A Bettina bugou a internet! Infelizmente ela fez isso de uma forma distorcida. Distorcida porque insinuou haver resultado certo, quando na verdade não havia forma de prever nem muito menos garantir retorno algum.

Independente da estratégia, do conhecimento ou de qualquer outra informação, não há como garantir comportamento de nada num futuro, seja este no curto ou longo prazos. Tudo que se vê em termos de ferramentas de análise no mercado financeiro são expectativas. Estas expectativas são baseadas em informações muitas vezes de um passado recente, ou na melhor das hipóteses a respeito do momento atual em que a informação é vista ou analisada.

Vender uma imagem de que há no mercado algum mecanismo, metodologia ou cálculo que possa prever o futuro é vender ilusão e dessa forma não há como entender diferente do que algo que esteja longe da ética ou daquilo que é correto.

Em geral esse tipo de venda ilusória, fisga muitas pessoas e infelizmente para nós humanos, a Bettina e a empresa Empíricus não são os únicos e tentar explorar nossas fraquezas para vender produtos no mercado financeiro. Vejam as análises técnicas, ou os famosos Candles Sticks.

As análises de Candle em resumo mostram obviedades com certo grau de sofisticação. Na verdade, toda essa bobagem de limites superiores, vales e todo tipo de “apelidos” criativos e chulos, são nada menos do que simplificações de algo que todo mundo conhece que é a tendência matemática ou estatística.

O problema com tendências ou gráficos com regressões é que estes mostram comportamentos de dados passados e com isso formam modelos matemáticos de “previsão”. Mas prever com base em informações é nada mais do que especular e especular não é prever o comportamento de nada. Isso porque a previsão / especulação é baseada no passado. A equação faz referência ao passado, não havendo nada de futuro existente nesta conta ou na formatação do modelo estatístico.

Os mais crédulos vão imaginar e argumentar que os modelos acertam muito os comportamentos futuros, mas isso é outro pensamento muito estreito sobre o assunto. Acertar sim, é claro que acerta, mas há um componente de erro que não pode ser negligenciado. E é aqui que os acertos acabam se tornando mera obra do acaso.

O ambiente é dinâmico demais e acreditar que se pode estabelecer um modelo matemático que inclua todas as possíveis variáveis que interferem no preço de uma ação ao ativo financeiro é de uma arrogância ímpar.

Afinal de contas façamos um exercício simples. O que pode alterar o valor de uma empresa no mercado?

Seus resultados certamente.

E tem muito mais como: o mercado em que ela se encontra, o posicionamento relativo da sua concorrência, o ambiente regulatório governamental, a preferência dos consumidores, os produtos substitutos existentes, o mercado de matéria prima, a escassez….

Eu poderia passar várias páginas escrevendo a respeito de tudo que é variável possível de interferir nos resultados de empresas ao redor do mundo. Vejam um exemplo. Até poucos meses atrás a Boeing era uma empresa promissora, estável e em constante crescimento de sua posição de mercado.

Um evento bastou para que todo seu histórico de bons resultados fosse negligenciado fazendo com que o mercado precificasse suas ações com base num único evento recente. É claro que o evento foi grave, mas a discussão não é essa.

Percebem que precificar uma empresa com base em um único evento recém ocorrido faz com que décadas de modelos de previsão estatísticos se transformem em lixo do dia para a noite?

Em Economia Comportamental isso poderia ser considerado como um viés da disponibilidade exponencial. Afinal de contas não foram eventos que mais facilmente são rememorados que serviram para definir o comportamento da ação da Boeing, mas sim um único evento!

Imagem via: economiacomportamental.org

O viés da disponibilidade não se aplica a empresas, mas sim a pessoas. No entanto é de se estranhar que um único evento possa transformar anos de bons resultados em pó em segundos após os agentes do mercado tomarem conhecimento dele.

Essa ideia de eventos únicos que podem alterar o conhecimento estabelecido já foi amplamente tratada por Nassim Taleb em seu livro Cisne Negro. Já perdi a conta de quantas vezes citei ele como referência. Mas infelizmente parece que as pessoas insistem em acreditar excessivamente que há algumas chances de alguém conseguir prever minimamente o futuro.

Outro exercício simples de reflexão que faço aqui.

Se as pessoas têm tanta certeza de conseguirem prever corretamente o futuro, porque elas venderiam essa informação tão barato?

Afinal de contas, a Empiricus vender um relatório que custa R$100,00 apenas, prevendo o resultado futuro do mercado, parece incoerente com a própria essência de negócios, da escassez e até mesmo da natureza humana.

Ora, se estou vendendo o futuro decodificado, isso é algo que nem pode ser precificado. E ainda vou mais longe, se tenho esse poder, para onde foi a ganancia? Será que todos os analistas são tão altruístas assim que se dispõem a vender barato o mapa da mina com o comportamento futuro do mercado?

Vou deixar a resposta para vocês, afinal parece que recomendações são seguidas com base no livre arbítrio de cada um e não naquilo que possa ser minimamente factível, verossímil ou razoável.

Até a próxima parada para ilusões de ganhos fáceis via bolas de cristal modernas.