Quem estiver lendo sobre Economia Comportamental já deve conhecer a Linda. Ela é um personagem experimental e fictício que foi usado num experimento para avaliar a presença da heurística da representatividade.

Se você ainda não conhece a Linda… Fique tranquilo, vou explicar logo abaixo com um exemplo semelhante. Aproveito também para explicar o que é a heurística da representatividade.

Considere a seguinte informação:

Carlos adora esportes radicais. Acompanha campeonatos de parapente, quando era adolescente participou de diversos campeonatos de salto livre e quando está de folga gosta de experimentar novos esportes e se exercitar com frequência. Qual situação é mais provável?

A – Carlos é formado em educação física e personal training.

B – Carlos é chef de um restaurante de comida típica francesa.

Em geral, a grande maioria das pessoas responderia que Carlos é formado em educação física e personal training (opção A). Isso acontece porque segundo estudos em Economia Comportamental, isso se deve à heurística da representatividade.

HEURÍSTICA DA REPRESENTATIVIDADE

A definição formal de heurística da representatividade é:

A representatividade é uma das principais heurísticas de propósito geral, juntamente com disponibilidade e afeto, e é usada quando julgamos a probabilidade de que um objeto ou evento A pertença à classe B observando o grau em que A se assemelha B. Quando fazemos isso, negligenciamos informações sobre a probabilidade geral de ocorrência de B (sua taxa básica) (Kahneman & Tversky, 1972).

Definição via: https://www.behavioraleconomics.com

Finalmente após a explicação, passo para o verdadeiro assunto deste post que é, na verdade, ligado ao Facebook e seu CEO Mark Zuckerberg.

Sim a ideia é comentar sobre o CEO do Facebook.

Em meados deste ano, mais precisamente em abril, o CEO do Facebook foi chamado a dar explicações para o Senado dos EUA a respeito de como a rede social protege os dados de seus usuários e se estes dados são comercializados de alguma forma.

O estopim para que Mark Zuckerberg fosse convocado para se explicar ao senado fez parte do escândalo da empresa Cambridge Analytica, identificada como responsável pelo vazamento de dados de 87 milhões de pessoas, que a consultoria teria obtido do facebook.

O que me chamou mais a atenção, no entanto, não foi o depoimento do Mark Zuckerberg.

Quem já teve oportunidade de ver matérias, entrevistas ou vídeos do Zuckerberg deve ter reparado que ele está sempre com visual despojado usando em geral jeans, tênis e camiseta de malha azul. Esse estilo aliás é meio padrão em grandes empreendedores do ramo de tecnologia, Steve Jobs adotava praticamente o mesmo visual.

Eu não sei se fui ingênuo ou se estou vendo coisas onde não existe nada. Mas eu juro que esperava o CEO do Facebook aparecer para sua audiência no Senado dos EUA com o visual de costume. Até pensei que poderia colocar um blazer ou paletó para aumentar a formalidade. O que não esperava mesmo era ele ir de terno e gravata.

Mas ele foi exatamente vestido dessa forma. Não há como negar que é uma bela guinada no visual. Pode ser que ele tenha apenas respeitado o ambiente onde todos se vestem assim, pode ser que seja o caso de usar terno e gravata em ocasiões muito formais, mas eu tenho dificuldade em aceitar essa explicação simples.

Minha dificuldade não é à toa.

Eu realmente acho que tudo tem a ver com a necessidade de passar uma imagem de seriedade e profissionalismo. Para isso o CEO do Facebook com todos nós, nos ancoramos naquele estereótipo já consolidado na mente de praticamente todo mundo. Pessoas vestidas com bons ternos são automaticamente decodificadas como bem-sucedidas, sérias, responsáveis e etc.

Gosto de pensar que seja como dar de cara com um leão no meio da floresta. Você simplesmente não pensa em nada, você corre. Isso porque já criamos um atalho mental e um estereótipo dos leões. Se virmos algum leão pela frente, decodificamos a imagem e imediatamente nosso cérebro reage com um comportamento padrão. E então corremos ou paralisamos diante do medo.

No caso do Zuckerberg, e de tantas outras pessoas, acredito que a ideia do terno tenha sido um misto. Claro que determinados lugares demandam por pressão social inclusive, determinados trajes. Acredito que o Senado dos EUA possa ser um desses lugares.

Acredito também que houve a intenção de aproveitar heurísticas como a da disponibilidade para dar um reforço à imagem. E temos muitos casos semelhantes ao do CEO do Facebook.

O ex-presidente Lula vestiu terno para alterar sua imagem nos programas eleitorais de TV quando foi eleito. Para passar imagem de político sério, minimizando suas características negativas como não ter, por exemplo, curso superior.

Nas eleições desse ano, por exemplo, vários são os cases. Alguns me chamaram a atenção nos debates na televisão:

– Os adereços de Marina Silva, que sempre remetem a artesanatos com motivos muitas vezes indígenas e contrastam com terninhos que ela usa nos debates

– O terno mal cortado e com aparência de barato do Cabo Daciolo

– A informalidade de Guilherme Boulos que não vestiu nem paletó nem gravata

– O uso de paletó sem gravada do Álvaro Dias

Em todos os casos certamente a composição do visual foi propositada e com objetivo específico. Marina veste terninho, mas usa adereços tribais para remeter à sai causa principal que é meio ambiente. Cabo Daciolo, além de pouca verba, reforça uma de suas bandeiras como candidato evangélico e leva junto como adereço a bíblia. Guilherme Boulos quer ser o novo velho Lula e para isso retoma a simplicidade do candidato perdida quando havia motivos para acreditar que Lula era sério, honesto e pensava no povo. Álvaro Dias quis parecer garotão, mostrar energia e justificar as plásticas kkkk.

Mas eu acho que já falei besteira demais por aqui hoje. Então fechando por aqui e ficando com minhas paranoias a respeito da heurística da representatividade e também pe claro de um pouco de efeito halo, como vocês devem ter identificado também pode ter forte influência nessa questão de imagem e roupa.

Até o próximo post pessoas previsivelmente irracionais!