O brasileiro já está acostumado com comportamento desonesto, mas casos como a da professora Joana D’arc Felix de Souza que falsificou diploma, títulos e até mesmo a fonte patrocinadora de suas pesquisas não deixam de causar espanto e estimular o debate sobre comportamento desonesto.

O mês de maio parece não ser um bom período para se ser Joana D’arc. Há 588 anos, a Joana francesa morria queimada, acusada de heresia e assassinato. Depois de batalhar contra os ingleses na Guerra dos Cem Anos e ser perseguida por ouvir as orientações de santos e anjos, a plebeia e guerreira foi canonizada e se tornou a padroeira de Paris.

Na terra brasilis, a sentença foi mais branda, mas certamente nefasta. Para a cientista brasileira Joana D’arc Felix de Souza, sua notoriedade e reputação foram jogadas na fogueira pela matéria publicada pelo Estadão. A matéria do jornal revelou que parte das credenciais acadêmicas atribuídas à pesquisadora eram falsas e, inclusive, que a universidade que ela afirmou frequentar sequer emitia o diploma que ela alegava ter obtido.

O que pode ter levado a professora da Etec, que teve mestrado e doutorado realizados em uma das maiores universidades do país e que recebeu diversos prêmios pelas pesquisas que conduziu a mentir no currículo?

O livro “A mais pura verdade sobre a desonestidade”, de Dan Ariely, apresenta aspectos do comportamento humano que ajudam a responder essa pergunta.

“Pessoas perfeitamente bem-intencionadas podem tropeçar nas peculiaridades da mente humana, cometer erros flagrantes e, ainda assim, continuar considerando-se boas e morais”

(ARIELY, Dan. 2012)

A primeira constatação vem da própria amplitude do currículo de Joana D’arc. Usualmente, uma trapaça é cometida dentro de um limite que mantenha um senso de honestidade plausível. É essa margem de manobra que faz com que muitos funcionários considerem razoável cometer pequenos furtos, como os de acessórios de escritório.

No caso da pesquisadora, o fato de ter um vasto número de títulos, somado a alegação de ter sido convidada a participar de uma pesquisa na Universidade de Harvard pode ter dado “conforto” moral, levando-a a inflar o currículo. O fato de não ter concluído o estudo em função do retorno ao Brasil em decorrência da morte do pai, possivelmente atenuou ainda mais o desvio ético e legitimou a fraude.

Além de incluir um título de Harvard que não possuía em seu currículo, um desvio menor (se é que se pode considerar menor…) foi cometido. Apesar de ter sido bolsista do CNPQ, a pesquisadora declarou ter sido bolsista da Capes. O fato de as duas farsas serem criadas em períodos próximos leva a crer elas tenham sido influenciadas pelo que Ariely chama em seu livro de efeito “que se dane”.

Trata-se da tentativa de obter a maior vantagem possível da fraude depois de ela ter maculado a integridade do indivíduo. O exemplo descrito no livro traduz bem o efeito: se você está de dieta e comete um pequeno desvio comendo só um pedaço de bolo, pensa “que se dane”! Como quebrei o regime hoje, vou comer todo o bolo e tudo mais que venho me privando. Amanhã começo de novo.

Seja lá qual tenha sido a primeira falsificação de Joana, é possível que isso a tenha levado a “enfiar o pé no Lattes”.

Para justificar o desvio das informações, a responsabilidade pelo envio dos documentos falsificados foi atribuída a um aluno que teria encaminhado equivocadamente o diploma. Esse padrão de comportamento, de distanciamento do objeto da trapaça, foi avaliado por Ariely em suas pesquisas com jogadores de golfe.

Em seus experimentos, Dan observou que golfistas eram mais predispostos a roubar no jogo empurrando a bolinha com o taco do que pegando com a mão. Ao atribuir o golpe do diploma a outra pessoa, a professora anulou seus efeitos negativos, mantendo sua história mental de honestidade coerente.

Joana Dar’c virou uma celebridade nacional quando foi anunciado que um filme seria produzido com base em sua história de superação. Mesmo que as mentiras tenham sido contadas muito antes disso, o fato só ampliou o efeito de sinalização externa de super capacitação que pode ter sido o motivador de todo o processo.

Antes que você termine de ler esse texto, queria lembrar que nossa Joana Dar’c não está só. Se pelo lado positivo a homônima francesa a acompanha no caminho de superação, no sentido oposto não faltam casos de fraude acadêmica. Provavelmente o caso mais famoso seja o de Marilee Jones, diretora de admissão do MIT por 25 anos, que incluiu 3 títulos acadêmicos que nunca possuiu em seu currículo.