O que pode haver de comum ou estar relacionado entre a Ecomomia Comportamental e o seriado de maior sucesso de todos os tempos: Game of Thrones? Neste post eu comento alguns pontos que me saltaram aos olhos nesta semana em que o seriado apresentou seu terceiro episódio da última temporada.

A Economia Comportamental tem particular interesse pelo comportamento humano e suas particularidades, bem como na tomada de decisões e escolhas realizadas pelas pessoas em seu cotidiano. Essa é grande diferença da Economia Comportamental em relação à Economia Tradicional. Partindo do comportamento dos indivíduos e entendendo suas influências, os economistas comportamentais esperam poder criar estratégias que conduzam as pessoas a melhores resultados de suas decisões e comportamentos.

Nem tudo são flores e nem todo pesquisador encontra-se do “lado Jedi” da ciência. Existem sim alguns que se renderam ao lado “obscuro da Força” e utilizam dessas descobertas para induzir ou levar pessoas a resultados indesejados com relação aos seus comportamentos e decisões.

Anyway… essa discussão fica para outro post, porque o tema hoje aqui é Game of Thrones.

Game of Thrones sem dúvida entrou para a história do entretenimento como uma das produções mais bem-sucedidas da história. Seus fãs são engajados emocionalmente, alimentam discussões e toda uma infinidade de ações em torno do seriado ao redor de todo o mundo.

Aqui no Brasil, esta última temporada trouxe ainda algumas novidades interessantes em relação ao comportamento das pessoas. Ansiedade, maratonas para rever todas as temporadas antes do início da última, reuniões em shoppings e até mesmo castelos de festa para assistir aos episódios. De um lado para outro os domingos se tornaram peculiares depois da estreia do último episódio.

Enquanto a série continua em sua última temporada, a boataria e especulações a respeito do que acontecerá em cada novo episódio vira assunto do café ao jantar. Apostas são feitas, teorias são criadas e os famosos bolões estão a todo vapor.

COMPROMISSO E REPUTAÇÃO

Game of Thrones pode ser um dos últimos seriados de sua espécie a fazer o sucesso que vem fazendo. Isso porque seu formato em que episódios são disponibilizados gradualmente toda semana, tem cada vez mais dificuldade em se firmar. Parte devido à grande disponibilidade de opções disponíveis, o que pode desviar o engajamento emocional com a série e em parte porque ninguém mais parece ter paciência para esperar para ver.

Mas retornando ao ano de 2011 e sim, já faz 8 anos que Game of Thrones está no ar, vemos que ainda era incipiente o novo formato proposto pelo Netflix e afins de disponibilizar toda a temporada de um seriado de uma única vez.

Para ter uma ideia, vejam como foi o crescimento dos assinantes do Netflix:

Imagem via: http://zoly.com.br/uso-de-video-on-demand-no-brasil/

FALÁCIA DO CUSTO AFUNDADO (SUNK COST)

Em geral apresentamos a tendência de comportamento muito coerente com a Falácia do Custo afundado ou sunk cost em inglês. Mas o que isso quer dizer?

Resumidamente a Falácia do custo afundado ocorre quando investimos muito recurso, seja de tempo, financeiro, atencional ou emocional em algo e por isso ficamos apegados, presos e pouco propensos a renunciar àquilo em que investimos tanto.

Há ainda forte desejo em mantermos nossa reputação. Essa afirmação vem da psicologia social e está associada ao compromisso implícito que temos socialmente firmado com o seriado. Nos relacionamos com pessoas que assistem, fazemos comentários a mantemos relacionamentos onde o assunto Game of Thrones é tratado regularmente.

Aliada à nossa necessidade em manter comportamentos consistentes com nossa auto-imagem faz com que nosso comportamento seja mantido. Em resumo, somos pressionados por nós mesmos a manter o acompanhamento da série, pois já nos “comprometemos socialmente” com o fato de sermos fãs e estarmos mantendo toda uma rede de contatos com base nesse assunto.

Temos então até aqui, duas forças atuando para manter nossa disposição a nos mantermos firmes acompanhando Game of Thrones: O tamanho dos custos investidos até agora (tempo e emoção principalmente) e ainda a pressão por mantermos nosso comportamento consistente com o compromisso social que assumimos enquanto fãs da série e toda rede que construímos ou participamos com base no seriado.

Parece algo perverso isso não?

Parece que estamos reféns do nosso comportamento passado e do compromisso assumido publicamente. E é isso que acontece, mas nem sempre essas variáveis nos conduzem para comportamentos ou decisões eu sejam incomodas a nós mesmos. Abaixo um exemplo interessante retirado do artigo publicado por Arkes & Blumer, 1985 em que eles mostram um caso onde o custo afundado ou irrecuperável conduziu Thomas Edison para uma melhor decisão.

“Na década de 1880, Thomas Edison não ganhava muito dinheiro com sua grande invenção, a lâmpada elétrica. O problema era que sua fábrica não estava operando a plena capacidade porque ele não vendia o suficiente de suas lâmpadas.

Ele então teve a ideia de aumentar a produção de sua fábrica até a capacidade total e vender cada lâmpada extra abaixo do custo total de produção. Seus associados pensaram que essa era uma ideia extremamente pobre, mas Edison fez isso de qualquer maneira.

Aumentando a produção de sua fábrica, Edison adicionaria apenas 2% ao custo de produção, enquanto aumentaria a produção em 25%. Edison foi capaz de fazer isso porque grande parte do custo de fabricação era um custo irrecuperável. Ou seja, o custo estaria presente se ele fabricasse mais lâmpadas ou não. Edison vendeu então o grande número de lâmpadas extras na Europa muito mais caro do que os pequenos custos de fabricação.

Como os aumentos de produção envolviam novos custos insignificantes, mas novas receitas substanciais, Edison foi sensato em aumentar a produção. Edison foi capaz de colocar custos irrecuperáveis ​​em perspectiva adequada para chegar a sua decisão…”

Arkes & Blumer, 1985

No exemplo acima, Thomas Edison, mostrou como é possível utilizar a falácia do custo irrecuperável a nosso favor. A pesquisa em Economia Comportamental, no entanto sugere que estes casos são mais raros do que aqueles em que as pessoas são prejudicadas em suas decisões quando acometidas pela falácia do custo afundado.

AINDA NÃO ENTENDEU O QUE ISSO TUDO TEM A VER COM GAME OF THRONES?

Em geral o investimento emocional e de tempo para acompanhar séries não é pequeno. Vejam o caso de Game of Thrones, pessoas acompanham a série desde idos de 2011. Com isso já são oito anos investindo tempo e engajamento emocional com as histórias, personagens, discussões com amigos e tudo mais relacionado ao comportamento de quem vem acompanhando a série.

Por tudo isso o custo envolvido acabou ficando elevado demais aos fãs da série. Foram muitos domingos acompanhando o desenrolar da série. Muitas conversas com amigos, muitos laços como estes mesmos amigos reforçados pela cumplicidade dos gostos pelo seriado. Essas relações sem dúvida criam um laço muito forte que impede as pessoas simplesmente de ignorar a nova temporada ou esperar, ou ainda desistir de continuar a acompanhar.

OUTRO PONTO QUE PODE AJUDAR A REFORÇAR O COMPORTAMENTO E TODO HYPE GERADO PELA SÉRIE: PROVAS SOCIAIS!

Quando não sabemos como nos comportar, em geral tendemos a buscar informação nos outros. Isso acontece também quando desejamos pertencer a determinado grupo. Provas Sociais são moduladores importantes de comportamento.

Nós humanos somos seres sociais e em geral desejamos pertencer a um determinado grupo ou “tribo”. Isto está no cerne de nossa evolução como espécie. Então, além dos custos afundados temos ainda a influência social agindo para que estejamos propensos a não desgrudar dos novos episódios de Game of Thrones.

Assim, diferente do que podemos justificar para nós mesmos, pode ser até mesmo que continuemos a acompanhar séries, mesmo se passamos a não gostar mais delas. Aconteceu comigo com The Walking Dead. Mesmo já cansado do formato do seriado, simplesmente não consigo ignorar novos episódios. Afinal investi tempo demais para simplesmente não ver o final rsrsrsrs.

Vejam esse caso. Um shopping com dezenas de pessoas reunidas para assistir a série. Um caso claro de prova social.

ATENÇÃO O VÍDEO CONTÉM SPOILER!

E assim sigo por aqui como um clássico Ser Humano de racionalidade limitada. Pelo menos, em relação a Game of Thrones, o seriado tem melhorado a cada temporada o que reduz o incômodo com o custo afundado enorme investido para acompanhar a série.

Até a próxima Geeks!