O crime compensa? Para alguns sim! Mas para muitos outros não compensa mesmo. Muitos pensam que desonestidade tem a ver com custo benefício, mas pesquisas realizadas em Ciências Comportamentais mostram que não é bem assim.

Segundo Dan Ariely, um dos principais estudiosos do comportamento na atualidade:

“As pessoas em geral, querem se comportar de forma honesta.”. (Ariely 2012).

Dan Ariely

Mas então você deve estar se perguntando:

Se todos realmente desejassem se comportar de forma honesta, não era para termos menos ou quem sabe até nenhum caso de corrupção pelo mundo? Ou ainda, se todos desejam a honestidade porque a corrupção é tão disseminada atualmente pelo mundo?

Infelizmente as coisas não se explicam de forma tão simples. Nós humanos somos dotados de uma racionalidade limitada e isso nos leva, não raro, a comportamentos insensatos, irascíveis e inexplicáveis.

Segundo Ariely, ao optar por comportamentos desonestos, as pessoas, ao contrário do que está presente no senso comum, não pensam nos custos ou benefícios do comportamento desonesto. Assim não há situação a princípio em que pessoas fazem cálculos de viabilidade, assumindo riscos em situações onde a ponderação entre o risco de ser pego é menor do que o benefício que o ato ilícito.

É interessante perceber que pesquisas na área da desonestidade identificam não haver relação direta entre severidade da pena ou punição e disposição a cometer algum ato desonesto. Dessa forma pensar em penalidades mais severas não garantem intimidação que possa resultar em redução ou contenção de atos ilícitos.

Mas então qual a dinâmica ou gatilho dos comportamentos desonestos?

Como já mencionado aqui, o autor Dan Ariely acredita que a maioria das pessoas quer se comportar de forma honesta, a menos que tenha “permissão” ou consiga justificativa moral suficientemente razoável, (se é que isso seja possível) para sentir que a trapaça menor é justificada. Seja lá por qual motivo for.

Não podemos deixar de considerar que existem, além da auto justificada moral pessoal, outros fatores que podem aumentar a propensão a comportamentos desonestos. E aqui é importante o destaque de que comportamento desonesto é qualquer ação que resulte em quebra de uma regra pré-estabelecida ou conduta moral estabelecida. Seja colar numa prova, não devolver um troco errado ou no extremo, assaltar um banco, ambos são comportamentos considerados desonestos.

Atenção!

Se você leu o parágrafo acima e achou exagero colocar num mesmo cesto colar na prova e assaltar um banco, você pode estar perigosamente auto justificando um comportamento desonesto. Neste ponto muito cuidado, pois você já ultrapassou a mais importante barreira que separa seu comportamento da armadilha da desonestidade.

Ariely em seu livro e experimentos comportamentais comenta que a trapaça pode ser contagiosa. Segundo ele o comportamento de um grupo terá um efeito poderoso sobre a decisão ou não de cada pessoa em adotar comportamentos desonestos.

Em Economia Comportamental, algumas heurísticas e vieses tem relação direta com a influência dos outros em nosso comportamento. Os mais comuns a meu ver são: comportamento de manada e provas sociais.

COMPORTAMENTO DE MANADA (Via: Behavioural Economics)

Esse efeito é evidente quando as pessoas fazem o que os outros estão fazendo, em vez de usar suas próprias informações ou tomar decisões independentes. A ideia de pastorear tem uma longa história em filosofia e psicologia de massa. É particularmente relevante no domínio das finanças, onde tem sido discutido em relação à irracionalidade coletiva dos investidores, incluindo as bolhas do mercado de ações (Banerjee, 1992). Em outras áreas de tomada de decisão, como política, ciência e cultura popular, o comportamento de manada é por vezes referido como “cascatas de informação” (Bikhchandi, Hirschleifer, & Welch, 1992).

PROVAS SOCIAIS (Via: Behavioural Economics)

A influência exercida por outros em nosso comportamento pode ser expressa como normativa ou informativa. A influência normativa implica conformidade a fim de ser aceita ou apreciada (Aronson, Wilson, & Akert, 2005), enquanto a influência informacional ocorre em situações ambíguas onde não temos certeza sobre como nos comportar e buscar informações ou pistas para os outros. A prova social é uma influência informativa (ou norma descritiva) e pode levar ao comportamento de manada. É também por vezes referido como uma heurística.

No livro Ariely menciona ainda:

“Há forças racionais que pensamos conduzir o nosso comportamento desonesto – mas não. E há forças irracionais que não pensamos em conduzir o nosso comportamento desonesto – mas sim.”. (Ariely 2012).

Dan Ariely

Em outras palavras, mentir, trapacear e adotar comportamentos previsivelmente irracionais estão intimamente conectados.

Não sei vocês, mas mesmo estudando tanto e aceitando ser um indivíduo de racionalidade limitada, tenho resistência a aceitar que em algum momento posso me enganar e distorcer minhas convicções morais em benefício próprio. Seguindo na linha de raciocínio do autor:

“Essencialmente, trapaceamos até o nível que nos permite manter nossa autoimagem como a de indivíduos razoavelmente honestos.” (Ariely 2012).

Dan Ariely

Mas o que pode parecer estranho à primeira vista é mais comum do que pode parecer. Afinal de contas quem nunca justificou um comportamento desonesto com frases do tipo:

“Todo mundo faz.”

“Eles nem vão dar falta.”

“É só dessa vez.”

Viu só, se comportar de forma desonesta pode ser mais comum do que possamos pensar. Um antigo professor meu dizia que sempre quando corrigia provas e as entregava aos seus alunos uma coisa o incomodava. Ele me disse uma vez que nunca havia errado uma nota para mais, ou seja, nenhum aluno nunca reconheceu ter recebido nota a mais. Em compensação notas a menor por erro na soma ou correção eram sempre muito frequentes.

Honesto ou desonesto, certo ou errado, com se manter na linha mesmo nas pequenas coisas? Como escapar de comportamentos amorais?

Uma frase que circula muito na internet serviu para mim como um ótimo gatilho mental para evitar desvios morais no dia a dia.

Sempre que alguma situação se apresenta, logo me vem à mente essa frase. Tem dado certo até agora. Espero que funcione para você também!

Até o próximo post pessoal!

 

Referências

ARIELY, Dan. A mais pura verdade sobre a desonestidade. Rio de Janeiro: Campus, 2012.

BANERJEE, A. (1992). A simple model of herd behavior. Quarterly Journal of Economics, 107, 797-817.

BIKHCHANDI, S., Hirschleifer, D., & Welch, I. (1992). A theory of fads, fashion, custom and cultural change as informational cascades. Journal of Political Economy, 100, 992-1026.

ARONSON, E., Wilson, T., & Akert, A. (2005). Social Psychology (5th ed.). Upper Saddle River, NJ: Prentice Hall.

CIALDINI, R. B., Wosinska, W., Barrett, D. W., Butner, J., Gornik-Durose, M. (1999). Compliance with a request in two cultures: The differential influence of social proof and commitment/consistency on collectivists and individualists. Personality and Social Psychology Bulletin, 25, 1242-1253.