Economia Comportamental Opinando

Porque você não deveria criticar os vieses

Caso você não esteja familiarizado com os termos vieses e heurísticas, clique aqui e confira o nosso glossário com os principais conceitos sobre Economia Comportamental, Neurociências e muito mais 🙂

Um comportamento muito comum de quem estuda economia comportamental e se aprofunda um pouco mais neste mundo de vieses e heurísticas, acaba sendo observá-los como um ponto negativo, ou melhor dizendo, como se fossem um “defeito” cognitivo.

Acredito que boa parte deste pensamento é justamente pela maneira como foram descobertos e divulgados ao mundo, como por exemplo: “Vejam só estatísticos erram essa inferência tola”. Porém o aspecto básico disso é “O viés fez ele cometer esse erro”. Daí para generalizar que vieses causam erros é um pulo.

Vieses não são erros sistemáticos da nossa cabeça, e sim desvios sistemáticos. E isso faz total diferença.

O problema é que vieses e essa forma nossa de tomar decisões nos dias de hoje pode não ser útil em alguns momentos, porém em outros, pode ser perfeitamente útil. Em questões evolutivas, 70 mil anos é pouco, mas eu acredito fortemente que em algum momento no passado esses padrões mentais nos foram úteis.

Imagine você há 70 mil anos e existiam 2 tribos perto de você: a tribo os enviesados (E), e os não enviesados (NE).

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A tribo E costumava ter profunda preocupação com a comida e caso a perdessem, eles sentiam 2x a dor da perda em relação ao ganho; em outras palavras precisavam achar 2x mais comida para suprimir a dor de perder o alimento. Além disso o grupo soube que 2 pessoas nadaram no rio próximo e acabaram morrendo atacados por animais nas últimas estações. A tribo se lembrava desse fato e atribuía a ele que a frequência dos ataques era altíssima, portanto se mantinham seguros neste ponto.

Por fim, este grupo, ao observar que algumas pessoas com características de outras tribos, cabelo longo e pinturas brancas pelo corpo, costumavam roubar comida dos outros, sendo que a simples visão de pessoas com pinturas brancas era suficiente para ligar o alarme de atenção deles. Fato interessante, a última caçada levou 5 pessoas e mataram uma grande presa. Esse era o número “sagrado” de caça deles.

Já a tribo NE não se preocupava muito com a comida, caso a perdessem a dor era branda e qualquer quantia ganha era satisfatória. Além disso não atribuíam frequências de ataques no rio e constantemente os integrantes morriam afogados ou atacados por animais. Este grupo ainda não assumia que pessoas com pinturas brancas no corpo roubavam comida, e ao final do dia acabavam passando fome. Cada caçada era com número variado de pessoas.

Para quem está familiarizado com os termos a tribo E apresentou 4 padrões de comportamento que estudamos na Economia Comportamental:

  • Aversão à perda;
  • Heurística da disponibilidade;
  • Representatividade e ancoragem.

Qual das duas tribos vocês acreditam que tiveram maior chance de procriar e passar os genes adiante?

Qual das tribos você acredita que é descendente?

Não falo também que tudo são flores quando se trata de vieses. Como vocês repararam, a representatividade pode colocar você com um pezinho no preconceito, por exemplo. O que alego aqui é que visão extremamente negativa dos vieses sem olhar também sua importância pode ser um ponto falho de análise.

Por fim, seguem algumas dicas da utilidade de cada:

A heurística da disponibilidade: É útil quando a informação é escassa e não temos onde retirar mais dados, porém é falha se podemos ter acesso a um número maior de dados e conhecimentos.

Representatividade: Possui sua utilidade quando fatos comuns são reais, é prejudicial se os fatos passam a ser raros e perderem padrões.

Aversão à perda: É boa em não nos desfazermos de forma estabanada com bens que são úteis, pode fazer você julgar probabilidades de forma desastrosa.

Ancoragem: Padrões antigos de comportamento baseadas em quantidade se tornam úteis nos dias de hoje, por exemplo a caça da tribo E, porém, se o presente se altera os 5 que foram caçar da tribo podem nunca mais voltar.

Novamente, o exemplo que dei ocorreu há 70 mil anos. De lá para cá evolutivamente pouca coisa muda, mas o fato de você estar lendo este texto em um computador ou celular é o suficiente para perceber que o mundo mudou, e talvez o cérebro não foi tão rápido quanto a ciência.

About the author

Rafael Jordão

Rafael Jordão

Psicólogo organizacional na Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, pós graduando em economia comportamental pela Espm. Curioso por assuntos que tratam de comportamento humano, ou seja quase tudo.

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