Difícil não falar de eleições. Mas e aí, por que você escolheu seu candidato?

Muitos podem responder: “falta de opção” ou “me identifiquei com fulano”. O fato é que optar por uma pessoa, ou não optar, invariavelmente é um processo decisório.

Mas algo interessante acontece quando nos alinhamos politicamente a alguma visão.

Para iniciar: você se considera alguém conservador ou liberal? Pense no seguinte: você acha que pessoas do mesmo sexo devem ter direitos iguais de casamento ou então que a família tradicional é o que conta de fato? É a favor ou não do aborto?

São questões que levantam polêmicas.

Quando nos alinhamos a uma ideia, tendemos a comprar boa parte do pacote que ela carrega. Se formos católicos, carregamos a ideia do sagrado do céu/inferno, do pecado e da personificação do corpo de cristo, hóstia etc… Há um pacote.

Acontece que muitas vezes esse alinhamento por mais “racional” que pareça, ele pode não ser assim.

Separe um grupo de crianças de 3 a 5 anos, em 2 tipos de cor de roupa – vermelho e azul – , e elas logo começarão a defender as crianças que utilizam a mesma cor que elas. Começarão inclusive a apresentar padrões de comportamento de grupo, dentro do sub-grupo¹. Favorecendo o “nós” entre eles e podendo abdicar do “eles”. Dica, isso se deve ao fato da ocitocina, mas aí eu conto depois.

Pergunte agora para crianças de 5 a 13 anos “Imagine que você viajará de barco. Quem você escolheria como capitão?” E mostre fotos de candidatos políticos. No experimento desenvolvido por John Antonakis e Olaf Dalgas as crianças optavam 71% das vezes pelos eleitos. O mesmo experimento feito para adultos, porém com a pergunta “quem você acha mais competente”, fazia os adultos escolherem 72% os eleitos. Aparentemente escolher o capitão do seu barquinho é um bom preditor de escolha de candidato, e não alteramos muito nosso processo de escolha ao longo da vida.

E quando se trata de ideal político: liberal ou conservador?

 

 

Antes de responder essa pergunta, é bom ter em mente que não houve tempo hábil evolutivo para nosso cérebro entender o que é um posicionamento liberal ou conservador. Não há áreas cerebrais responsáveis por pensamento político. O que temos são adaptações das existentes.

Ummmm não gosto daquela linha de raciocínio, para mim é ofensiva socialmente e quero me afastar dela. Qual resposta eu  tenho de melhor? Nojo! Ínsula: ativar!Ass. Cérebro.

É basicamente isso que nossa cabeça faz com essas adaptações. Ela pega algum aprendizado passado e responde com o que de melhor pode ter para essa experiência nova.

Assim é interessante perceber que, por exemplo, em questões de características pessoais os conservadores costumam ser mais fechados e não gostam tanto de novidades. São mais confortáveis então com hierarquia e ordem. Percebem as novidades como ameaça. Enfim os melhores dias se passaram e deveríamos voltar a ser como era antes, “naquele tempo que era bom”.

Sendo mais ancorados ao autoritarismo e percebendo as coisas mais como ameaça, ajuda a explicar o famoso “Tenho uma lista de pessoas que são ameaças por destruir nosso país”. Outro exemplo, palavras como “arms*” para conservadores é mais diretamente associada com “weapons” e não com de “legs”. Essas associações são implícitas.

Apesar disso tudo, estudos mostram que eles são mais felizes que as outras visões de mundo.

Como comentei acima, o nojo – ínsula – possui um papel importante nesse posicionamento. Quer que um liberal passe a ter comportamento mais conservador? Coloque-o cheirando lixo e o limiar de resistência a nojo dele irá diminuir. Resultado: Respostas socialmente mais conservadoras. Isso vale para deixa-lo com fome, cansado entre outros. Até a sensibilidade em monitoramento de resistência galvânica se difere em questões de posicionamento.

Obviamente, alguns possuem maior limiar que outros. Algumas ideias incomodam mais uns que aos outros. Mas o processo de respostas está lá.  Outro ponto interessante. Liberais costumam ser associados com maior quantidade de matéria cinzenta no córtex cingulado (responsável pela empatia) enquanto conservadores costumam ser associados com um tamanho maior da amigdala (papel importante na percepção de ameaça).

A definição básica de hierarquia é simples: Um sistema de ranking que formaliza acesso desigual a recursos limitados. Do que se tem registro, somos a única espécie que opta por quem assumirá o topo do ranking, e por meio de votos.

Votar e escolher o representante é parte fundamental da nossa sociedade. Se perceber dentro de um grupo é parte vital dessa convivência. Ponto interessante: enxergar os outros como grupo aumenta nosso preconceito, focar em uma pessoa apenas daquele grupo diminui o preconceito. Todas essas interações possuem ação direta com nosso cérebro e vice e versa, um influenciando o outro constantemente. Se entender como um “homer economicus” é parte fundamental para observar quantas coisas equivocadas cometemos.

Termino com a ideia de Steven Levitt e Stephen Dubner:

“Talvez votemos com o mesmo espírito com que compramos um bilhete de loteria. Afinal, as chances de ganhar na loteria e de influir numa eleição são muito similares. Do ponto de vista financeiro, jogar na loteria é um mau investimento. Mas é divertido e relativamente barato: pelo preço de um bilhete, você compra o direito de fantasiar como gastar o prêmio – mais ou menos como a fantasia de que seu voto terá algum impacto sobre a política.” Do livro Freakeconomics.

Bom voto 🙂

*arms : braço ou arma

Weapons: arma

Legs: pernas

Ínsula, amigdala e Cótex Cingulado : são partes do cérebro que possuem suas respectivas funções citadas no texto.

Referência:

¹ Patterson, Meagan M., and Rebecca S. Bigler. “Preschool children’s attention to environmental messages about groups: Social categorization and the origins of intergroup bias.” Child development 77, no. 4 (2006): 847-860.