O viés da confirmação ou em inglês, confirmation bias, é um dos vieses cognitivos que pode levar pessoas a sofrer com extrema miopia em determinadas situações ou quando coletam informações para a tomada de decisões. Neste post vamos detalhar um pouco mais o conceito e explicar por que o viés da confirmação é importante até mesmo para explicar a polarização política e casos recentes como Brexit e a eleição de Donald Trump nos EUA.

CONTEXTUALIZANDO COM UM EXEMPLO

Vou começar por aqui contanto uma história para contextualizar e facilitar o entendimento. Quem está acompanhando o noticiário deve ter se deparado com a declaração do Presidente Jair Bolsonaro a respeito de seu desejo em nomear o filho Eduardo Bolsonaro para embaixador nos EUA.

O desejo gerou várias críticas da imprensa e comentários a respeito de sua legalidade. A despeito de ser ou não considerado ilegal, é interessante perceber como o Presidente e próprio Eduardo Bolsonaro se posicionaram a respeito das qualificações necessárias para o cargo, de forma a justificar a pretensa escolha.

O Presidente Jair Bolsonaro disse:

“Ele é amigo dos filhos do Trump, fala inglês e espanhol, tem vivência muito grande de mundo”.

Jair Bolsonaro - Presidente do Brasil

Já o filho Eduardo Bolsonaro disse:

“Não sou um filho de deputado que está do nada vindo a ser alçado a essa condição. (…) Sou presidente da Comissão de Relações Exteriores, tenho uma vivência pelo mundo, já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos, no frio do Maine, Estado que faz divisa com o Canadá, no frio do Colorado, em uma montanha lá. Aprimorei o meu inglês, vi como é o trato receptivo do norte-americano para com os brasileiros”.

Eduardo Bolsonaro - Deputado Federal por SP

Notem que em ambas as declarações, argumentos foram colocamos para mostrar e para reafirmar que, sendo indicado pelo Presidente, Eduardo Bolsonaro tem as devidas qualificações para assumir o cargo. Em nenhum momento a questão da legalidade ou mesmo o detalhamento das competências necessárias para um embaixador foram expostas.

Vale ainda destacar que nem de longe, fazer intercâmbio e fritar hamburguer são qualificações coerentes com o cargo de embaixador. Isto vale também para a referência de Eduardo ser amigo dos filhos do Presidente Donald Trump.

O VIÉS DA CONFIRMAÇÃO

Em Economia Comportamental ou Ciências Comportamentais, o viés da confirmação aparece em diversos estudos e experimentos. Wason (1960) mostra que:

Consiste em uma disposição para tentar falsificar hipóteses e, assim, testar as ideias intuitivas que tantas vezes carregam o sentimento de certeza. A prontidão (em oposição à capacidade) de pensar e argumentar racionalmente em uma área de conhecimento não sistematizada está presumivelmente relacionada a outros fatores além da inteligência, na medida em que implica uma disposição para refutar, em vez de reivindicar afirmações, e tolerar a desencanto de instâncias negativas.

Wason, 1960

Analisando o método utilizado para investigar como pessoas tomam decisões de maneira diferente da forma como é feito em pesquisas científicas, Wason reafirma que inferências científicas baseiam-se no princípio da eliminação de hipóteses, aceitando provisoriamente apenas aquelas que permanecem.

Mas em seu experimento Wason encontrou um padrão de comportamento em que pessoas se ocupavam em produzir inferências para confirmação dos dados. Isso particularmente pode levar a erros e produz certamente conhecimento limitado a respeito de determinando evento, pois hipóteses diferentes podem confirmar um mesmo fato ou evidência.

Para resumir, em geral procuramos por justificativas ou informações que sustentam nossas próprias hipóteses sobre algo. Isso acontece devido à forte influência de nossas crenças, formadas a partir de inúmeras causas. Nossa necessidade de conformação social, pertencimento a grupos, certamente são causas desse tipo de comportamento. Temos ainda a considerar, nosso próprio repertório formado a partir de nossas experiências, vivências e cultura.

O que muitos estudos têm mostrado, é que em geral procuramos apenas aquelas informações que reforçam nossos pontos de vista prévios. Essas informações, verdadeiras ou não, enviesadas ou parciais, servem para explicar algo, argumentar ou nos posicionar sobre algum assunto e na grande maioria reafirmam ideias pré-concebidas.

POLARIZAÇÃO E VIÉS DA CONFIRMAÇÃO

Outro exemplo onde podemos verificar o viés da confirmação em ação é analisando a votação para o Brexit e a eleição de Trump para Presidente dos EUA. Com uso de informações coletadas pela empresa Cambridge Analytica, campanhas em redes sociais, muitas vezes com uso de fake News, polarizaram opiniões e fizeram com que pessoas desapressassem opiniões contrárias aos seus pontos de vista.

O viés agiu aqui, aumentando a polarização e isolando pessoas que passaram a ser expostas apenas a informações que confirmavam suas crenças políticas. Esse isolamento foi ainda mais perverso, na medida em que notícias falsas convertiam pessoas moderadas para o extremo.

Vitimas da confirmação com informações falsas, essas pessoas agora polarizadas, terminaram por receber uma enxurrada de notícias e todo tipo de informação enviesada, falsa ou polarizada. No caso da eleição de Trump, onde a ideia foi de resgatar a América com seu slogan Make America Great Again. Já para o Reino Unido, o foco se concentrou no Brexit, onde se apelou para “retomar o controle do país” cedido para a União Europeia que, segundo fake news amplamente propagadas: nada havia feito até então em benefício do país.

Claros posicionamentos incorretos ou parcialmente corretos, onde prevaleceram hipóteses confirmadas por uma causa, dentre milhares possíveis, sem nem sequer um único pressuposto contrário. E o que é ainda pior, muitas vezes hipóteses confirmadas com base em causas falsas sustentadas por Fake News.

Em suma, um verdadeiro desastre onde a racionalidade limitada foi explorada para estabelecer vantagens indevidas e reforçar posicionamentos extremistas e preconceituosos. O resultado será pago por todos. Num mundo cada vez mais conectado todos iremos arcar com os custos do uso indevido do conhecimento sobre comportamento. Apesar de não ser possível afirmar, pode ser que o Brexit e a eleição de Trump nos EUA já tenha até mesmo influenciado as eleições e a atual divisão do Brasil entre esquerda e direita.

A ver!

PS.: Compartilhei nas redes sociais do Geekonomics um TED da jornalista Carole Cadwalladr que mostra de forma muito clara o efeito do viés da confirmação no caso do Brexit. Vale a pena assistir!

Até o próximo post pessoal!

Fontes

https://www.psychologytoday.com/us/blog/science-choice/201504/what-is-confirmation-bias

https://www.behavioraleconomics.com/resources/mini-encyclopedia-of-be/confirmation-bias/

Wason, P. C. (1960). On the failure to eliminate hypotheses in a conceptual task. Quarterly Journal of Experimental Psychology, 12(3), 129-140.