Quem estuda Economia Comportamental acaba reparando em tudo o tempo todo. Mesmo fatos inesperados e surpreendentes não escapam dos olhos de quem se dispõe a perceber o ambiente de uma maneira diferente. Neste post vou contar um pouco sobre enquadramento e Finanças Pessoais com um exemplo surreal e inovador.

Nunca sabemos ao certo o que vamos encontrar em nosso dia e acho que esse é um dos fatos mais interessantes da vida: o imprevisível! Sempre que saímos de casa, pensamos no caminho que vamos fazer, prevemos o meio de transporte, mas há uma infinidade de situações e acontecimentos que simplesmente são impossíveis de saber com antecedência.

E foi num dia comum desses que saí de casa para viajar e ao chegar num posto de gasolina para abastecer fui pego de surpresa com um framing (enquadramento) surreal. Mas antes de contar sobre o framing, vamos esclarecer rapidamente o que seria framing ou enquadramento para a Economia Comportamental.

FRAMING OU ENQUADRAMENTO

A forma como situações, escolhas ou opções são apresentadas para as pessoas podem influenciar em suas escolhas. Isso acontece, porque a depender de como algo é apresentado a nós, podemos decidir de maneiras diferentes.

Desenvolvido principalmente por Tversky e Kahneman na Teoria da Prospectiva, o Efeito Framing mostra que as escolhas podem ser apresentadas de uma forma que destaque os aspectos positivos ou negativos da mesma decisão, levando a mudanças em sua relativa atratividade. (Kahneman & Tversky, 1979).

Muitos são os exemplos de framing. A ideia do copo meio cheio ou meio vazio é um exemplo cotidiano de como podemos enquadrar informações semelhantes de maneira diferente. Isso sem dúvida tem impacto para nossas decisões, afinal de contas, a forma como absorvo a informação terá impacto direto sobre minha decisão e quem sabe até mesmo a respeito da minha satisfação com a decisão tomada.

Imaginem o seguinte, a respeito do exemplo do copo meio cheio ou meio vazio:

Se estou com sede e enquadro o copo como meio cheio, provavelmente a quantidade de água me saciará e ficarei feliz por matar minha sede.

– Se estou com sede e enquadro o copo coo meio vazio, provavelmente quantidade de água será insuficiente para matar minha sede.

Mas olhem que interessante, quantidade de água em ambas as situações é a mesma! O que muda é a forma como encaramos o problema e sem dúvidas isso faz uma enorme diferença. Diferentes tipos de abordagens com enquadramento foram propostos por pesquisadores. por Levin, Schneider & Gaeth, 1998, identificaram diferentes tipos de enquadramento quando pessoas eram apresentadas a opções arriscadas de escolha.

Da mesma forma que no problema do copo, os resultados da escolha eram os mesmos, mas a forma como a escolha era apresentada, mudava sendo apresentado diferentes enquadramentos.

Vejam o problema da escolha sob risco:

– Enquadramento 01: risco de perder 10 em 100 vidas;

– Enquadramento 02: possibilidade de salvar 90 em 100 vidas.

Novamente cabe o destaque de que ambas as opções resultam no mesmo desfecho. Independente da escolha serão salvas nos dois casos apenas 90 vidas.

Mais uma vez entrou em ação o enquadramento. A forma como a opção é expressa muda a nossa resposta, mesmo considerando que a resultante de nossa escolha seja a mesma.

Claramente vemos aqui também presente o sistema 1 em ação, uma vez que além do enquadramento é possível perceber um automatismo na tomada de decisão, afinal de contas, se fizermos o cálculo veríamos que tanto faz escolher entre opção 1 ou opção 2.

UM FRAMING SURREAL NO POSTO DE GASOLINA

Como disse lá no início do post, estava eu saindo para viajar e ao parar num posto de gasolina para abastecer o carro, o inesperado aconteceu. Tudo estava correndo normalmente no atendimento.

O frentista perguntou o combustível que eu desejava e eu disse logo que era para encher o tanque. Após o tanque cheio o frentista retornou e me perguntou sobre a forma de pagamento. Disse a ele que seria pagamento com cartão. Ele se retirou e foi buscar a máquina.

Quando o frentista retornou, eu entreguei o cartão e então esperei para a pergunta clássica:

– Débito ou crédito senhor?

Mas foi então que veio toda a genialidade do frentista! Saindo do comum ele enquadrou a informação de forma muito inovadora e inesperada.

O frentista então perguntou:

– Presente ou futuro senhor?

Passei alguns segundos pensando para responder e logo me dei conta do quão inteligente foi a forma como o frentista me apresentou as opções para pagamento. Para este frentista único, presente significava débito, ou seja, o dinheiro sai logo da sua conta. Já o futuro significava crédito, ou seja, o pagamento seria feito numa data posterior.

Um exemplo surreal de como podemos enquadrar o fato já muito conhecido por quem estuda finanças ou se interessa pelo mercado financeiro, de que o dinheiro possui valor no tempo. Sem dúvidas uma lição espetacular que tive com o frentista. Sem dúvidas um sorta imensa de encontrar uma pessoa tão sábia no caminho.

Infelizmente o frentista permanecerá anônimo aqui. O choque com a pergunta me congelou a ponto de apenas conseguir sorrir para ele e agradecer pelo atendimento.

E vou ficando por aqui, até a próxima pessoal! E não se esqueçam, quando usar o cartão tenha sabedoria para dosar o presente o futuro em relação aos seus gastos.

Até a próxima pessoal!