O termo ilusão da moeda diz respeito a como decisões envolvendo valores monetários podem ser influenciadas pelo desconhecimento, fadiga cognitiva ou mera distração referente a conceitos ligados às análises financeiras. Essa confusão tem origem quando eu ou você, também conhecidos como agentes econômicos, avaliamos os preços em termos nominais.

Quando falo de termos nominais quero dizer que em geral quando avaliamos algum valor, desconsideramos os efeitos da inflação nestes valores avaliados e suas influências ao longo do tempo. É mais simples pensar a inflação como sendo uma espécie de preço do dinheiro. Como assim?

Imaginem que na data de hoje, cem reais comprem dez pacotes de arroz. Em um cenário onde não haja inflação, daqui a cinco anos, conseguirei comprar a mesma quantidade de pacotes de arroz pelo mesmo valor. Com isso temos que hoje, cada saco de arroz nos custa dez reais (R$100,00 dividido por 10 pacotes = R$10,00 cada pacote).

Passados os cinco anos, saio às compras, pego os mesmos cem reais e volto ao mercado para comprar meus pacotes de arroz. Mas acontece que, passados os cinco anos, não consigo mais comprar dez pacotes. Os meus cem reais agora conseguem comprar apenas oito pacotes.

O que isso quer dizer?

Ora, cem reais continuam sendo cem reais, mas agora, passados cinco anos estes cem reais conseguem comprar apenas oito pacotes, dois a menos do que comprava cinco anos atrás. Pois então, esta é a inflação. Ela faz com que o dinheiro perca valor e isto quer dizer que uma mesma quantia (valor nominal) passou a valer menos, pois serve para comprar menos produtos (neste caso, dois pacotes a menos de arroz).

Para que serve então isso tudo? Você deve ter percebido que o valor nominal, pode nos levar a tomar decisões ruins em relação ao dinheiro. Por exemplo, imaginem que eu tenha guardado os dez pacotes de arroz durante os cinco anos. (Desconsiderem o fato de os pacotes, terem estragado ou perdido a validade, apenas como exemplo.

Após cinco anos se desconsiderasse a inflação, eu teria os dez pacotes de arroz, valendo o mesmo valor que à época comprei. Se considerar o arroz como um investimento, poderia vender os dez pacotes a R$100,00 sem problema que teria recuperado todo o valor que investi.

Mas a uma inflação acumulada de 20%, os pacotes de arroz valem agora R$120,00 e vender ao valor nominal R$100,00 é realizar uma perda de 20%, afinal de contas, se for ao mercado para repor o arroz vendido, conseguirei comprar apenas oito pacotes e não mais os dez.

Considerando que os agentes são tomadores de decisões sujeitos a erros sistemáticos e vieses cognitivos, o desconhecimento das diferenças entre valores nominais e reais pode levar a resultados não ótimos, produzindo assim decisões equivocadas.

Em suma a diferença entre valores nominais e reais está na consideração ou não da inflação.

Dessa forma valores nominais devem ser relativizados, considerando a inflação vigente e comparando o valor real (considerando inflação) hoje com o nominal à época que se está comparando.

Os valores reais, descontam o nível de inflação e de certa forma reproduz o valor em termos de manutenção do poder de compra.

Quando falo de poder de compra, me refiro ao fato de o mesmo montante de dinheiro conseguir comprar a mesma quantidade de um determinado bem, em nosso exemplo, o arroz.

Por fim é possível fazer uma analogia como se a inflação fosse uma espécie de “valor do dinheiro”. Dessa forma quando maior a inflação, menor o valor do dinheiro, o que significa que uma mesma quantidade de dinheiro após períodos inflacionários, possibilitaria a aquisição de uma menor quantidade ou cesta de bens.

Assim, apresentar ilusão da moeda é desconsiderar os efeitos da inflação para o preço ou valor de algo e decidindo como base nos valores nominais. Como já comentei acima, avaliar algo em termos apenas de valores nominais, desconsiderando a inflação, pode nos levar a decisões financeiras equivocadas.

Então antes de avaliar se aquela sua aplicação na poupança ou qualquer outro investimento, ou quando for comprar ou vender algum bem, não se esqueça de avaliar a inflação acumulado no período entre a compra e a venda.

Um apartamento comprado por R$500 mil reais a cinco anos, por exemplo, tem seu valor justo (preço de compra mais valor da inflação) em R$661 mil reais. Essa conta nada mais é do que o valor pago incialmente pelo apartamento (R$500 mil) somado com a inflação acumulada dos anos de 2013 a 2018 (32,23%) como pode ser visto na tabela abaixo.

Para então não ter perdido dinheiro, ou seja, para vender um apartamento mantendo seu valor em termos de paridade do poder de compra, o preço que devemos anunciar seria de R$661 mil. Qualquer valor abaixo deste, estaria nos entregando uma quantia que compra menos bens do que compraríamos em 2013 com os mesmos R$500 mil que pagamos pelo apartamento.

Não é fácil gerir as finanças no dia a dia, mas considerar em toda transação que fazemos de compra ou venda o valor da inflação pode garantir que estejamos na pior das hipóteses mantendo nossa riqueza, que nada mais é do que manter o poder de compra do nosso dinheiro ou das nossas economias ao longo do tempo.

Pense nisso quando for avaliar se o rendimento de suas aplicações ou poupança estão rendendo minimamente o necessário para que você, pelo menos, mantenha o valor do seu dinheiro no tempo. Se seus investimentos não crescem acima da inflação, na prática, mesmo havendo rendimento positivo, eles acabam valendo menos e você está sim, perdendo dinheiro.

Então chega de ilusão pessoal! Se não for acima da inflação nem quero!