O varejo brasileiro com o passar do tempo, vem se tornando uma das maiores armadilhas financeiras, neste post vou mostrar algumas que identifiquei na minha última visita a uma loja física.

O varejo tem inovado e se reinventado, mas não pense que é apenas no comércio online. Essa semana vasculhando algumas fotos aqui encontrei registros de minha última visita a uma loja física do varejo bem famosa.

Na época me chamou a atenção a diversidade de serviços oferecidos e como os vendedores estavam treinados em empurrar um monte de besteiras que eram vendidas como benefícios, mas na verdade eram grandes ciladas armadas para fisgar consumidores como tolos.

Em Economia Comportamental quando falamos de Nudge, remetemos a pequenos “empurrões” que direcionam as pessoas para escolhas sem no entanto restringir opções ou oferecer incentivo financeiros. Na prática quando falamos de Nudge, pensamos em “empurrões” que preservam a autonomia de escolha das pessoas.

E penso ser esse o caso da loja, no entanto as formas de abordagem e as escolhas para as quais os consumidores estavam sendo empurrados eram verdadeiras armadilhas, feitas para burlar nosso autocontrole, explorar compras por impulso e vender embustes disfarçados de prêmios e benefícios.

Explorar determinados contextos para levar consumidores a comportamentos impulsivos ou automatizados nem sempre levam a escolhas ótimas. Frequentemente Nudges usados para este fim conduzem consumidores a comprar aquilo que não precisam ou não querem. Outros vendem ilusões, ou “benefícios” que servem unicamente para aumentar o gasto do consumidor, entregando serviços desnecessários e, como é o caso da loja em que estive, até mesmo produtos que são verdadeiros jogos de azar.

O primeiro desses supostos benefícios, estava disfarçado de prêmio. Um caso clássico de loteria onde, se lermos de forma bem atenta, o anúncio diz: Gaste seu dinheiro e tenha a chance de não ganhar nada. A sacanagem é tanta que logo abaixo das letras garrafais do anúncio, tem um texto em letra miúda que conta a verdade sobre aquilo que está sendo oferecido.

Mas advinha só?

A tal da recarga premiada é vinculada a título de capitalização, uma espécie de loteria, mas no caso em questão há uma situação que deixa a sacanagem promoção ainda mais sacana. Diferente dos demais títulos de capitalização, ela não menciona a devolução do valor investido. Ou seja, á uma aposta descarada, praticamente um jogo de azar.

Pensou que a sacanagem para por aí? Se enganou, tem muito mais!

Outra armadilha (vou chamar assim as sacanagens daqui em diante) são os consórcios. Além de serem um tipo de financiamento disfarçado, consórcio é um tipo de instrumento financeiro que em nada ajuda o consumidor. E nem me venha com o papo de que consórcio ajuda a juntar dinheiro! Não mesmo!

Deixe de ser sem vergonha e passe a juntar dinheiro em alguma aplicação que renda juros e não em um produto financeiro que cobra juros (taxas de administração) para guardar seu dinheiro. Imagine isso! Você empresta seu dinheiro e paga taxa ao invés de receber juros! Não sejam tolos pessoal. Mais sobre a sacanagem que é consórcio… Clica aqui e leia esse outro post meu.

O consórcio na loja, nem poderia ser chamado de Nudge, porque afinal mais parecia uma obrigação do que uma saliência que conduzia consumidores para uma escolha. Os funcionários ofereciam consórcio como quem vende um bilhete premiado de loteria, ou seja, o melhor negócio do mundo. Na verdade o consórcio é apenas mais um embuste.

E tem mais! E como sou legal, deixei o pior para o final.

A terceira armadilha é um verdadeiro chute no… Deixa para lá!

Vejam que o nome do embuste é bem bacana: TROCO PREMIADO!

Nossa quando li o nome fiquei até emocionado. Pensei que se pagasse em dinheiro levaria um desconto maior e portanto receberia um prêmio que seria um troco maior.

Como vocês já sabem, não era nada disso. Era apenas mais uma armadilha disfarçada de benefício. E vou repetir:

ARMADILHA!

O troco premiado é um serviço de suporte telefônico para tirar dúvidas em relação ao produto adquirido. O serviço pago com valores variando de R$5,00 a R$20,00 dá direito a ligar quantas vezes quiser para o suporte pelo prazo de trinta dias.

A grande sacada é que apostando seu troco você concorre a prêmios, ou seja, mais um título de capitalização disfarçado de serviço. Eu assustei ao perceber a sofisticação do produto financeiro. No site da loja, o regulamento consta que o consumidor se for contemplado será contatado pelo telefone, mas te pedem o número de telefone quando você compra? Às vezes!

Para mim pelo menos não pediram. Se bem que também não apostei no Troco Premiado!

É de impressionar que a SUSEP chancele esse tipo de sacanagem. Isso porque ela tem como missão:

“Desenvolver os mercados supervisionados, assegurando sua estabilidade e os direitos do consumidor.”

SUSEP (Retirado do link: http://www.susep.gov.br/menu/a-susep/apresentacao

Não sei vocês, mas penso que meus direitos como consumidor não foram totalmente preservados. Principalmente quando à clareza do produto oferecido na loja.

Para finalizar, porque as coisas sempre podem piorar…

Ainda tinha oferta de crédito consignado! Gente, sinceramente o varejo apelou! Oferecer crédito consignado e sem consulta ao SPC e SERASA é apelação demais. Fico pensando como é que estamos vulneráveis a esse tipo de sacanagem financeira.

Bem lá às vistas de todos e sendo ofertado ostensivamente pelos vendedores, que nada têm a ver com a questão e são também reféns do sistema espúrio, está o ambiente da loja todo configurado para nos fazer sucumbir e replicar péssimas decisões.

Não está fácil para ninguém! Mas fica mais difícil quando certas práticas que deveriam ser coibidas são endossadas por órgãos do Governo. E depois aparecem certos moralistas que se opõem aos jogos de azar. Os jogos de azar estão por toda parte agindo na surdina, camuflados pela legislação falha que nem de longe equilibra a relação entre o varejista e o consumidor.

Salve-se quem puder!