Abri o computador para escrever algo com um sentimento diferente. Já havia votado e sem querer ao abrir o computador no reflexo me vi vestido de preto. Nada de verde ou amarelo, nem outra cor qualquer que representasse algum dos polos opostos para o qual estamos caminhando democraticamente.

Democraticamente estamos caminhando, mas o luto involuntário que vesti neste domingo de céu parcialmente nublado e sol aparecendo timidamente, diz muito sobre o sentimento depositado na urna e sobre a expectativa de inadequação ao momento.

Escolher é um processo complexo. As eleições deste 2018, confirmam a complexidade mesmo havendo apenas dois lados ou opções a decidir. Cada lado no entanto representa uma série de outros lados negligenciados por muitos, que fazem do nós e eles o resumo pobre de um processo muito complexo ao qual poucos prestaram a devida atenção.

A expectativa resultante desse processo não poderia ser diferente. Independente do rótulo a que cada candidato se circunscreveu e da imagem a qual tentaram se associar, permaneci me sentindo inadequado.

Tudo está mudando, os polos se formaram e traçaram seus limites e bandeiras. Após meses de discussões, idas e vindas, o que restou foram dúvidas. Quando as linhas divisórias foram definitivamente estabelecidas, não encontrei o meio termo ao qual gostaria de me enquadrar. O resultado disso tudo foi que acabei ficando de fora.

Não sou a favor de fingir que Lula e o PT são vítimas de uma conspiração e que tudo se resume a um golpe tramado às escuras para retirar sumariamente o PT do poder. Não aceito que um aspirante a Presidente do meu país, pense ser aceitável se aconselhar com corruptos condenados. Não aceito que estejam valorizando a opinião de pessoas que perderam a régua ética e agora vem se travestir de bons moços sem nem sequer manifestar o menor arrependimento ou quiçá a humildade para reconhecer seus erros e formatar um pedido de desculpas. Toda a arrogância e cinismo, misturados com doses assustadoras de agressividade, serviram apenas para mostrar que o PT se resume a um simples vale tudo pelo Poder!

Do outro lado e na polarização aposta está Bolsonaro.

Pouco se questiona a respeito de seu envolvimento com corrupção, no entanto sua ideia de sociedade está claramente do avesso. Suas propostas conservadoras que pretendem adotar um sistema de intolerância do Estado para com determinadas minorias demonstram uma negação de duas das conquistas mais importantes da democracia: a tolerância e a liberdade de expressão.

Não há como engolir a conversa de que o ensino, por exemplo, não deva abordar a diversidade sexual como tema em sala de aula. A escola deve refletir o estado atual da sociedade e negar que hajam novas formas de relacionamento entre pessoas do mesmo sexo é arriscar taxar crianças e adolescentes como anormais e inadequados aumentando suas frustrações criando e adiando problemas futuros.

Pensar que armas vão resolver problemas sociais é outro pensamento muito estreito. Estreito também é considerar que salvo conduto a policiais vai amenizar ou melhorar as condições de trabalho destes profissionais no exercício de uma das profissões mais desafiadoras existente nos dias de hoje. É claro que policiais necessitam de segurança institucional para exercer suas atividades. Muito diferente disso é oferecer um ambiente onde independente de sua conduta, há a certeza de imunidade.

Quando pensamos em economia e nos demais assuntos relevantes para o Brasil como a manutenção do Estado democrático, sem pressões ou ameaças ao livre exercício dos Três Poderes de forma independente as coisas se complicam ainda mais. Aqui ambos os lados ameaçam enfraquecer as instituições, seja pela postura, por algo já dito ou pelo simples fato de coadunar com a bandidagem e pormenorizar condenados pela justiça.

Não sei se foi o acaso ou se foi algum pensamento subliminar que fez ir votar no dia de hoje vestindo preto. Ao longo dos últimos dias, presenciando conversas inflamadas, brigas e todo tipo de besteira ofensiva vindo de tudo que é lado só consegui consolidar ainda mais minha indecisão e frustração.

Frustração em ver pessoas de bem, saírem em defesa ideias do mal.

Frustração de ver a que ponto chegou a tolice das pessoas ao defenderem até a ditadura militar! Frustração de perceber que ainda existem imbecis a defenderem corruptos condenados e achando razoável que o país seja governado pela influência de marginas direto de alguma cela da carceragem policial.

Não me importa muito o resultado das eleições deste 2018, afinal de contas, como já disse, estarei inadequado e insatisfeito com qualquer dos postulantes eleitos.

Espero no entanto que possamos nos depurar após esse processo.

Espero que possamos deixar e tolice de lado e vencer a insignificância de nossos pensamentos a respeito da ordem das coisas. Que possamos olhar o diferente com compreensão e tolerância e que possamos restabelecer a confiança nas instituições. Espero ainda que os líderes e instituições façam por merecer nossa confiança, pela sua correção e conduta ética e não pela retórica inflamada e insana forjada na caldeira de seus interesses particulares.

Apesar da minha inadequação ao momento, vou seguindo por aqui me depurando e aceitando o momento, sem no entanto me render a ele.

Afinal de contas quem foi que disse que eu sou obrigado a endossar algum dos dois lados que estão aí!

Com meu pensamento independente, crítico e autônomo sigo em frente. Não pense, no entanto, que estou neutro no processo! Minha posição está muito bem estabelecida e clara. Minha posição nessa confusão toda, está e sempre estará do lado da tolerância, do respeito, do amor, da ética e da retidão.

O resto meus amigos é alegoria de carnaval. E vou ficando por aqui porque depois do desfile de insanidades eleitorais, nossa quarta-feira de cinzas foi transferida para a próxima segunda-feira, onde poderemos, de forma análoga ao simbolismo cristão, refletir sobre nosso dever e posição na mudança, recordando que nossa vida é transitória e frágil e que temos o dever de promover a evolução enquanto indivíduos e sociedade.

Até o próximo post!