Já pensou que a Economia Comportamental também pode estar presente na linguagem? Neste post trago um exemplo de como a linguagem pode influenciar o comportamento.

Já tem algum tempo que venho me interessando na ligação existente entre linguagem e comportamento. Muitas vezes vejo discursos, entrevistas e até mesmo palestras e fico procurando conexões entre aquilo que as pessoas estão dizendo e seus comportamentos, sua história e atitudes.

Em algumas oportunidades chego a identificar a presença de alguns vieses e também a mapear determinados comportamentos incoerentes entre aquilo que a pessoa disse e suas atitudes. Em particular uma das coisas que mais tenho curtido estudar ultimamente, são discursos. Analisar a linguagem, os termos escolhidos ou ditos sem pensar, bem como o contexto que são ditos tem atraído muito muita atenção resolvi me dedicar a estudar mais a fundo.

Esse processo de estudo inevitavelmente me trouxe aqui para compartilhar um insight que tive ao assistir ao discurso da Primeira Ministra inglesa Theresa May. Vou colocar aqui abaixo o trecho que me chamou a atenção no discurso, volto em seguida explicando aquilo que vi. Ah antes que me esqueça. Não precisa assistir o vídeo todo, só até o minuto 2:23.

E não se preocupem em entender o inglês, eu vou traduzir logo abaixo.

No trecho ela diz:

“Anything which fails to respect the referendum or effectively divides our country in two would be a bad deal. And I have always said: No deal is better than a bad deal.”

Theresa May

“Qualquer coisa que não respeite o referendo ou divida efetivamente o nosso país em dois seria um mau negócio. E eu sempre disse: nenhum acordo é melhor que um mau acordo.”

Theresa May

Perceberam o detalhe? Não? Então deixa eu viajar aqui rsrsrs.

Quando a Primeira Ministra disse: “Nenhum acordo é melhor do que um mal acordo.” ela fez uso de framing (enquadramento).

De acordo com o conceito de framing definido pela Economia Comportamental, o enquadramento está relacionado às escolhas ou decisões. Aqui no entanto, estou ampliando o entendimento considerando que determinadas falas podem ser estruturadas de forma a enquadrar o entendimento das pessoas. Esse enquadramento tem por fim, o objetivo de direcionar os receptores da mensagem para um entendimento pré estabelecido por quem está comunicando algo.

No caso da Primeira Ministra, o discurso claramente explica e tenta amenizar os fracassos das negociações com a União Europeia passando a mensagem de que a falta de acordo é melhor do que um mal acordo. Em tese pode parecer que sim, mas a verdade é que, para a Primeira Ministra inglesa, a falta de acordo significa um retumbante fracasso profissional e enfraquece sua posição de liderança.

A verdade é que mesmo com algum acordo, saber o que acontecerá no pós Brexit com ou sem acordo é muito complexo.

Independente disso, voltando ao discurso de Theresa May, acho mesmo que ele cumpriu seu papel. Afinal de contas nõa se pode esperar que a Primeira Ministra vá declarar que está em preocupada com a falta de acordo, ou ainda, que a falta de um acordo ou um mal acordo seria uma verdadeira desgraça para o Reino Unido. Isso seria insanidade e nem de longe ajudaria a resolver o problema. Apenas criaria um ambiente de pânico levando a decisões ainda mais equivocadas e afastando ainda mais a tranquilidade do processo já tenso do Brexit.

É isso pessoal. Até o próximo post!