Nudge tem se transformado cada vez mais num termo da moda. Mas há uma confusão entre Nudge e Sludge. Neste texto, vou diferenciar ambos e propor um breve passo a passo para pensar intervenções no ambiente.

Pensar em Nudge significar pensar também em design. Uma grande contribuição da Economia Comportamental reside no fato de considerar o design como instrumento de chave para mudança de comportamento. Mas isso requer algo mais.

Ao pensar em intervenções que objetivam mudanças comportamentais, temos que estar atentos para uma diversidade de fatores, lembrando ainda que temos uma enorme diversidade de pessoas, culturas e saberes.

Esta reflexão de como o design é crucial para o sucesso na implementação de um Nudge, quando consideramos intervenções no ambiente, deve ser ainda mais profunda. Não basta apenas criar “armadilhas” utilizando designs que levem as pessoas a seguirem determinados comportamentos.

Intervenções com uso de Nudge no ambiente, pressupõe responsabilidade para criar formas de conduzir as pessoas a escolhas ótimas e não apenas, elaborar truques que se aproveitem do pensamento automático, emocional e rápido do nosso sistema 1.

Há muita discussão ética a respeito do uso de Nudge para intervenções que objetivam a mudança de comportamento. Muitos usam Nudge sem o devido cuidado ou conhecimento, outros utilizam para objetivos torpes. Mas de fato, quando falamos de Nudge, precisamos separar as coisas.

Já existem pesquisadores considerando uma variação do termo Nudge, o Sludge. Traduzindo literalmente do inglês para o português, Sludge significa lodo. O termo que já explica por si só faz uma importante distinção entre um Nudge (ideia empurrão ou cutucão) e um Sludge (ideia de lodo, escorregão).

Quem já foi criança, deve algum dia ter levado uma queda por causa de um lodo no chão. Essa é a ideia do Sludge, onde a arquitetura da escolha foi pensada para nos fazer escorregar em nossas escolhas e decisões. Quando escorregamos, não raro as consequências são: dor, ferimento e frustração.

Sludges, então por definição são exatamente aquelas intervenções não éticas que têm por objetivo provocar um comportamento. Notem que não disse mudar comportamento, afinal, escorregões e quedas, com o tempo produzem em nós tantas escoriações que aprendemos com o tempo a evitá-las.

Diferente são Nudges, que elaborados de forma ética, objetivam mudanças de comportamento que levem a benefícios para as pessoas.

É importante sabermos diferenciar Sludges de Nudges!

Quando se trata de intervenções na arquitetura do ambiente ou em sua configuração, devemos pensar em alguns pontos antes mesmos de considerar a intervenção e o Nudge a ser implementado.

Um ponto de partida interessante pode ser aquilo que a pesquisadora Kat Holmes, traz em seu livro mais recente, publicado pela MIT Press.

“Projetar para a diversidade humana pode ser a chave para o nosso futuro coletivo. Será necessária uma grande diversidade de talentos, trabalhando juntos, para enfrentar os desafios que enfrentamos no século 21: mudanças climáticas, urbanização, migração em massa, aumento da longevidade e envelhecimento das populações, desenvolvimento da primeira infância, isolamento social, educação e cuidado os mais vulneráveis entre nós em uma lacuna cada vez maior de disparidade econômica.

Você nunca sabe de onde, ou de quem, uma ótima solução virá.

Já existem soluções inclusivas em silêncio trabalhando em nosso mundo. Eles são os primeiros exemplos para medir os resultados inclusivos. Seus recursos e as pessoas que os criaram compartilham tópicos comuns que são capturados aqui como três princípios de design inclusivos. Estes reaparecerão nos próximos capítulos.”

HOLMES, 2018

Duas palavras definem, na minha opinião, a importante contribuição que o livro de Kat Holmes pode dar a elaboração de Nudges: Inclusão e incompatibilidade.

Intervenções no ambiente e o uso de Nudge, devem refletir sobre inclusão. E aqui não me refiro à inclusão da pessoa na intervenção, mas sim, na mudança do comportamento. Pensar em Nudges que consideram e incluem diferentes pessoas, públicos e culturas é promover mudanças de comportamento que se retroalimentarão das boas experiências e resultados de todos. Isso pode ainda resolver uma das mais contundentes críticas de intervenções com uso de Nudge, que é a sua durabilidade.

O reforço social é sem dúvida um dos instrumentos que podem levar Nudges a perdurarem se transformando em hábitos culturais. Por isso Economistas Comportamentais devem pensar se a intervenção é inclusiva ou não. Sobre incompatibilidade a reflexão é semelhante. As estratégias devem ser compatíveis com diferentes necessidades, atendendo assim a toda população foco da intervenção realizada.

Apesar de não tratar especificamente de Nudge e comportamento, Kat Holmes traz contribuições muito relevantes para a Economia Comportamental. Pensar o design em termos de incompatibilidade (Mismatch) traz importantes considerações e insights para aqueles que objetivam implementar intervenções no ambiente.

Kat Holmes traz ainda um passo a passo muito pertinente quando pensamos em promover qualquer mudança na arquitetura de um ambiente. Esse passo a passo, pode ser resumido pela figura abaixo:

Para explicar a figura, me atrevi a traduzir livremente outro trecho do livro Mismatch de Kat Holmes. O trecho trata de cada uma das etapas mostradas na figura que se inicia pelo reconhecimento da exclusão, aprendizado pela diversidade humana e resolva para um estenda para todos.

O trecho segue abaixo:

“Reconhecer exclusão: A exclusão acontece quando resolvemos problemas usando nossos próprios vieses.

Aprenda com a diversidade humana: Os seres humanos são os verdadeiros especialistas em adaptação à diversidade.

Resolva para um, estenda a muitos: Concentre-se no que é universalmente importante para todos os seres humanos.”

HOLMES, 2018

Perceberam como estes três passos podem ser muito importantes em fases de planejamento de Nudges para intervenções no ambiente?

Muitas vezes somos levados a imaginar que Nudges são simples de serem pensados e aplicados. Na minha pouca experiência, digo que não são!

Me arrisco a dizer que se você está pensando em trabalhar com Nudges e em algum momento pensa ser algo simples e de fácil implementação, cuidado! Há grandes chances de você estar pensando em meras armadilhas ou Sludges.

E vou finalizando por aqui! Até o próximo texto pessoal!

Referência

HOLMES, Kat. Mismatch: How Inclusion Shapes Design. MIT Press, 2018.