O Relatório Focus é sem dúvida um dos informes sobre a economia brasileira mais comentados e divulgados do Brasil. Ele serve como uma espécie de medidor das expectativas sobre os principais indicadores da economia.

O Relatório Focus é nada mais do que uma simples pesquisa, mas traz previsões das principais instituições financeiras sobre suas expectativas para indicadores como SELIC, inflação (IPCA), câmbio e alguns outros.

Toda semana sempre às segundas, o Banco Central do Brasil publica a atualização da pesquisa num relatório onde podemos ver o quais as médias das expectativas que os principais players do mercado financeiro estão formando sobre a economia brasileira. Prever o futuro, ou em linguagem mais técnica, definir as expectativas para o futuro, não é simples.

Apesar de todo misticismo a respeito de técnicas, cálculos e metodologias, estimar o resultado de qualquer coisa no futuro é quase sempre um exercício contaminado por vieses e com elevado grau de aleatoriedade. Já comentamos no PodCast sobre esses vieses no Relatório Focus e hoje resolvi expandir um pouco mais essa discussão.

O Relatório Focus, já seria um exercício complexo e cheio de vieses se apenas fosse uma pesquisa sobre as expectativas. Mas o Banco Central fez questão de criar uma metodologia que acabou por ampliar os vieses do relatório.

Acontece que juntamente com o Relatório Focus, o Banco Central publica outro relatório onde traz a mediana das Instituições TOP 5. Você deve estar pensando o que isso quer dizer, não é mesmo? Eu conto!

O relatório de expectativas das TOP 5 concentra a média dos resultados das cinco melhores instituições no Relatório Focus. Agora vem o melhor. O critério para definir quais são as Top 5 é o índice de acerto das previsões. No próprio site do Banco Central do Brasil eles definem o relatório como:

Para incentivar o aprimoramento da capacidade preditiva dos participantes da pesquisa e reconhecer seu esforço analítico, o BC elabora o ranking Top 5, sistema de classificação das instituições baseado no índice de acerto de suas projeções de curto, médio e longo prazo. As medianas das variáveis projetadas pelas cinco instituições que mais acertam (as Top 5) são divulgadas no Focus – Relatório de Mercado.

MAS QUAL O PROBLEMA DO RELATÓRIO FOCUS?

Além de exercer a tarefa quase impossível de se prever o futuro, o Banco Central age de forma a estimular o comportamento enviesado das instituições. Premiar o índice de acerto em grupos com interesses conflitantes pode ser perigoso. Isso porque, a premiação ao contrário de incentivar a competência, pode acabar estimulando e amplificando o medo de errar.

Nesse contexto instituições podem agir de forma não ótima, formando suas expectativas mais em função da estimativa de outras instituições do que em função de suas próprias estimativas. Mas por que isso acontece?

Com medo de arriscar ficar distante demais das previsões corretas, os agentes tendem a adotar um comportamento semelhante àqueles verificados em contextos onde Prova Social está claramente influenciando a tomada de decisões das pessoas.

Acontece que o ser humano quer pertencer. É difícil e o custo cognitivo é grande demais não pertencer a um grupo. Imaginem se uma instituição erra muito em suas previsões? Imagine o trabalho que dará justificar aos seus investidores o motivo?

Quanto será gasto para explicar o motivo de tamanha discrepância nas previsões quando comparada com as previsões das demais instituições?

COMPORTAMENTO DE PROVA SOCIAL NO RELATÓRIO FOCUS

Esta semana ao receber o Relatório Focus resolvi fazer algo que não fazia faz tempo: dei atenção para ele rsrsrs.

Abri o relatório analisei as expectativas e fui além! Resolvi abrir também o relatório com a distribuição de frequências. Esse outro relatório traz as informações sobre as projeções constantes no Relatório Focus agrupadas por estimativa e instituição. Assim mostra a quantidade de instituições que apostaram em cada valor para cada uma das variáveis constantes no Relatório Focus.

O que encontrei foi surpreendente.

relatorio focus - surpresa

Nas projeções do IPCA por exemplo, há claramente uma convergência das expectativas entre todas as instituições. Essa convergência se acentua quão mais distante é a previsão. É compreensível, afinal de contas, quando mais distante de hoje, mais difícil é prever uma determinada variável no futuro (ou impossível né 😅).

Então quando mais difícil (mais distante no tempo) se torna a projeção, mais as instituições caminham para a conformidade social. Quando mais distante no tempo as previsões, mais semelhantes são as previsões das instituições financeiras.

Eis aqui uma boa teoria sobre o medo de errar das instituições financeiras e os vieses que contaminam o Relatório Focus.

Nas previsões mais de curto prazo, dentro do mesmo ano por exemplo, é nítido a segurança das instituições em assumir suas próprias previsões, mesmo que menos semelhantes às demais. Nesse tempo de previsão, os valores são menos convergentes. Mas anda assim há movimento parecido com o de manada quando vemos a mudança nas previsões. Isso pode ser visto pela largura reduzida das curvas de frequência.

A segurança na previsão de curto prazo pode indicar também outro viés. Mais do que segurança, as previsões de curto prazo podem estar contaminadas com uma boa dose de excesso de confiança, arrogância e das heurísticas da confirmação e da disponibilidade.

VIESES COMUNS AO RELATÓRIO FOCUS E PREVISÕES FINANCEIRAS:

Excesso de confiança: superconfiança, ou seja, apresentar mais confiança do que seria realista em uma situação.

Arrogância: qualidade ou caráter de quem, por suposta superioridade moral, social, intelectual ou de comportamento, assume atitude prepotente ou de desprezo com relação aos outros; orgulho ostensivo, altivez.

Heurística da confirmação: temos a tendência de buscar, mas frequentemente, informações que confirmem nossas hipóteses e ignorar informações que as contradigam.

Heurística da disponibilidade: avaliamos a frequência ou probabilidade a da ocorrência de um evento, por quão intensa está disponível em nossa memória, eventos semelhantes ao que estamos avaliando.

Ou seja, no curto prazo o medo de errar tende a ser menor, pois o curto prazo em tese é um ambiente onde as instituições têm mais controle e mais informações de qualidade, afinal estamos falando praticamente do presente.

No presente, falando de média, é relativamente simples chutar quando será o IPCA. Afinal de contas já se passou o ano quase todo. Então chutar o IPCA de 2019 em dezembro do mesmo ano é bem mais fácil do que chutar o mesmo IPCA com um ano de antecedência.

É simples perceber a facilidade de chutar quando estamos num horizonte de curtíssimo prazo. Se em novembro o IPCA está, por exemplo, em 1% acumulado no ano, é fácil prever que o índice vai fechar o ano entre, 0,9% ou 1,1. Ou ainda 0,8% ou 1,2%. Afinal, estamos falando de média né? Mesmo que o IPCA varie bastante em dezembro, dificilmente terá peso suficiente para sozinho impactar a média.

Vamos ver as distribuições de frequência para as previsões do IPCA? Separei os quatro gráficos com as distribuições de frequência referentes aos anos de 2019 até 2022.

QUATRO GRÁFICOS DO RELATÓRIO FOCUS ANALISADOS

1 – Quando mais no curto prazo, maior a dispersão das projeções. Aqui o medo de errar é menor do que a arrogância e vieses dos gestores. Então eles arriscam, mais contaminados que estão pelos seus próprios vieses e crenças.

relatorio focus ipca 2019

Fonte: Banco Central do Brasil

2 – Já para o ano seguinte (2020), as curvas se “afinam” mostrando que as instituições passaram a convergir em suas previsões. Entra em cena o medo, a necessidade de conformidade e a Prova Social. Nenhuma instituição quer correr riscos de ficar distante demais das outras. Isso dá ainda certo conforto psicológico né. Quando próximo umas das outras, mais chances de estar bem perto de uma instituição TOP 5. E assim quando seu cliente reclamar de suas previsões equivocadas, um argumento já está pronto: Mas até as TOP 5 achavam isso! Desculpe, não foi erro, apenas um desvio por culpa de algo externo e não por nossa culpa!

relatorio focus 2020

Fonte: Banco Central do Brasil

3Para 2021, praticamente não se tem diferença entre as projeções. Que maravilha! Tudo certo, todos concordam, todos fazem os mesmos cálculos, parece até mesmo que todos são quase uma única empresa tamanha a semelhança de suas previsões. As curvas de previsão tiverem sua largura estreitada. Mesmo com dois picos na curva de frequência a semelhança é bastante significativa. Isso pode ser explicado por haver dois grupos distintos de instituições, mesmo assim muito próximos em termos de previsões.

relatorio focus 2021

Fonte: Banco Central do Brasil

4 – 2022 traz o mesmo comportamento do que para as previsões de 2021 com destaque para separação ainda mais nítida em dois grupos (dois picos), mas ainda próximos em termos de projeção numérica.

relatorio focus 2022

Fonte: Banco Central do Brasil

Depois dessa maratona sobre o Relatório Focus fica a dica de que ele serve bastante como informação. Mas é sempre bom lembrar que as previsões não são verdades, são chutes. Estes chutes por vezes podem nos levar a tomar decisões equivocadas se nos basearmos exclusivamente nas informações do Relatório Focus.

Sobre prever o futuro, vale ainda lembrar que até ontem esse tipo de atividade era ofício de tarólogos, magos e todo tipo de atividade mística. Nem de longe prever o futuro pode ser considerado ciência e se algum dia alguém vier com esse papo corra!

Prever o futuro e criar expectativas, na melhor das hipóteses pode ser chamado de aposta!

Até o próximo post pessoal.

 

LINKS

Relatório Focus – https://www.bcb.gov.br/publicacoes/focus

Relatórios com Instituições TOP 5 – https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/focustop5ranking

Relatório com distribuições de frequência das previsões do Relatório Focus – https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/focusdistribuicoesfrequencia