Viver tem se transformado num enorme desafio de autocontrole e esforço cognitivo. Digo isso porque parece que nossas fraquezas foram amplamente reveladas e apropriadas por pessoas nem sempre bem-intencionadas. Essa bem que poderia ser uma narrativa de filmes de ficção, mas não é.

Na busca por resultados exponenciais, muitas empresas têm se apropriado das descobertas das ciências sociais. Apesar de acreditar que essa apropriação ainda é feita de maneira meio intuitiva e às vezes até mesmo sem querer, o fato é que tenho me percebido cada vez mais refém de algumas estratégias que exploram seguem al nossos vieses e heurísticas.

Essa semana troquei a TV da sala de casa. Nada demais, apesar de usar cada vez menos a TV, em casa o aparelho ainda tem usuários fiéis. Mas surpresa que antes se restringia a qualidade de som e imagem, passou para entender como novos produtos estão utilizando estratégias baseadas em comportamento para alterar nossa preferência e claro, nossos hábitos.

Após instalar a TV e fazer o setup inicial fui tendo algumas surpresas, admito, inesperadas.

A primeira, foi que antes de solicitar a configuração de sintonia de canais, a TV pediu a senha do Wi-Fi. Isso mesmo! Pode parecer algo sutil, mas por detrás desse passo a passo inocente, a primeira configuração feita na TV nova foi a dos aplicativos de streaming de vídeo. E não pense que foi apenas no Netflix.

O setup incluiu todo tipo de aplicativo mainstream e de outros nem tanto mainstream assim. O primeiro a solicitar configuração foi o Netflix. Depois veio em ordem: Amazon Prime, Spotify e GloboPlay. Não penso que seja coincidência essa ordem, nem mesmo que seja uma facilidade implementada pelo fabricante da TV para ajudar aqueles que tem dificuldades de configuração.

Como vocês poderão ver mais à frente, acredito que o fabricante percebeu os benefícios que poderia agregar em seu produto quando combinado a outros. E de quebra ainda fez uso, ou se deixou utilizar por produtos como Netflix para implementação de estratégias baseadas em Nudge.

Se você não sabe o que é Nudge, pode clicar aqui e consultar nosso glossário.

Logo após o setup e já com diversas pulgas atrás da orelha, reparei que o controle remoto também tinha algo inusitado. Como dizem que uma imagem vale mais do mil palavras… Resolvi tirar logo uma foto.

Perceberam a saliência?

Certamente um Nudge concordam?

Mas o fato de ter ali no controle um nudge é emblemático e acredito que isso marca uma nova era para os fabricantes de TV. A verdade é que fiquei pensando quando que o Netflix e a Amazon pagaram para a LG para que fosse incluído no controle de suas TV`s um botão de acesso rápido.

Os defensores do Marketing 3.0 cunhado por Kotler como sendo baseado na experiência de consumo e co-criação podem alegar que esta mudança se deveu por pesquisas de necessidades dos consumidores atendidas pela fabricante da TV. Mas sinceramente, acredito que não seja o caso, afinal de contas o Amazon Prime é recente demais e ainda muito incipiente para direcionar um número considerável de opiniões a ponto de sensibilizar um fabricante a inserir um botão com esse visto no controle.

Mas então como os botões foram parar ali?

Se dissesse que sei estaria mentindo aqui, mas nem por isso vou deixar de expressar aqui o que acredito ser a verdadeira razão dos botões no controle.

Antes de mais nada acredito que os botões no controle são estratégias baseadas em Nudge implementadas pelas empresas de streaming. Não estranhe essa minha análise, ela se baseia numa segunda suspeita minha a respeito da estratégia, que tem como ator principal a fabricante de TV.

Me parece razoável pensar que as fabricantes de TV tiveram que se aproximar bastante de empresas de streaming como como a Netflix, Amazon Prime e outros tantos. Então como não existe oportunidade perdida o que penso que as fabricantes de TV fizeram?

Venderam espaço em suas plataformas de TV para que as empresas de streaming pudessem implementar as estratégias baseadas na Economia Comportamental, no caso aqui Nudges. Essa estratégia de vender espaço já é comum em outros negócios como varejo de supermercados, vitrines de varejo em geral e muitos outros.

Então parece, pelo menos para mim, que é bem razoável que fabricantes de TV estão entregando seus produtos com direcionamentos claros para determinadas funcionalidades. No exemplo aqui, tanto o setup que privilegiou a configuração dos aplicativos e da internet como o controle com botões salientes para os serviços de streaming, podem sim ser desdobramentos de análises onde as ciências comportamentais estão sendo usadas fortemente.

Nada contra! Mas como disse no início, está cada vez mais complexo domar o autocontrole e ter o domínio completo de nossas decisões. A continuar assim vejo no horizonte duas saídas:

OU perderemos cada vez mais o controle sobre nossas escolhas ou a espécie humana evoluirá para depurar determinadas heurísticas, vieses e efeitos que alterações sutis na arquitetura de escolha possam provocar.

Vou terminando por aqui, afinal de contas tenho que ir ali religar o Netflix.

Até a próxima pessoal.