Nem sempre somos expostos de forma justa a informações sobre o sucesso, seja o nosso próprio sucesso ou o sucesso dos outros. Como se não bastasse a veiculação de informações enviesadas, ainda há um fetiche por contar apenas grandes histórias de sucesso e isso, infelizmente não tem ajudado muito nosso desempenho, nem mesmo nossa motivação.

O que faz pessoas irem frequentemente ao Vale do Silício nos EUA?

Certamente todas as histórias de sucesso contadas a respeito de como empresas de garagem se transformaram em gigantes ou como ideias simples formaram verdadeiros impérios empresariais. Mas a busca por esse tipo de sucesso exponencial pode estar ajudando a atrapalhar cada vez mais nossas decisões e metas de vida.

É verdade que no Vale do Silício muito se tem valorizado a cultura do fracasso como sendo um importante passo para o amadurecimento e sucesso no futuro, mas pouco se sabe de grandes fracassos, a não ser daqueles que ocorrem com pessoas ou empresas que já experimentaram num momento anterior algum sucesso ou crescimento exponencial.

No livro The 10 Worst of Everything: The Big Book of Bad (Os 10 piores de tudo: o grande livro do mal) de Sam Jordison, ele comenta que:

Os humanos obtiveram algumas realizações notáveis ao longo dos tempos, mas a maioria de nós sempre foi mais propensa a acumular fracassos. Para cada Júlio César, havia milhares de gauleses correndo gritando em batalha, seminus e condenados. Para cada John Lennon, existem milhões de pessoas que nunca foram além de cantar mal em um espelho com um microfone de escova de cabelo. Antes de os irmãos Wright irem para o céu, havia milhares de tolos em vão batendo as asas que eles amarraram em seus braços – e caindo para a terra …”

Sam Jordison

ESCONDENDO O FRACASSO E AUMENTANDO NOSSOS VIESES

Somos treinados para o sucesso. Todos buscam ser bem-sucedido em algo, se destacar ou virar referência. A busca pelo sucesso não é algo ruim e minha ideia aqui não é ser sínico a ponto de pregar que devemos todos tirar de nossas vidas o desejo pelo sucesso.

Mas a propagação das grandes histórias de sucesso, todas mostrando sucessos exponenciais, tem ancorado demais nossas expectativas e desejos. Quando imaginamos o sucesso, não raro olhamos para casos exponenciais. Esse movimento tem levado milhares de pessoas a transforarem suas ideias em startups. Tem feito muita gente ignorar o propósito buscando sucesso a qualquer custo.

Ainda essa semana conversando com alguns amigos, estávamos relembrando alguns casos que vimos pela internet a fora. Teve influencer traduzindo conteúdo e publicando como se tivesse ele próprio escrito, tem gente comprando seguidores para perfis de redes sociais, outros compram curtidas e por aí vai.

Tudo isso porque não basta mais, para muitos, ter algum sucesso. As histórias divulgadas, os mitos perpetrados de que todos podem alcançar o sucesso exponencial tem levado muitos a se frustrarem, mesmo quando conquistam algum sucesso naquilo que fazem.

Para muitos não basta mais algum sucesso, só interessa aquele sucesso exponencial. E com isso pessoas tem se tornado cada mais depressivas, insaciáveis e insatisfeitas com seus resultados. A divulgação de casos e mais casos de onde pessoas como Steve Jobs, Mark Zckerberg e muitos outros alcançaram um sucesso inimaginável saindo do zero, tem contaminado as pessoas de insatisfação crônica.

Essa exaltação do hiper-sucesso também foi abordada por Sam Jordison no mesmo livro que já citei acima:

“A maioria dos livros celebra as exceções e não a regra. Eles se concentram nos super-empreendedores, nas histórias de sucesso únicas e estranhas. Eles não fornecem um reflexo justo da maré geral da história, mas fazem com que o leitor comum se sinta bem mais mediano. O 10 Pior de Tudo está aqui para corrigir esse desequilíbrio e mostrar que talvez você não deva levar muito mal se seus próprios planos não estiverem dando certo. Na verdade, você está do lado da humanidade.”

Sam Jordison

Como, nas palavras de Sam Jordison, essa celebração dos super-empreendedores pode impactar nosso comportamento?

Será que a busca pelo sucesso extremo nos ajuda na busca de nossos objetivos e em nossa toma da decisão?

A resposta pode estar na Economia Comportamental.

EXCEÇÕES Á REGRA E ECONOMIA COMPORTAMENTAL

É frequente usarmos o termo heurística em nossos posts. Para quem ainda não passou pelo nosso glossário, vale definir rapidamente aqui o termo. Heurísticas são comumente definidas como atalhos cognitivos ou regras práticas que simplificam as decisões. Eles representam um processo de substituição de uma questão difícil por uma mais fácil (Kahneman, 2003).

Atalhos cognitivos são importantes e nem sempre agem a nos conduzir para decisões equivocadas. Mas dependendo do contexto, algumas heurísticas podem ser exageradamente estimuladas e é exatamente quando isso acontece em excesso que passamos a funcionar mal cognitivamente.

Pensem na história da ampla divulgação dos sucessos exponenciais. Imagine você aí qual a última referência que você tem de pessoa de sucesso. Pense agora em mais uma e faço isso sucessivamente.

Quais pessoas vieram a sua mente?

Certamente alguém que está em muita evidência na mídia. E se você for fazendo esse exercício sucessivamente, vai acabar selecionando grandes nomes mundiais sem chegar nunca, ou chegando apenas após muito tempo ao alguém muito próximo a você.

Isso acontece porque seu referencial de sucesso está alto demais e a causa disso é o buzz gerado com as histórias dos super-empreendedores como citado pelo autor Sam Jordison. Aqui estão presentes algumas heurísticas e vieses já muito estudas pela Economia Comportamental: A Heurística da Disponibilidade, o Excesso de confiança e a Ancoragem.

De forma resumida cada uma dessas heurísticas e vieses podem ser explicadas como referenciado abaixo:

Ancoragem: efeito pelo qual a exposição inicial a um número serve como um ponto de referência e influencia julgamentos subsequentes sobre o valor. (Tversky & Kahneman, 1974)

Heurística da Disponibilidade: pessoas fazem julgamentos sobre a probabilidade de um evento com base na facilidade com que um exemplo, instância ou caso vem à mente. (Tversky & Kahneman, 1974)

Excesso de Confiança: observado quando a confiança subjetiva das pessoas em suas próprias habilidades é maior do que seu desempenho objetivo (real).

E como acho que essas heurísticas e vieses pode estar interferindo em como avaliamos e lidamos com nosso desempenho?

Quando somos frequentemente expostos a sucessos inacreditáveis, isso eleva nosso padrão e molda nossa referência de resultado e de sucesso. Em outras palavras, o contato que temos como as histórias fantásticas de pessoas que alcançaram o sucesso, nos deixa mais exigente porque passamos a mirar em tipo de sucesso raro, mas que parece ser comum e frequente.

Quando pedi para você pensar em sua primeira referência de sucesso, certamente você imaginou com base nas últimas histórias que leu, conheceu ou soube. Como o buzz de histórias de sucesso exponenciais cresce a cada dia, são estes exemplos que acabam vindo mais facilmente a sua cabeça quando você pensa sobre esse assunto. Aqui percebemos a atuação da heurística da disponibilidade.

E por fim nosso excesso de confiança faz parecer relativamente simples se apropriar de um sucesso exponencial ou nos tornamos super-empreendedores. Mas a verdade é que as coisas não são nem de perto simples como imaginamos. Eu mesmo tenho visto muita gente por aí divulgar Nudges em toda parte, mas na grande maioria nem se tratam de Nudges.

Muitas sacadas inteligentes de design têm sido confundidas com Nudges e isso acontece, porque quando lemos sobre Nudge, tudo parece muito simples e fácil. Mas a verdade é que para ser considerado um Nudge, deve haver muita pesquisa, dados e claro, replicação das alterações na arquitetura de escolha de forma a comprovar efetivamente e com dados mensurados se isso ou aquilo é ou não um Nudge.

Mas essa reflexão a respeito dos Nudges fica para outro post. Por hora deixo apenas uma preocupação a alguma mensagem de otimismo por aqui.

Preocupação com as pessoas se frustrando cada vez mais e estando sempre insatisfeitas com seus progressos pessoais. E por detrás disso por estar a causa de tantas pessoas com depressão e tanto suicídio ocorrendo por todo canto do planeta.

Otimismo porque gostaria de convidar você a celebrar conquistas pequenas e simples do dia a dia, como iniciar uma nova atividade, celebrar uma nota 5 baixa, mas quem sabe suficiente para te aprovar, ou ainda, comemorar um terceiro lugar ou um último lugar em qualquer atividade estando feliz apenas por ter consigo chegar ao final e participar.

É assim que vou finalizando esse post aqui, que ficou grande demais antes que ele comece a parecer demais com um texto de autoajuda rsrsrsr.

Até mais pessoal!