Enquadrar problemas é por onde sempre devemos iniciar nossa busca pela solução de algo.

Algo te preocupa? Algum problema ainda sem solução ou com soluções que não funcionam? Um conceito estudado pela Economia Comportamental por ajudar! Comece por enquadrar corretamente o problema. Nós mostramos como, neste post.

Estudando um pouco da pesquisa de Esther Duflo, não por acaso Nobel de Economia em 2019, uma questão me veio à cabeça: muito mais do que qualquer outra variável, a forma como enquadramos ou percebemos os grandes desafios atuais do desenvolvimento econômico é sem dúvida uma das mais importantes.

Em Economia Comportamental o viés de enquadramento de informação ou framing é muito estudado. Uma definição simplificada de enquadramento pode ser:

ENQUADRAMENTO (FRAMING EFFECT)

O efeito Enquadramento é o princípio de que nossas escolhas (decisões) são influenciadas pela ênfase dada à forma como situações são apresentadas ou comunicadas a nós ou por nós.

Um clássico exemplo é a história dos copos meio cheio ou meio vazio. Podemos dar ênfase pessimista, ou seja, avaliar o copo como estando meio vazio ou dar uma ênfase otimista, apresentando o copo como estando meio cheio.

As vezes solucionar problemas pode ser mais uma questão de ênfase e perspectiva do que qualquer outra coisa. Dinheiro, criatividade, mobilização, esforço, tempo são apenas algumas variáveis inquestionavelmente importantes na solução de grandes problemas como a fome, a pobreza, doenças e muitos outros.

Mas será que de posse de todos esses recursos (dinheiro, tempo…) conseguiríamos solucionar todos os problemas mais graves nos dias de hoje?

Me parece que uma variável importante está fora dessa lista de recursos necessários ao sucesso na solução de problemas: a forma como o enquadramos. Avaliando o já batido exemplo dos copos, podemos pensar que se trata de algo simples. Afinal de contas o enquadramento é apenas uma forma de enxergar a situação.

É num entanto um erro pensar dessa forma. Isso porque, para a ciência não basta apenas que pensemos em diferentes formas de enquadrar um problema. Em ciências é imperativo que este enquadramento ao qual me refiro, seja comprovado com evidências. Em geral tais evidências podem ser comprovadas analisando dados do mundo real ou de experimentos randomizados e controlados.

Trata-se resumidamente de avaliar objetivamente a relação de causa e consequência presente em eventos ou situações a serem pesquisadas. Se por exemplo penso no desempenho escolar determinada população, devo avaliar quais as variáveis podem estar determinando tal desempenho.

Nada melhor para explicar que um exemplo, rsrs.

No quadro da imagem abaixo, vemos a típica representação de uma batalha naval durante a Guerra dos Sete Anos (1756-63).

enquadrar problemas - economia comportamental

A Batalha da Baía de Quiberon , Nicholas Pocock , 1812. Museu Marítimo Nacional

Pensando no contexto de uma guerra, batalhas navais são altamente perigosas certo? Afinal de contas quem não se lembra de algum filme que mostre canhões bombardeando embarcações levando vários marinheiros à morte?

Uma pessoa bem-intencionada em dar mais segurança aos marinheiros de navios de guerra no século XVII, poderia propor equipamentos de segurança aos marinheiros como capacetes, coletes, ou mesmo proteção e blindagem adicional para nos navios. Isso sem dúvida reduzia os riscos de morte e deixaria por óbvio os navios mais seguros.

Muitas vezes em políticas econômicas somos tentados a proteger fisicamente os marinheiros, a blindar os navios para reforçar a segurança. Mas é importante, dentro da perspectiva de que os recursos são escassos, avaliar melhor essa situação.

Se eu dissesse àqueles que desejam reforçar os navios e entregar equipamentos de segurança que na verdade o maior causador de mortes na Guerra dos Sete Anos fora não os canhões, mas o escorbuto?

Felizmente como se pode ver na imagem acima, segundo o Google, o escorbuto nos dias de hoje é raro. Na época da Guerra dos Sete Anos, não era nada raro, pelo contrário era extremante comum.

Fato evidenciado por historiadores e dados da marinha inglesa dão conta que na Guerra dos Sete Anos:

enquadrar problemas - citacao economia comportamental-2

Perceberam a importância de enquadrar corretamente o problema?

Não por acaso a pesquisa premiada pelo Nobel de Economia de 2019 com destaque para os pesquisadores Michael Kremer, Abhijit Banerjee, Esther Duflo, traz a pesquisa experimental em economia como um dos maiores trunfos do conhecimento moderno.

Utilizando de experimentos randomizados e controlados, estes pesquisadores passaram a enquadrar corretamente problemas ainda na zona cinzenta da Ciência Econômica. Afinal de contas podemos pensar que o problema da pobreza resolvemos dando dinheiro para as pessoas. Ou que o problema do desempenho escolar, se resolve com mais escolas e professores.

A pesquisas enquadram o problema de forma diferente. Pobreza nem sempre é problema apenas de falta de dinheiro. Da mesma forma baixo desempenho escolar, nem sempre é por falta de escolas.

O que temos visto durante muito tempo é que não raro os remédios dados para solucionar os problemas de desenvolvimento econômico tem sido pouco eficaz, senão completamente ineficazes. Muitos recursos (tempo, dinheiro…) têm sido empregados para entregar pequenos resultados, apenas porque o problema fora enquadrado da forma errada.

Melhorar as políticas assistências e buscar resolver o problema do desenvolvimento econômico? Podemos iniciar qualificando corretamente a forma como vamos enquadrar o problema.

Afinal de contas de que adianta todo o resto?

Se as notas na escola são ruins porque os alunos são malnutridos, de que adianta melhorar o material didático?

Para finalizar deixo abaixo o TED da Esther Duflo, sem dúvidas merecedora inconteste do Nobel Prize in Economic Science, por aplicar o método experimental para enquadrar verdadeiramente os problemas da sociedade e do desenvolvimento econômico.

Até o próximo post

 

TED ESTHER DUFLO