Economia Economia Comportamental

Não seja tolo: evite perder o controle de suas finanças

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As coisas mudam depressa demais e nem sempre nos damos conta de como determinadas mudanças impactam em nossa rotina e modo de vida. O resultado é que se não prestarmos mais a atenção a determinados comportamentos, acabamos por virar vítimas das mudanças no mercado. Não se dar conta, ou ignorar essas mudanças na vida moderna pode nos colocar em sérios apuros e não raro nos fazem ser fisgados como tolos.

Neste post resolvi tratar de um assunto que vem me chamando muito a atenção, mais pelo efeitos que pode causar em nosso comportamento e em nossas finanças pessoais.

É provável que você seja assinante de algum serviço na internet. Se fosse arriscar um chute, diria que no mínimo 95% dos leitores aqui do geekonomics devem ser assinantes do Netflix ou Spotfy. Se você quiser ajudar a mapear essa estatística… Pode deixar nos comentários a resposta se é ou não assinante do Netflix ou do Spotfy.

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O fato é que o modelo de cobrança desse tipo de serviço, tem explorado um comportamento que não raro é muito prejudicial para nossas finanças pessoais. Fornecido geralmente para acesso a algum conteúdo ou software via internet ou até mesmo para softwares que são geralmente instalados em dispositivos como Office 365, Photoshop, dentre tantos outros, o modelo de pagamento por assinatura explora duas estratégias principais:

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1 – Desconto para assinaturas com comprometimento de consumo mínimo em determinado prazo via pagamento mensal fixo.

2 – Renovação automática por iguais períodos ou por prazo indeterminado.

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Sempre fui muito paranóico com valores pagos regularmente em meu orçamento. Não porque seja estressado com contas, mas porque esse tipo de pagamento tende a sair do foco da gestão financeira do dia a dia e variações às vezes pequenas em montante, do tipo de R$5,00 a R$10,00 chamam pouca atenção, mas podem representar substancial mudança percentual.

Já postei aqui sobre alguns reajustes do Netflix. Nos posts, um de 2015 (LINK AQUI) e outro de 2016 (LINK AQUI).

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Em 2015, mensalidade que era de R$16,90 passou para R$19,90. Um reajuste pífio de apenas R$3,00! No entanto se fizermos a conta… O reajuste foi da ordem de 17,75%. À época a inflação no Brasil estava na casa de 8,5%. O que vemos aqui foi o Netflix impondo um reajuste acima da inflação com spread (diferença) de 9,25%.

Já em 2016, o aumento foi de 15,07% ante uma inflação da ordem de 9,32% medida pelo IPCA anualizado até o mês de maio do mesmo ano.

O Netflix é um exemplo de serviço pago mensalmente que pode complicar as finanças a longo prazo. Você pode argumentar que R$3,00 não é nada, mas some isso às outras contas pagas mensalmente e outros serviços assinados como: armazenamento em nuvem, softwares, streaming de música, mensalidade de academias de ginástica dentre tantos outros e você pode acabar tendo uma inflação pessoal que é o dobro daquela divulgada na TV e em jornais como a inflação oficial no Brasil.

Geralmente negociações salariais são feitas tendo a inflação como âncora. Isso quer dizer que para não perder o poder compra, ou seja, para que seu salário valha a mesma coisa de um ano para o outro, ele deve ser reajustado no mínimo pelo índice de inflação corrente.

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Mas acontece que nossa inflação pessoal, quase sempre é bem maior que a inflação oficial. Isso porque nosso consumo e perfil difere muito daquele considerado como padrão para o cálculo dos índices oficiais de inflação como IPCA, IPC, dentre outros. Como visto no caso que exemplifiquei acima do Netflix, reajustes às vezes são praticamente o dobro da inflação.

Mas as perversidades não param por aí. Esta semana fiquei pensando a respeito de como nossa inércia decisória é explorada sem reservas por todos os novos serviços criados e tidos como essenciais (Netflix, Spotify, armazenamento em nuvem como iCloud, DropBox, OneDrive, GDrive), desejados (provedores de conteúdo como jornais, revistas, cursos on demand – Cousera, Udemy…) e muitos outros.

Praticamente todos os serviços que citei e mais aqueles outros que você assina e paga mensalmente com renovações automáticas ofertadas como opção padrão (default). Aqui já vemos a exploração de um Nudge que nos leva a escolher por algo que pode não ser a melhor alternativa. Pelo menos não no médio prazo.

Vou contar um caso para ilustrar como o default pode ser uma opção não ótima para nós. Fui assinante de um serviço de fornecimento de vinhos. Todo mês pagava uma assinatura e recebia em casa 2 garrafas.

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Quando percebi que estava recebendo vinhos cuja soma não dava o valor da assinatura, decidi cancelar e passar a comprar os vinhos avulsos. Do dia em que percebi e decidi cancelar a assinatura demorei algo em torno de 4 meses para efetivamente tomar a ação de fazer o cancelamento (me julguem kkkk).

Ao acessar o site, onde havia contratado o serviço, descobri que o mundo digital tem suas limitações. Para contratar o serviço, fiz tudo com a maior agilidade. Tudo online. Escolhi o plano, cadastrei o usuário e passei o cartão para uma assinatura de renovação automática.

Já para cancelar…

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Ao entrar na área do site, cliquei em quero cancelar e… Eu confesso que esperava receber o mesmo tratamento. Facilidade ao cancelar. Esperava apenas clicar num botão que dizia: Quero cancelar minha assinatura.

O que encontrei foi bem diferente. Ao clicar no cancelamento apareceu um número de telefone para que eu ligasse para efetuar o cancelamento. Nesse momento… acabei postergando mais alguns dias o cancelamento por pura preguiça e inércia em ligar e passar por todo sofrimento que é um call center.

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Perceberam a estratégia aqui? A empresa explora facilidade e impulsividade na compra e inércia na manutenção da contratação do serviço.

Em economia comportamental, alguns estudos foram prodigiosos ao identificar alguns vieses cognitivos e automatismos decisórios (heurísticas) que pessoas como nós apresentam em suas vidas.

Alguns destes vieses e automatismos devem estar sempre em nosso radar para evitarmos sermos “fisgados como tolos” na pescaria feita pelos inúmeros serviços de assinaturas com renovação automática e cancelamento dificultado existentes por aí. Vou listar alguns deles abaixo e espero que conhecê-los ajude a mim e a vocês a ser menos vulnerável a eles no futuro.

Inércia decisória: na economia comportamental, a inércia é a persistência de determinado comportamento ou decisão associado à inação, procrastinação ou ainda, ligada ao conceito de viés do status quo (Madrian & Shea, 2001).

Procrastinação: Procrastinação é o diferimento ou adiamento de uma ação. Para a pessoa que está a procrastinar, isso resulta em stress, sensação de culpa, perda de produtividade e vergonha em relação aos outros, por não cumprir com as suas responsabilidades e compromissos. Embora a procrastinação seja considerada normal, torna-se um problema quando impede o funcionamento normal das ações. (Wikipedia)

Viés do Status Quo: A preferência de um indivíduo por manter seu estado atual, mesmo se uma alteração de sua situação proporcionasse um aumento de bem-estar. Este viés estimula o indivíduo a permanecer no nível de referência atual. Como resultado, as pessoas muitas vezes “escolhem” opções pré-definidas, mesmo quando muitas outras estão disponíveis. Até mesmo opções arbitrárias que definem o status quo desempenham papéis extremamente importantes na tomada de decisões.(economiacomportamental.org)

Opção padrão (Defaut Option): Default é a resposta-padrão para determinado problema,  o caminho de menor resistência (automático). Normalmente, em problemas difíceis ou problemas em que é verificado uma sobrecarga de informação e escolhas (choice overload), as pessoas tendem a escolherem a opção já conhecida, ou default. (economiacomportamental.org)

E então? Preparados para lidar com as armadilhas decisórias de consumo dos dias atuais?

Como diria o Nobel de Economia Richard Thaler:

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“People Aren’t Dumb. The World Is Hard.”

“As pessoas não são burras. O Mundo é duro.”

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About the author

Anderson Mattozinhos

Anderson Mattozinhos

Economista, bookaholic, tecnófilo e jogador inveterado de videogames.

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