Netflix: hackeando comportamento e os lucros - Geekonomics
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Netflix: hackeando comportamento e os lucros

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Netflix dispensa apresentações, mas quando se trata de estratégia, muitos ainda se restringem ao fato de a gigante do entretenimento ter criado uma revolução apenas na forma de distribuir conteúdo. Para mim a grande revolução do Netflix está em como a empresa mudou nosso comportamento de consumo.

Não faz muito tempo e ainda é formato de muitos canais abertos e produtores de conteúdo áudio visual, a distribuição fracionada do conteúdo. Seriados, por exemplo costumeiramente eram lançados capítulos por capítulos e nós fomos acostumados desde sempre a esperar cada capítulo pacientemente sem problemas.

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A estrutura de roteiro também mudou bastante. Seriados costumavam ser mais parecidos com filmes muito pequenos. Todos episódios tinham início, meio e fim e encerravam determinado assunto. Hoje seriados mais parecem com filmes de longa-metragem. Cada pedaço termina deixando a narrativa num momento crítico deixando um suspense ou algo muito importante a ser revelado no episódio seguinte.

O resultado disso tudo é que sempre queremos mais. É difícil ter autocontrole para encerrar uma narrativa quando desfecho termina num ponto crítico para a narrativa. Então somos levados a seguir em frente. Antes do Netflix, isso não era possível. Tínhamos que esperar, não havia escolha e estávamos assim protegidos ou pelo menos com nosso autocontrole preservado.

Hoje o limite passou a ser nossa disposição para continuar na frente da televisão. Quando um capítulo termina, podemos seguir e o mais interessante, o Netflix nos estimula a isso. E são várias as formas de nos manter conectados.

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O autoplay em 10 segundos é um deles. Ao terminar um episódio, não hpá esforço algum para continuar a assistir o episódio seguinte. Tomados de ansiedade e curiosidade somos pressas fáceis do autoplay. Basta contar até dez e o mistério será resultado. O problema? Depois de um mistério vem outro e assim está feita a maratona.

Tem ainda uma série de incentivos sociais para que tenhamos um comportamento de maratona. Você pode fazer credencial de maratonista, personalizando uma carteirinha com uma arte da sua série preferida.

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Quem aí se lembra do atestado de maratonista? Uma arte em que o Netflix disponibilizava como se fosse um atestado de saúde, justificando atrasos ou faltas no trabalho devido a noites em claro maratonando seriados?

E como esse certificado viralizou… E tome prova social minha gente!

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Tem ainda o spoiler. Até pouco tempo atrás ninguém o significado dessa palavra. Hoje todos tem medo dela estragar o prazer da surpresa. Maratonar é se proteger de saber antes alguma informação por spoiler e perder a graça de surpresa quando assistir uma série.

Já existe até mesmo aplicações que prometem livrar nossos navegadores de internet de spoilers, bastando que configuremos a ferramenta para ela bloquear qualquer conteúdo que mencione uma série de termos relacionados àquilo que estamos assistindo. Uma estratégia obviamente insuficiente rsrsrss.

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Tudo isso para quê?

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Já pararam para pensar porque o Netflix tem intensificado cada vez mais a produção de conteúdos originais? Já percebeu que tem ficado cada vez mais difícil de manter suas séries em dia?

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Sim antes de ser uma vantagem da nova forma de consumir conteúdo, a liberação de tudo de uma vez trazida pelo Netflix é uma estratégia comercial de primeira qualidade.

Primeiro ela evita que o conteúdo que estamos assistindo sofra competição imediata de outros programas ou formas de entretenimento. Afinal de contas quem é muito mais provável que estejamos mais engajados na maratona. Se pensarmos em todos os recursos e saliências comportamentais… Não tem para ninguém!

Outro ponto interessante é que maratonas rentabilizam mais rapidamente as produções. Você consome tudo uma vez e já está pronto para a próxima. E com isso o Netflix evita também que outras plataformas disputem conteúdo com ele. Quando sua maratona acabar já terão mais outras 20 series diferentes para maratonarmos novamente. Isso cria uma espécie de loop e nosso consumo de conteúdo.

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E tem muito mais!

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Como estratégia comercial os seriados são uma opção das melhores. O Netflix nem mesmo precisa de atores famosos com caches estratosféricos para fazer sucesso. A plataforma e a nova forma de consumo por maratona garantem o sucesso por inércia, prova social e gatilhos que incentivam nossa perda de autocontrole.

E assim vamos nos tornando cada vez mais consumidores exponenciais dos conteúdos do Netflix. E assim vamos engordando cada vez mais seus lucros. Não se trata apenas de uma estratégia comercial.

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O Netflix mudou e muito o comportamento de consumo e pelo visto irá garantir ainda por muito tempo uma demanda astronômica por tudo que produz. Em tempos de redes sociais a força da prova social age ainda mais a favor da estratégia.

Quem sobrevive a uma conversa de bar ou a uma timeline cheia de memes referenciando series que ainda não assistiu? Poucos eu garanto! E assim o loop permanece e cresce junto com os assinantes e lucros do Netflix.

Não estou aqui a fazer uma crítica ao modelo do Netflix. Acho até que eles têm muito mérito na estratégia. Gostaria mesmo é de saber se conceitos como inércia decisória, prova social e pequenas saliências ou nudges usados atualmente pelo Netflix, foram pensados com base na Economia Comportamental ou se foi mero acaso.

Até a próxima maratona pessoal!

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About the author

Anderson Mattozinhos

Anderson Mattozinhos

Economista, bookaholic, tecnófilo e jogador inveterado de videogames.

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