Tornou-se comum atualmente e já figura, com status de axioma a afirmação de que o Homo Economicus precisa morrer. Àqueles ainda não íntimos deste, que tem sido há tempos o protagonista prestigiado das teorias econômicas, cabe uma breve explicação.

Para as ciências econômicas o Homo Economicus é nada menos que uma simplificação do ser humano. Esta simplificação nada simples considera que nós seres humanos somos perfeitamente racionais em nossas escolhas e que sempre buscamos maximizar nosso bem-estar a ponto de adotarmos uma postura egoísta e auto interessada em tudo que fazemos.

De certa forma esse pressuposto simplificador do Homo Economicus é facilmente ridicularizado, até mesmo pelas pessoas mais simples, não sendo diferente para pessoas mais sofisticadas em termos de conhecimento. Basta pensar quando foi a última vez que você se comoveu ao assistir um filme ou seriado na TV, cinema ou o que é hoje em dia mais comum, em algum provedor de conteúdo via streaming.

Se agíssemos tal como o Homo Economicus, não haveríamos de nos comover com obras de ficção, encenadas para nos entreter. Sabemos previamente da farsa, no entanto nos comovemos, nos envolvemos emocionalmente com o conteúdo e hipnotizados, confundimos ficção com realidade. Não fosse essa nossa capacidade empática para com a sétima arte, certamente estaria esta, fada ao mais retumbante fracasso.

É também, relativamente simples provar nossa característica altruísta. Contribuímos para caridade, realizamos trabalhos voluntários e nos envolvemos em causas que confirmem nossas crenças e visão de mundo. Além disso dificilmente agimos de forma consciente para prejudicar o outro. Mesmo que atualmente a impressão seja de que vivemos tempos de barbárie, a verdade é que há estabilidade nas relações sociais como nunca visto na história.

É relativamente simples refutar o pressuposto do Homo Economicus.

Igualmente simples é pensar que com base nessa simplificação, a Ciência Econômica não passa de uma farsa a estabelecer teoremas que se aplicariam perfeitamente em qualquer obra de ficção, menos no mundo real em que vivemos. Aliás, da mesma forma como acontece com o Homo Economicus, muitos tem se apressado em ridicularizar mais de duzentos anos de pensamento econômico, alardeando o que parece ser uma espécie de iluminismo tardio, para o qual a Ciência Econômica haveria de ter acordado no final do século XX e início do século XXI, mas não o fez.

Infelizmente nem sempre estamos preparados para reconhecer que a ciência caminha a passos curtos e está sujeita e diversos realinhamentos de trajetória. Seja por limitações técnicas ou por amadurecimento lento do raciocínio intelectual, a verdade é que o progresso científico precisa de tempo. Alguns mais apressados por aí acabam por negligenciar o fato de que, mesmo atualmente onde tudo parece acelerado, para a ciência nem sempre é possível e prudente tentar correr ao invés de caminhar.

Essa semana escutei um determinado PodCast onde o título sugeria que o Homo Economicus deveria morrer. Um bom título do ponto de vista propagandístico e que certamente rendeu muitos ouvintes. Eu mesmo fui seduzido pelo título e fui logo dando o play para escutar.

O PodCast ao qual me referi serviu muito bem a este propósito de alardear o que pode parecer uma Nova Era para o pensamento econômico, se no entanto, o tema tivesse sido tratado com maior lucidez naquilo que defende, a saber: a morte do pressuposto simplificador do Homo Economicus.

Me arrisco a dizer que, muitos daqueles que se apressam a condenar o personagem central das teorias clássicas da economia, podem estar sofrendo de uma espécie de cegueira científica. Costumo dizer que a Ciência Econômica, tal como como todas as outras Ciências, caminham a passos mancos e arrastados. Não reside aqui, no entanto, uma crítica ao andamento das pesquisas científicas, mas sim a humildade de reconhecer que não há movimento evolutivo simples quando se trata de estabelecer as bases para estruturação do saber científico.

Neste terreno fértil em que muitos se apressam a negar peremptoriamente o passado ridicularizando o Homo Economicus, brotam tolos vigorosos, certos de sua razão e conhecimento privilegiado por terem enxergado algo que como já disse aqui, é passivo de ser refutado pelo mais simples dos homens apenas com um simples exercício de reflexão.

Sim, o Homo Economicus é uma simplificação que não cabe mais no mundo científico de hoje. Sim, os econs como se refere o nobel Richard Thaler ao Homo Economico, não refletem com precisão nossos comportamentos. E, portanto, os econos, inúteis à evolução contínua da Ciência Econômica, devem ser extintos, certo?

Errado!

A Economia Comportamental trouxe certamente uma série de evoluções ao estudo da Economia. Ela revelou que nós humanos falhamos e como não bastasse, falhamos de forma sistemática. Seria então de se esperar que o grande algoz dos econs fôssemos nós, os Economistas Comportamentais. Mas eis que aqui estou escrevendo em defesa do Homo Economicus!

Em defesa do Homo Economicus

Você deve estar pensando que estou sofrendo de algum tipo de dissonância cognitiva, certo?

A verdade é que estou, pelo menos até onde consigo perceber, muito longe disso rs. A verdade é que o Homo Economicus não deve morrer como insinuou o título daquele PodCast que mencionei no início deste texto.

Se viajarmos até o longínquo século XVIII para avaliar as contribuições de pensadores como Jeremy Bentham (1748-1832) e Adam Smith (1723-1790), podemos pensar que eles estão ultrapassados, ou que eram apenas filósofos e escrever reflexões abstratas, não mais aplicáveis aos dias atuais. Mas essa é sem dúvida a forma errada de enxergar o conhecimento produzido por eles.

Ao contrário, podemos avaliar a obra de ambos como uma fagulha ínfima, mas forte o bastante para promover aquilo que, mais de duzentos anos depois, incendiaria toda uma área do conhecimento. O mesmo podemos dizer sobre os neoclássicos com sua obsessão matemática fortemente sustentada pelos pressupostos simplificadores do Homo Economicus.

E foi assim que a Ciência Econômica chegou até o ponto em que estamos hoje. E foi assim que se tornou possível a construção de todo conhecimento científico em economia até então. Críticas foram sim feitas, umas mais outras menos duras. Algumas até radicais, mas não tão radicais a ponto de ponto de sugerir a extinção ou plena negação das ideias passadas.

Devemos pensar não na morte ou extinção do Homo Economicus, mas sim em sua evolução. Para citar novamente Richard Thaler em recente entrevista publicada no jornal Valor Econômico:

“Os modelos econômicos são incapazes de explicar o comportamento de todos.”

Richard Thaler em entrevista para o Jornal Valor Econômico

Reconhecer essa máxima expressa por Thaler é reconhecer quão necessárias são determinadas simplificações, para a evolução do conhecimento científico. Isso não significa que nós pesquisadores e cientistas econômicos devemos nos conformar com o atual estágio do conhecimento científico. Não significa, muito menos, que devemos descartar tudo que já foi produzido pelo caminho percorrido até os dias atuais.

Não parece coerente o desejo de eliminar algo com objetivo de melhorá-lo. Essa não deve ser a nossa forma de pensar o conhecimento econômico. Tal como a espécie humana veio evoluindo, o Homo Economicus também precisa evoluir e não desaparecer. E assim no futuro, como espécie melhorada, mas ainda certamente imperfeita, talvez o Homo Economicus esteja mais próximo de representar o comportamento humano e descrevê-lo em novos modelos econômicos.

Pode ser ainda que mesmo evoluindo, descubramos que ainda assim não conseguiremos limitar o comportamento humano a equações ou fórmulas matemáticas. Nenhuma surpresa, no entanto, haverá de se mostrar quando este tipo de revelação acontecer. Estaríamos ainda, enquanto ciência social aplicada, a produzir bons resultados, melhorar a navegabilidade das pessoas pelas decisões complexas que têm a tomar e pelo contexto em que estão inseridos.

Estaríamos ainda firmes e cientes de nossa caminhada lenta, mas obstinada pelo conhecimento, reconhecendo e tendo mapeado todo caminho percorrido, exaltando as estradas edificadas, os edifícios do saber e seus arquitetos do passado. E veríamos toda essa trajetória e seus atores, não como vilões e serem executados em praça pública, mas sim como verdadeiros heróis. Heróis a vencer obstinadamente cada obstáculo, cada passo titubeante, cada limitação imposta pelo próprio conhecimento e ferramental disponível à sua época.

E finalmente lá em algum lugar no futuro, encontraremos esse mesmo Homo Economicus. Estaremos certamente surpresos com sua evolução, no entanto, e se tudo tiver dado certo para a humanidade, ainda reconheceremos o Homo Economicus como um ser simples e ainda limitado diante de toda complexidade e beleza racionalmente limitada do Ser Humano.