As novas máquinas de cartão de crédito podem estar sendo maliciosamente configuradas para reduzir ainda mais sua “dor de pagamento”. Às vezes pode parecer que estou ficando esquizofrênico e talvez seja esse mesmo o caso rsrsrs, mas essa semana ao pagar uma despesa com cartão em uma nova máquina de cartão de crédito, fiquei com a impressão de que uma pequena mudança pode não ter sido mera distração ou coincidência.

A mudança é simples, mas inclui uma inovação interessante na forma como fazemos nossos pagamentos com cartão de crédito. Essa nova máquina tem dois visores, ao estilo das balanças de supermercado que mostram um display para os vendedores e outro para os consumidores.

Na nova máquina o display do consumidor é pequeno e mostra o andamento da transação, mas uma pequena mudança fez toda a diferença quando fui efetuar o pagamento.

Nas máquinas convencionais de apenas um visor, você recebe a máquina após lançamento da despesa para que seja inserida a senha que autoriza a transação. Nesta tela vemos além do campo de senha a ser digitada, o valor da despesa.

Nem preciso comentar aqui o quão importante é conferir o valor, afinal de contas por ser uma tarefa tão recorrente em nosso cotidiano, é bem provável que a façamos de forma automática, sem pensar direito. Comportamentos automáticos são extremamente importantes para nossos processos cognitivos, mas nem sempre eles nos levam para as melhores decisões possíveis.

Já falamos aqui sobre a Teoria do Sistema Dual, que descreve nossos processos mentais como sendo organizados em dois sistemas: Sistema 1 e Sistema 2.

Pois então no momento do pagamento de uma despesa no cartão, por ser essa uma atividade frequente e rotineira para muitos, apresentamos a tendência de comportamentos automatizados (sistema 1). Nesse ponto não conferir pode nos levar a autorizar uma despesa num valor maior, simplesmente por um erro na digitação do valor pelo comerciante. Aqui neste ponto qualquer zero digitado a mais pode levar uma despesa de R$100,00 para R$1.000,00.

O grande problema de não conferir o valor de despesa é que após autorizar a operadora do cartão muitas vezes pode criar dificuldades na devolução ou estorno do gasto. Isto porque em tese não há falha alguma na segurança, afinal de contas você aprovou a despesa e a validou com sua senha pessoal.

Agora que todos já estão bem alertas de que é preciso conferir o valor antes de digitar a senha, volto ao tema central deste post que é a novidade no novo modelo de máquina de cartão.

Como já disse acima, modelos mais antigos de máquinas possuem apenas uma tela e nela é feito tanto o lançamento da despesa como a inserção da senha de autorização. Em geral em todas as telas das máquinas convencionais o campo de digitação de senha era mostrado na tela juntamente com o valor da despesa. Mas os novos modelos… Eles mostram na tela do consumidor apenas o teclado para digitação da senha. O valor não aparece junto na tela.

O novo modelo de máquina mostra o valor da despesa apenas a autorização do pagamento, ou seja, apenas depois de digitada a senha é que o display mostra o valor da despesa.

Descuido, desatenção ou má fé?

Como disse no início deste post, posso estar sendo meio esquizofrênico aqui, eu admito. Mas para mim as novas máquinas ajudam a reforçar alguns dos problemas dos pagamentos em cartão de crédito. Vamos a eles:

Automação da ação

Como vimos, pela recorrência e familiaridade com a tarefa, apresentamos uma tendência a automatizar o pagamento com cartão. Digitamos a senha, muitas vezes sem conferir o valor no momento da compra e isso é um grande risco, pois uma vez autorizada a despesa, o estorno vai depender não apenas da operadora do cartão, mas em muitos casos do comerciante. Sem pensarmos que muitos comerciantes hoje em dia não têm estabelecimentos fixos (food trucks, uber, vendedores autônomos…) encontrar o comerciante para esclarecer a situação pode simplesmente ser impossível.

Tem ainda viagens. Imagina checar em casa daquela viagem e descobrir que ao invés de pagar U$10,00 por chocolates belgas no free shop você acabou pagando R$100,00?

Dor de pagamento

Em geral pagamentos em cartão podem nos levar a comportamentos de compra descontrolados. Isso porque a pouca materialização do gasto, pago não em papel moeda (dinheiro), mas de forma eletrônica e virtual (cartão) tende a causar “menos dor” de pagamento. Alguns estudos em Economia Comportamental evidenciam inclusive que pagamentos em dinheiro apresentam maior dor de pagamento do que pagamentos com cartão.

É como se intimamente sentíssemos muito mais pagamentos em dinheiro do que em cartão. Como se fosse mais fácil cognitivamente falando, perder o controle dos gastos com cartão do que com dinheiro vivo. A explicação é simples, nem sempre pagamentos em cartão apresentam o feedback negativo de “perder” o dinheiro, de estar dando um montante determinado de dinheiro em troca de algo. Basicamente há menos materialização da compra quando a mesma é paga com cartão.

Mas é possível se proteger dessas armadilhas de consumo. Eu que já passei pelos dois casos narrados aqui, tendo autorizado um pagamento de valor incorreto e perdido o controle dos gastos com cartão, vou deixar algumas dicas que me ajudam a não cair em ciladas como essas.

dor-pagamento-change

1 – Olhe o extrato de sua conta bancária várias vezes ao dia, assim vendo o saldo disponível, você evita materializa exatamente quando tem na conta não ficando refém do cartão onde saldo a utilizar não significa capacidade de pagar quando a fatura chegar.

2 – Configure alertas de despesas. Cada despesa que faço no cartão, mesmo aquelas menores que dez reais, são alertadas via sms ou aplicativo do banco. Muitos bancos pararam de enviar alertas quando gastos são menores que cinquenta reais, mas é possível reconfigurar para que o alerta seja enviado independente do montante gasto.

3 – Acompanhe o total gasto no cartão diariamente isso ajudará você a evitar gastar além da conta, pois estará vendo o total gasto comprometido no cartão. Lembre-se de considerar o total do limite utilizado e não o valor das faturas, pois com o total do limite considera as compras à prazo evitando que você perca seu orçamento no horizonte temporal.

Dicas simples para ajudar você e não ser anestesiado pela rotina, o automatismo e a facilidade em gastar com o cartão. Pode ser que mesmo assim você tenha dificuldade em manter o controle. Não se desespere, disciplina financeira requer treino.

Da mesma forma que você treinou por muito tempo o pagamento facilitado em se com “dor minimizada” ao pagar com cartão, você terá que treinar novamente a se comportar de outra forma. No entanto é possível fazer e podem acreditar, o resultado é a melhor parte!

Até o próximo post pessoal!