram igualmente imprecisos ao julgar o tamanho das calotas e dos círculos, mas o grupo que estava com fome estimou com mais precisão o tamanho das pizzas do que os participantes que estavam satisfeitos.

Note que, diferente dos garotos que viram as moedas com tamanhos distorcidos, aqui as pessoas com fome foram mais precisas ao notar o tamanho das pizzas. Esse é outro fator que a escassez também provoca: o aumento de foco. Quanto mais tempo sob a escassez, mais a sua atenção é capturada e sua mente passar a focar quase que exclusivamente sobre o que esta sendo privado. Vale esclarecer também que a escassez utilizada nas estratégias de marketing e vendas possuem outros aspectos e uma outra abordagem que não cabem aqui.

Estes estudos sugerem que fatores motivacionais afetam a forma como nós observamos a comida.

O cérebro faz pressupostos para poupar tempo e recursos e tenta ver o mundo apenas na medida em que ele precisa — David Eagleman

O que os psicólogos israelenses conseguiram mostrar é que nossas tentativas de nos enganar para comer porções menores usando a ilusão de Delboeuf não irão funcionar tão bem se estivermos com fome.

Uma ideia interessante seria utilizar pratos pequenos para realmente se servir de porções menores, mas também criar obstáculos para o caso de repetir o prato. Algumas que tive enquanto escrevia este post:

  • se for repetir, o segundo prato é mais caro;
  • esperar alguns minutos para poder se servir novamente;
  • diminuir opções do cardápio;
  • um prato menor que o primeiro (um pires?? hahah)  para quem repetir.

Essas “barreiras” podem ajudar no autocontrole, diminuir a impulsividade e dar tempo para o Sistema 2 entrar em ação. O que acham?

Na dúvida, amigos e amigas de racionalidade limitada, não vá com tanta sede ao pote me parece ser o ditado popular mais adequado. Coma aquela fruta antes do almoço pra dar a famosa “forrada” na barriga 🙂