A Economia Comportamental explica a última euforia com o mercado de capitais e de câmbio no Brasil. Ao contrário do que foi propagado pela maioria dos veículos de mídia, a melhora do cenário pode não ter relação com as pesquisas que mostram Jair Bolsonaro crescendo nas pesquisas de intenção de voto.

Nem tudo é Fake News nas eleições brasileiras. A difusão de informações que num contexto razoável e para um público minimamente maduro, não passaria de mais um evento comum e corriqueiro, virou uma verdadeira pandemia nos mercados financeiro e de câmbio no Brasil essa semana.

Esse alvoroço todo pode ser explicado pela Economia Comportamental e vou aqui mostrar o que pode ter acontecido para que a grande maioria das agências de notícias se apressassem a dar logo a notícia da boa nova.

Os maiores canais de notícias brasileiros se apressaram para dar a notícia que com a subida do candidato Jair Bolsonaro nas pesquisas, a bolsa fechou com resultado apresentando a maior alta desde o ano de 2016. Já o dólar que vinha numa trajetória de alta durante as últimas semanas, caiu para abaixo dos quatro reais fechando o dia cotado a R$3.93.

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Olhando o gráfico do dólar com as cotações dos últimos seis meses já vinham com tendência de queda desde de meados de setembro.

É compreensível que processos eleitorais produzam oscilações no mercado financeiro. Isso porque em economia, tal como em nossa vida cotidiana, as expectativas em relação ao futuro moldam nosso comportamento e nossas decisões sobre aquilo que devemos fazer. Em relação a investimentos acontece mais ou menos a mesma coisa.

Se vemos na previsão do tempo que terá chuva para o final de semana, temos uma forte tendência a planejar atividades que não envolvam nada ao livre, ou mesmo que nos exija grandes deslocamentos pela cidade. Com o processo eleitoral a lógica é a mesma. Se determinada expectativa de vitória do candidato mais favorável (em tese) ao mercado, este apresenta uma expectativa de resultados melhores no futuro após a posse do novo Presidente.

O contrário acontece também. Se um candidato que não seja visto como mais favorável ao mercado está na liderança nas pesquisas, o mercado cria uma expectativa ruim para o futuro. Como resultado, o mercado financeiro tende a precificar mais risco. Com isso, os investidores tendem a sair do mercado liquidando suas posições e fazendo com que o mercado apresente resultados em queda.

Esses são os efeitos que podem ter agido no mercado essa semana, quando o candidato Jair Bolsonaro cresceu nas pesquisas de intenção de voto. Mas em economia as coisas nem sempre são o que parecem.

Há uma tendência grande da população e dos envolvidos com as discussões políticas a enquadrar as ações dos atores do mercado financeiro como sendo muito próximas ou semelhantes àquelas das pessoas comuns. Mas pode ser que não haja uma ligação tão direta assim. Isso porque o mercado é orientado para lucros e resultados financeiros positivos e não por ideologias ou paixões políticas.

Mas então o que explicaria a euforia do mercado nessa semana?

Pode ser que mera coincidência ou ainda uma mera aleatoriedade.

Em Economia Comportamental estudos realizados pelo cientista Daniel Kahneman e Amos Tversky encontraram evidências de que apresentamos certas heurísticas (atalhos mentais) que nos levam a produzir respostas que refletem mais nossos sentimentos e experiências do que os fatos puros e simples.

A heurística da Representatividade, nos mostra que com frequência, avaliamos as chances de ocorrência de um determinado evento ou situação pela semelhança com eventos parecidos que aconteceram em algum outro momento ou com estereótipos que possuímos.

Certamente no passado a instabilidade política dos processos eleitorais tinham relevância substantiva para o comportamento do mercado financeiro. Isso porque no passado até mesmo o processo eleitoral era fonte de incerteza.

O surgimento da ditadura e toda a imaturidade da democracia brasileira no passado pode estar levando os meios de comunicação a associar que processos eleitorais impactam nos mercados, quando na verdade o que realmente conta é o contexto local e internacional e não apenas o local.

Mas não paramos por aqui.

A heurística da confirmação que mostra tendência de buscarmos evidências que confirmem nossas hipóteses, ignorando evidências ou fatos que as contradigam também pode estar relativizando as notícias. Jornalistas e canais de notícias podem atribuir maior peso a evidências que confirmam a relação de causa e efeito entre a subida do candidato Bolsonaro com a melhora no mercado financeiro.

Neste ponto negligenciam igualmente que condições internacionais podem também estar influenciando as decisões dos eleitores. Cria-se um contexto pernicioso onde a influência dos resultados das pesquisas eleitorais acaba moldando a opinião dos eleitores, orientando o voto como decisão útil e interessada e não por convicção ideológica ou política.

Como disse no início do post, nem sempre as notícias são puramente Fake News (notícias falsas). Algumas manchetes podem estar apenas reforçando pontos de vista ou estereótipos daqueles que estão rotineiramente ligados às análises do contexto

Com isso reproduzem nos leitores vieses de análise, criando um ambiente de similar à Profecias Autorrealizáveis. Como assim?

Vejam a definição de Profecia Autorrealizável.

“Uma profecia autorrealizável é um prognóstico que, ao se tornar uma crença, provoca a sua própria concretização. Quando as pessoas esperam ou acreditam que algo acontecerá, agem como se a profecia ou previsão já fosse real e assim a previsão acaba por se realizar efetivamente.”

(Wikipedia)

Chegaram ao ponto?

É quase como se criássemos um efeito manada para análises do ambiente político-econômico.

A julgar pelo estado atual das coisas e pela similaridade das notícias de vários canais de notícias, não me espantaria se estivéssemos passando por uma verdadeira alienação coletiva em relação aos reais motivos que levam o mercado financeiro a flutuar.

Abaixo algumas das manchetes do dia. Vejam a semelhança na narrativa.

Salve-se quem puder!

Até o próximo post pessoal!