Para começar a semana após manifestações nas ruas com uma reflexão interessante, com conceitos da Economia Comportamental. Parte dela retirada de um artigo que li recentemente numa revista.

“Quando eu era um garoto, eu vi a versão 1968 do Planeta dos Macacos. Como um futuro primatologista, fiquei hipnotizado. Anos depois, descobri uma anedota sobre suas filmagens: na hora do almoço, as pessoas que encenavam chimpanzés e as que encenavam gorilas comiam em grupos separados.” (Via: Nautilus)

Essa anedota serve bem para ilustrar como muitas vezes nossos automatismos classificatórios agem para segregar grupos e impor dicotomias que escapam do razoável quando se trata de convivência social.

Muito se tem dito a respeito de divisões entre nós e eles. Uma das frases mais famosas ultimamente tem sido:

“Existem dois tipos de pessoas no mundo: aqueles que dividem o mundo em dois tipos de pessoas e aqueles que não o fazem.”

ROBERT SAPOLSKY

Mas a realidade tem mostrado que há muito mais do que apenas essas duas classificações por aí. E devemos nos preocupar em expandir nossa visão e análise a respeito desse tipo de classificação / segregação. Pode ser muito importante realizar certas classificações, por exemplo, quando as pessoas estão divididas em nós e eles, em dentro do meu grupo e fora do meu grupo, ou entre “o povo” (ou seja, nosso tipo de pessoa) e os Outros.” (Adaptado de Nautilus).

A importância das classificações, no entanto, tem limites frágeis. Esse limite reside no impacto em que tais classificações geram no ambiente social. Em Economia Comportamental, falamos em prova social que basicamente diz respeito à forma como agimos, nos comportamos ou decidimos com base naquilo que os outros fazem, ou para usar um termo mais técnico, naquilo que nossa rede de referência faz.

Pesquisas dão conta de que a divisão básica entre dois núcleos como: Nós e Eles é feita de maneira emocional e automática. Em termos das descobertas realizadas em Economia Comportamental, podemos falar que esse tipo de classificação binária é feito de forma automática pelo nosso Sistema 1.

Nós humanos universalmente fazemos classificações e acabamos por criar dicotomias que se estendem pelas mais diversas formas e variáveis. É comum classificarmos com automatismo: linhas de raça, etnia, gênero, grupo de idiomas, religião, idade, status socioeconômico, ideologia política e assim por diante.

Nem sempre essas classificações, quase sempre binárias e automatizadas, produzem uma foto bonita no contexto social e em nossos relacionamentos enquanto sociedade.

O que tenho visto no contexto político brasileiro pode ser um reflexo desse tipo de automatismo em ação. O fato de fazermos classificações com notável rapidez e eficiência neurobiológica, combinado com nossa falta de conhecimento sobre determinados temas, pode estar potencializando os efeitos deletérios da Prova Social para nosso comportamento.

Em geral, quando não sabemos como nos comportar, decidir ou agir, buscamos informações nos outros. Este “outros” a que me refiro aqui está diretamente relacionado com nossa rede de referência. Por ela, podemos entender: nossa família, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, grupo religioso muitos outros. Mas os efeitos de utilizarmos desse tipo de heurística para tomarmos nossas decisões ou agirmos em determinadas situações podem levar a consequências desastrosas.

Isso porque atualmente o ambiente tem estado confuso e hostil aos nossos processos decisórios. Sobrecarga de informações, esgotamento cognitivo, ansiedade e viés do presente, prejudicam nossas ações e nos “empurram” para comportamentos relacionados mais à conformidade social com nossa rede de referência do que a propriamente com a evolução de nosso pensamento e autonomia de nossas decisões.

Temos ainda o viés dos algoritmos das redes sociais que mostram assuntos do quais em tese temos mais afinidade ou interesse, mas que de verdade atua confirmando nossas crenças e aliviando a demanda cognitiva para nosso cérebro. Eis um exemplo de como pode ser perigoso todo esse movimento.

AUTOMATISMOS, DECISÕES E NOSSAS LIMITAÇÕES COGNITIVAS

Somos cada vez mais incentivados a usar de automatismos para decidir e agir. Estes automatismos, no entanto, têm nos afastado de uma visão crítica a respeito do nosso ambiente social e contexto, fazendo com que visões extremistas e altamente polarizadas ganhem força a despeito de suas incoerências.

Casos como da votação do Brexit ou a eleição de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil, são exemplos muito recentes de como podemos estar caminhando para perda completa de nossa visão crítica e autonomia decisória. Tudo isso ainda ampliado, não podemos esquecer, com a profusão cada vez mais profissional e efetiva de informações falsas (Fake News).

Num contexto onde seguimos com a maré, quem tem domínio sobre a comunicação e consegue fazer dela o instrumento mais efetivo, sai ganhando e arrasta a grande maioria já esgotada em sua energia cognitiva e presa fácil de Fake News, algoritmos de busca e afins.

Voltando às nossas classificações e segregações…

Os ingredientes estão todos postos. A mise en place está posta! O prato principal a ser cozinhado com todos esses ingredientes cria a expectativa de um prato de difícil digestão. Mais polarização, mais extremismos, intolerância e tensões sociais.

Vamos sobreviver?

Certamente, mas não sem graves escoriações, quem sabe até com várias úlceras estomacais, para manter a metáfora alimentar por aqui.

É lugar comum encerrar um post desses com uma linha meio autoajuda onde recomendações do tipo:

Confirme a fonte das informações;

– Esteja atento às propostas, não confie em tudo que recebe pelas redes sociais

– Procure entender os dois lados das questões e das pessoas;

– Seja mais tolerante para com seu próximo…

Não vou cair nessa armadilha aqui.

O fato de fazermos classificações com notável rapidez e eficiência neurobiológica; utilizando inclusive de taxonomias complexas, por vezes restringe nossa visão e nos leva a classificações que não raro resultam em diminuição da importância daqueles fora de nossos grupos ou daqueles que não compartilham de nossas crenças.

Fazendo da forma como estamos fazendo, ou seja, com uma versatilidade que já resultou desde a mais mínima microagressão até banhos de sangue e selvageria; e regularmente decidir que são inferiores todos aqueles fora de nossos grupos, ancorados em pura emoção (sistema 1 em ação 95% das vezes) acaba por nos conduzir a racionalizações primitivas que confundimos com racionalidade.

A verdade é que, estamos limitados biologicamente para sairmos dessa espiral deletéria. Muito ainda será necessário para que possamos avançar, abandonando o atual estágio das coisas. E digo isso não por ser pessimista em relação ao tema, mas sim por ter certeza de que tem muito mais pessoas interessadas em manter toda essa regra e manipulação do que em resolver a questão.

A quem afinal de contas interessaria promover uma visão mais crítica às pessoas?

A quem interessaria promover uma integração de pautas nos debates políticos?

Quem está disposto a promover uma integração nas pautas políticas?

Infelizmente até o presente momento em que escrevo este post…

Acho que ninguém, ou para ser menos fatalista: a grande minoria.