Pesquisa analisa mais de quinhentos mil mensagens postagens no Twitter e identifica um dos vieses estudados pela Economia Comportamental. Pesquisadores encontram evidência de maior aderência a mensagens que confirmam nossas crenças pré-estabelecidas aumentando a polarização política.

Atualmente o que mais se tem visto pelo mundo a fora é o movimento para polarização política. Acontece em países como os EUA e Reino Unido e aconteceu também nas últimas eleições no Brasil. Mesmo tendo uma vasta diversidade partidária por aqui, a última eleição foi sem dúvidas uma das mais polarizadas da história.

Um estudo publicado pela Nacional Academy of Sciences em 2017, analisou a polarização política com dados do Twitter e identificou aquilo que muitos de nós já vivenciamos nos debates das redes sociais.

COMO VIESES COGNITIVOS AUMENTAM A POLARIZAÇÃO POLÍTICA

A definição de viés cognitivo é:

“Um erro sistemático (não aleatório) no pensamento, no sentido de que um julgamento se desvia do que seria considerado desejável na perspectiva de normas aceitas ou correto em termos de lógica formal.”

Ariely, 2008

Voltando à pesquisa realizada com dados do Twitter, os pesquisados avaliaram mais de 500 mil postagens do twitter e constatou que em se tratando do debate, aquelas pessoas que se mostram moralmente indignadas tendem a apresentar um comportamento de extrema polarização em suas postagens.

Isso quer dizer na prática que para as postagens publicadas, daquelas pessoas identificadas como moralmente indignadas, apenas confirmavam as ideias políticas prévias. O que é ainda mais interessante, quando a pessoa compartilhava uma postagem ela fazia apenas para as postagens que eram ligadas à sua rede ideológica. Em resumo: as pessoas compartilham apenas postagens que reafirmavam seus pontos de vista.

Isso nos leva identificar uma heurística muito estudada pela Economia Comportamental que é a Heurística da Confirmação.

ENTENDENDO A HEURÍSTICA DA CONFIRMAÇÃO

Em linhas gerais, estudos relacionados à Heurística da Confirmação, descobriram que nós temos a tendência (viés) a buscar informações que comprovam nossos pontos de vistas já pré-estabelecidos ou crenças.

Essa ideia a respeito de nossa tendência a buscar informações que confirmem nossos pontos de vista já era objeto de estudo desde o século XVII como podemos verificar na passagem escrita pelo Filósofo Francis Bacon:

“A compreensão humana, quando uma vez adotou uma opinião (seja como a opinião recebida ou como sendo agradável a si mesma), atrai todas as outras coisas para apoiar e concordar com ela. E embora exista um maior número e peso de instâncias a serem encontradas do outro lado, contudo elas negligenciam e desprezam, ou então, por alguma distinção, deixa de lado e rejeita; para que por esta grande e perniciosa predeterminação a autoridade de suas conclusões anteriores possa permanecer inviolada.”

Bacon 1620 / 1939

Fica mais simples entender os motivos dessa polarização cada vez mais extrema de ambos os lados do posicionamento político, seja onde for. Essa ideia de que buscamos sempre informações que reforçam nosso ponto de vista, também pode ser verificada em outros aspectos da nossa vida cotidiana.

É por isso que é importante nos treinarmos a ouvir e respeitar ideias e posições divergentes da nossa.

Uma pesquisa liderada pelo psicólogo William Brady, da Universidade de Nova York deixa claro como o viés da confirmação pode interferir negativamente em nosso cotidiano.

PESQUISA MOSTRA COMO VIÉS DA CONFIRMAÇÃO PODE LEVAR A POLARIZAÇÃO POLÍTICA

A pesquisa liderada pelo psicólogo William Brady, coletou dados de mais de quinhentas mil postagens no Twitter. Os resultados encontrados deixam clara a existência de polarização. Num gráfico que mostro logo abaixo.

O mesmo foi elaborado com base nas postagens do twitter tendo sido considerado o uso da linguagem moral e moral-emocional para predizer se haveria ou não maior compartilhamento quando o uso de linguagem moral e moral-emocional é usado em postagens sobre posições políticas.

O efeito do contágio moral é maior dentro de grupos de mesma posição política em comparação com grupos de opinião política divergente. O gráfico mostra a contagem esperada de retweets como uma função em rede de grupo / grupo externo e conteúdo moral-emocional. Bandas refletem ICs de 95%. A linguagem moral-emocional foi associada a uma taxa de retweet significativamente maior para o grupo político para os tópicos de (A) controle de armas e (C) mudança climática. Para o tema do (B) casamento entre pessoas do mesmo sexo, o resultado não foi significativo, embora em uma direção consistente.

Viram como aumenta a quantidade de repostagens quando há linguagem moral e emocional? Isso acontece quando há divergência de opinião com base no posicionamento político e, portanto, é um bom indicativo de que houve replicação das postagens, devido ao reconhecimento semelhante de posicionamento político. Ou seja…

Quando a postagem (Tweet) se refere ao mesmo ideal político e usa linguagem moral e moral-emocional, há muito mais chances de que ela seja replicada.

O gráfico abaixo ainda mais interessante, na minha opinião, mostra o contágio moral que ocorre com base na ideologia política. Notem que os grupos compartilham mensagens semelhantes ideologicamente, mas em grande maioria para o grupo que possui o mesmo ideal.

Gráfico de rede de contágio moral sombreado pela ideologia política. O gráfico representa uma representação de mensagens contendo linguagem moral e emocional, e sua atividade de retransmissão, em todos os tópicos políticos (controle de armas, casamento entre pessoas do mesmo sexo, mudanças climáticas). Os nós representam um usuário que enviou uma mensagem e as bordas (linhas) representam um usuário retweetando outro usuário. As duas grandes comunidades foram sombreadas com base na ideologia média de cada comunidade respectiva (azul representa uma média liberal, vermelho representa uma média conservadora).

Isso reforça o pensamento coletivo e acentua o viés de confirmação das pessoas, produzindo, ainda mais polarização nos debates. Um preocupante problema da nossa atualizada que tem sido acentuado pelas redes sociais.

Afinal de contas, não apenas estamos buscando informações que confirmem nossas crenças e posicionamentos pré-estabelecidos, como agora estamos selecionamento as amizades na internet e o conteúdo que acessamos, pela afinidade de pensamento político.

Não é difícil imaginar que há uma tendência crescente de comportamentos intolerantes. Acredito que sempre tenha havido esse tipo de viés, mas antes tínhamos menos ferramentas para acentuar nossa recusa a escutar ou consumir informações que divergiam das nossas convicções.

Hoje com as redes sociais, e o estudo prova isso, pode ser que estejamos entrando numa era de intolerância como nunca antes na história da humanidade. Não estou aqui para prever o apocalipse, afinal de contas acho mesmo que temos muitas chances que quebrar esse mecanismo das redes sociais.

Para que consigamos minimizar nosso viés da confirmação e a polarização política, evitando uma guinada para intolerância, a Economia Comportamental tem tudo para ser um dos fiéis da balança.

De forma simples e despretensiosa é isso que pretendemos com o conteúdo que postamos aqui no Geekonomics. Entender e reconhecer que sofremos com vieses é sem dúvida o primeiro, senão o mais importante, para que possamos combater nossos erros sistemáticos.

Até o próximo texto pessoal!

REFERÊNCIAS

Bacon, F. (1939). Novum organum. In Burtt, E. A. (Ed.), The English philosophers from Bacon to Mill (pp. 24-123). New York: Random House. (Original work published in 1620)

BRADY, William J. et al. Emotion shapes the diffusion of moralized content in social networks. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 114, n. 28, p. 7313-7318, 2017.