Estamos na semana nacional de educação financeira e dado o estado atual das coisas aqui no Brasil, achamos que seria o momento de publicar um post que não fosse mais do mesmo que temos visto por aí. Espero que gostem e que estimule as discussões em torno do tema.

Para quem gosta e segue a área ligada ao mercado financeiro, finanças pessoais e economia, as redes sociais certamente devem estar esquizofrênicas ultimamente. Isso porque houve uma profusão de perfis e de pessoas que estão fazendo um trabalho excelente de educação financeira e com isso ajudando muita gente.

Avaliando muitos dos perfis sérios, vejo que a ajuda nem sempre se restringe ao esclarecimento a respeito de produtos financeiros e investimentos, mas também aborda temas comportamentais como formas que controlar impulsos, criar hábitos financeiramente responsáveis e evitar gastos descontrolados.

Não há dúvidas de que o trabalho feito por estes perfis tem sido de grande importância para melhorar o nível de educação financeira daqueles que buscam conhecimento e se preocupam com suas finanças pessoais. Mas quem me conhece sabe que sou bastante crítico e que quase nada passa por mim sem que haja uma análise, sugestão ou crítica.

E este post é exatamente uma crítica (construtiva) ao estado atual das coisas em educação financeira aqui no Brasil.

O VERDADEIRO PROBLEMA ESTÁ SENDO NEGLIGENCIADO

O Brasil é um dos países onde há maior penetração de celular e consumo de internet, móvel e cabeada. Isso na verdade para mim, é até uma espécie de paradoxo. Muitas casas carecem de itens básicos, falta acabamento, móveis e todo um aparato que poderia aumentar o conforto dos lares. Aqueles mais atentos à realidade já devem ter reparado este fato, nem que seja pela televisão num destes programas que promovem quadros como Lar Doce Lar do programa do Luciano Hulk na Globo.

Para quem nunca assistiu, o quadro lar doce lar, basicamente seleciona uma pessoa ou família que recebe uma reforma completa da casa onde mora. Este tipo de programa é interessante porque possibilita o acesso a realidades das mais diversas, espalhadas pelo Brasil afora. Não são raros os casos em que famílias possuem situação precária em suas casas.

Até aqui nada de novo.

O que chama a atenção são as escolhas possíveis de serem avaliadas de maneira bem objetiva. Sim, o que sempre me espantou são as escolhas. Muitas casas, por exemplo não ter reboco, água encanada, quartos e camas suficientes para todo os membros da família, mas paradoxalmente todos os membros possuem um smartfone. Acontece ainda de haver internet nestas mesmas casas, bem como TV por assinatura (gato net certamente) e pasmem, Smart TV e Netflix compartilhado.

Ok. Nem todas essas informações são passíveis de serem verificadas apenas assistindo o programa de TV. Algumas delas aproveitei da conversa espetacular que tivemos no nosso PodCast de Antropologia do Consumo com a Hilaine Yaccoub. Aliás foi neste mesmo podcast que de maneira pouco sutil, uma reflexão nos fez refletir a respeito da inadequação da famosa Pirâmide de Maslow das necessidades básicas.

Afinal de contas, como definir o que configura uma necessidade básica nos dias de hoje?

Vemos muitas pessoas priorizarem internet como algo de extrema necessidade. Muitos são os casos onde é desconcertante tentar estabelecer aquilo que seja uma necessidade básica. Mas essa discussão fica para outro post, ou se você quiser aprofundar, recomendo demais os dois podcasts que gravamos com a Hilaine.

Todo esse rodeio apenas para dizer que muitas vezes temos que repensar o atual estado das coisas. Muitas vezes criamos estratégias e planos de ação que estão desconexos com as causas dos problemas que queremos e precisamos priorizar para atacar e resolver. O caso do baixo letramento financeiro do brasileiro e de suas escolhas muitas vezes irracionais me parece ser um desses casos.

MAIS DO MESMO: INSISTINDO EM EDUCAR OS JÁ EDUCADOS

Alguns estudos já sinalizaram que em educação financeira, muito daqueles que demandam este tipo de conhecimento já são pessoas com certo nível de sofisticação. Estes muitas vezes já possuem certo grau de letramento financeiro e entendem boa parte do funcionamento dos mercados e produtos financeiros. Ou seja, o movimento de estimular apenas a educação financeira, tende a gerar impacto para aqueles que em teoria precisam menos.

Há ainda uma discussão sobre a efetividade limitada de ações com foco apenas da educação financeira. Em artigo publicado pelo Professor Bernardo Nunes – LINK AQUI – ele trás um gráfico que ilustra bem esse fato. Nele é mostrado que o efeito de ações em educação financeira, decresce de maneira exponencial tendendo a zero de impacto no prazo de até vinte e quatro meses. No entanto após oito meses uma queda considerável é observada. Oito meses de efeito é algo bem efêmero, se consideramos que as pessoas que participam, tendem, como já vimos acima, a serem pessoas já letradas ou parcialmente letradas no assunto.

Se já sabemos, por pesquisas que intervenções de educação financeira convencional, como aulas expositivas, materiais escritos e aulas online são pouco eficazes. Se já sabemos que estas mesmas ações promovem pouca mudança no comportamento referente às finanças pessoais e comportamento de poupança a longo prazo, me parece que há um certo equívoco de forma e alvo a ser atacado, se queremos mesmo auxiliar as pessoas em sua luta diária pela independência financeira.

Num artigo publicado na Revista Forbes a colunista Elizabeth Bauer, aborda o tema sob a perspectiva dos programas que forçam poupança em trabalhadores nos EUA. Com objetivo de alterar um comportamento prejudicial para as finanças pessoais, alguns Estados nos EUA têm criado poupanças compulsórias em programas onde trabalhadores são inscritos de forma automática.

A criação desse tipo de programa assume que esforços de educação financeira podem ser ineficazes e, portanto, adotam intervenções que alteram o contexto e exploram vieses como inércia decisória ou o status quo. Comentando sobre os programas de aposentadoria com adesão automática, mas que preservam a liberdade dos indivíduos em sacar o montante poupado a qualquer momento, ela diz que:

Esses poupadores [que aderiram de forma automática aos planos de poupança] acabarão endividados. Parece provável que a maioria desses novos participantes não possa simplesmente renunciar a alguns luxos, porque eles não têm luxos para renunciar. Não vejo nada nesses programas que distingue as necessidades dos trabalhadores de baixa renda daqueles que são de renda média, mas financeiramente indiferentes. Fonte: Forbes

Elizabeth Bauer - Forbes Magazine

Em resumo o que ela quis dizer é que a poupança automática pode não aumentar os níveis de poupança a longo prazo. Aqueles que se comprometeram e passaram a guardar parte do salário para aposentadoria, podem não conseguir manter esse comportamento simplesmente porque o percentual poupado faz muita diferença frente às suas necessidades financeiras cotidianas.

COMO RESOLVER?

A despeito do bom trabalho que vem sendo feito por muitos educadores financeiros e pelos perfis dedicados às finanças pessoais nas redes sociais, pouco ainda é pensado para atingir a grande parcela da sociedade que enfrenta trade-off mais severos no dia a dia. Para estas pessoas, pouco interessa se o Tesouro Direto rende mais que a poupança, ou se o momento é propício para diversificar investindo parte de suas economias em ações.

A grande maioria das pessoas que necessitam verdadeiramente de educação financeira são aquelas endividadas, que não tem poupança para aposentadoria, que passam necessidades como falta de alimento e privação severa a ponto de não conseguirem garantir o lanche dos filhos na escolha, o almoço para toda semana ou o remédio para suas enfermidades. Pessoas que vivem com salário mínimo, ou pior, que vivem sem salário certo e lutam fazendo “bico” em trabalhos esporádicos e incertos. Estes são a meu ver os verdadeiros alvos a serem perseguidos pela educação financeira.

Por que acho que são estas pessoas que devem ser o foco? Simples, porque elas são a grande maioria.

Não que tudo aquilo que já está aí funcionando seja inócuo por completo ou que seja desnecessário. Mas a meu ver, nem de longe é suficiente. O problema real aqui não é saber que o Tesouro Direto rende mais do que a poupança, mas sim sobre como podemos melhorar as decisões de pessoas que estão realmente fragilizadas financeiramente.

Nesse contexto a Economia Comportamental pode ajudar. Intervenções comportamentais que melhorem o contexto, deixando saliências que levem as pessoas a se orientarem para decisões melhores em termos de seus gastos e comportamento podem gerar resultados expressivos.

Ações mais simples focadas em temas como economia compartilhada, ações possíveis para economizar energia, consumir alimentos da estação em que é esperado menor preço, fazer a feira no final, pois há maior chance de ter acesso a preços promocionais, evitar produtos financeiros deletérios como crediário, cartão de crédito e até mesmo os agiotas.

Quanto se pode ensinar, quanto se pode estruturar o contexto para que as pessoas possam navegar com mais tranquilidade pelos desafios impostos pela sua racionalidade limitada?

Em gestão sempre merece mais atenção, o problema ou desafio que está causando maior dano ou ameaça à sustentabilidade e perenidade do negócio. É quase sempre uma questão de sobrevivência estabelecer prioridade frente às situações adversas. Mas a prioridade precisa ser estabelecida avaliando onde realmente está o problema mais agudo.

Fazendo uma analogia com a medicina, pode até ser que você tenha descoberto um câncer num paciente que acabou de sofrer um infarto. Mas se o infarto não for tratado com prioridade o paciente morrerá e neste caso o câncer não merece atenção e nem ação, até que o caso mais agudo, o infarto, seja solucionado.

Em tempo cabe aqui uma reflexão. Antes de sair por aí alardeando seu propósito a respeito de como você ajudará o brasileiro a vencer sua ignorância financeira, veja se você realmente tem uma ideia bem real do que seja o povo brasileiro. Pare um momento, pense, olhe ao redor e tente perceber quem é o verdadeiro brasileiro. Uma dica: o brasileiro em geral e na sua grande maioria é aquele que ganha salário mínimo, mora em local que grande vulnerabilidade social, tem baixo nível educacional, tem infinitamente mais obrigações e necessidades do que condições de satisfazê-las…

Após reconhecer que são os verdadeiros brasileiros a serem considerados para receber atenção e prioridade de ação, quem sabe você possa pensar em como contribuir com algo que valha verdadeiramente a pena ser alardeado por aí.