Certamente você já tomou uma decisão que julgava ser a melhor, a mais correta, mas depois se arrependeu. Não conheço você (dependendo de quem estiver lendo, até conheço…oi mãe!!), mas se está lendo estas linhas, posso afirmar com certeza que és um ser humano, e portanto, possui seus viéses.

Geralmente quando vamos tomar uma decisão, realizar algum planejamento, tendemos a ser otimista em relação ao futuro e ao resultado consequente daquela decisão. É o viés otimista em ação.

Na média, esperamos que as coisas saiam muito melhores do que de fato acontece. Subestimamos em larga medida as chances de nos divorciarmos, sermos demitidos, ou recebermos um diagnóstico de câncer. Acreditamos que nossos filhos serão extraordinariamente talentosos. Nós nos imaginamos realizando mais conquistas que nossos colegas. — Tali Sharot, do livro O Viés Otimista

Mas o ponto desse texto é o pós. Dificilmente retornamos ou lembramos das decisões que tomamos ou como a tomamos, principalmente quando as coisas saem erradas. Tendemos a culpar fatores externos, que não estão sob o nosso controle, quando o resultado não é o esperado. Mas quando o resultado é bom, é o esperado ou até melhor, creditamos a nós, as nossas habilidades, o nosso talento, a causa do sucesso ocorrido.

Isso, ao meu ver, é para evitar o que Economia Comportamental chama de aversão ao arrependimento.

John Greenleaf Whittier, poeta americano, escreveu:

De todas as palavras tristes da língua ou da pena, as mais tristes são estas: poderia ter sido!

Pequenas frases. Gigantes na mensagem.

A aversão ao arrependimento é tão forte que as pessoas estão dispostas a pagar para não se arrepender.

Quanto vale não se arrepender?

Em 1980, Richard Thaler levantou a seguinte questão em um artigo publicado no Journal of Economic Behavior and Organization:

“Sr. A esta na fila do cinema. Quando chega sua vez, é dito a ele que ele acaba de ganhar $100 por ter sido o cliente número 100.000 do cinema.

Sr. B esta na fila de um outro cinema. A pessoa à sua frente ganha $1.000 por ter sido o milionésimo cliente do cinema. O Senhor B ganha $150.

Quem você iria preferir ser, Sr. A ou Sr. B?”

Darei alguns segundos para você responder, caro leitor(a) 🙂

Thaler escreveu que, ‘incrivelmente muitas pessoas preferem na verdade estar na posição do Sr. A do que a do Sr. B .

A razão poder ser à aversão ao arrependimento.

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As pessoas se sentem tão mal por não ganhar os $1.000 (se ao menos eu tivesse saído mais cedo, ou estacionasse o carro naquela vaga logo) que estão dispostas a pagar $50 para evitar o arrependimento de ter chegado um pouquinho mais tarde no cinema.

A aversão ao arrependimento pode nos levar a outro dois comportamentos de inação: a paralisia e viés do status quo. Com receio de se arrepender no futuro, optamos por não fazer nada ou decidimos deixar como está: deixar dinheiro na conta corrente ao invés de colocar o dinheiro em um investimento com retorno maior; adiar uma compra e ver o preço do produto subir; adiar a venda de um ativo e vê-lo despencar; não trocar de emprego; e por aí vai.

Em sua pesquisa sobre a experiência do arrependimento, The Experience of Regret: What, When and Why (A Experiência do Arrependimento: o que, quando e porque — tradução livre), Thomas Gilovich indica que as pessoas se arrependem mais no curto prazo quando se trata de ação, enquanto que os arrependimentos são mais dolorosos no longo prazo quando as pessoas não agem.

Daqui 20 anos você irá se arrepender mais pelas coisas que você não fez daquelas que fez – Marc Twain

Quero deixar 3 dicas para te ajudar a mitigar os efeitos da aversão ao arrependimento:

 1- Menos é mais

Diminua sua opções de escolhas. Sheena Yiengar mostrou que escolher é uma arte, e que muitas opções levam a paralisia ou até mesmo se arrepender e ficar mais insatisfeito com sua escolha;

2 -Seja seu próprio advogado do diabo:

Buscar outros pontos de referência é importante na tomada de decisão. Tente buscar uma visão neutra, de fora. Por exemplo, se tiver ações em uma cia A e esta cogitando vende-las e investir em B, tente se imaginar da estaca zero, que você não tem dinheiro investido em nenhuma das ações. Em qual você investiria? Isso ajuda a você validar as duas empresas com seus próprios méritos, ao invés de colocar um peso excessivo em uma empresa pelo fato de você já ter dinheiro investido nela.

Pratique o pensamento contra-intuitivo. Tente se provocar e explicar contrapontos que refutem sua escolha. Ter uma outra pessoa, um amigo, pode se rinteressante.

3 – Pergunte a um especialista

Em 2003 o economista John A. List publicou um artigo cujo experimento visava mostrar o efeito dotação em mercados compostos por especialistas. List concluiu que pessoas que conehcem o assunto que se esta negociando, tendem a mitigar alguns vieses, reconhecer erros e consequentemente fazer melhores negócios. Portanto, se você não sabe sobre o assunto, a melhor maneira é conversar e perguntar à alguém que saiba 🙂

Por fim quero terminar com um trecho da música do Rush que funciona como um lembrete e também como uma dica: If you choose not to decide You still have made a choice (se você escolhe não decidir, você ainda fez uma escolha).

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