Economia Comportamental

Coronavírus: Economia Comportamental pode ajudar

Antes de mais nada e para evitar pânico, vale a reflexão de que a letalidade do Coronavírus até o presente momento é de 3,4% concentrada em pessoas pertencentes a grupos de risco específicos como: idosos acima de 60 anos, pessoas com problemas respiratórios (asma, bronquite etc.) e crianças.

Sobre a epidemia, ela é sim muito grave e merece toda atenção e reforço de cuidado na adoção dos protocolos como preconizados pela OMS. Os protocolos são, em tese, de simples implementação, mas vale destacar o desafio comportamental a ser superado quando do seu planejamento.

Lavar as mãos, evitar lugares fechados, usar máscara caso esteja apresentando tosse, coriza ou febre, que são as principais precauções para evitar a contaminação. Ações simples, mas que a proliferação do vírus pelo mundo mostra como podem estar sendo ignoradas pelas pessoas.

Coronavírus: a Economia Comportamental pode ajudar.

Fazer com que as pessoas se engajem em determinados comportamentos é uma das áreas onde a Economia Comportamental pode ajudar no combate ao Coronavírus.

Avaliar o contexto e criar pequenos empurrões para que as pessoas sejam estimuladas a adotar as medidas simples como: lavagem das mãos e uso de álcool gel, certamente contribuirão muito para contenção da expansão da doença.

Nudges em particular podem ajudar. Já mencionei aqui algumas pesquisas, inclusive meu próprio tema de TCC do MBA de Economia Comportamental, onde propusemos Nudges para engajar profissionais de saúde e pacientes a lavarem suas mãos e assim contribuírem para redução de infecções em unidades de saúde.

Aqui a receita é proposta pelo próprio Richard Thaler que em seu livro Nudge teve a perspicácia de dizer:

“Se você deseja que as pessoas engajem em determinado comportamento, faça com que seja simples.”

O Behavioural Insights Team, uma das principais Nudge Units do mundo, publicou que está trabalhando com mensagens de texto e se disponibilizou a compartilhar seus achados comportamentais ajudando na efetividade das ações com Ciência Comportamental aplicada.

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A importância de avaliar normas, costumes e expectativas sociais

Tão importante quando trabalhar a informação e contexto com adoção de Nudges, é pensar em como as redes de referência (referencial networks) podem ajudar a alcançar melhores resultados.

Isso porque outro hiato ou barreira que impede a adoção de comportamentos são costumes, pressão social e expectativas que temos a respeito dos comportamentos dos outros e nosso desejo de coordenação e conformidade (engajamento e aceitação) com ou eles.

Entendendo o que é rede de referência

Já comentei em diversos posts aqui que nós humanos quando temos dúvida ou não sabemos como nos comportar ou como decidir sobre algo, olhamos para os outros e tendemos a seguir a maioria. Isso porque pertencemos e desejamos nos coordenar com nossa rede de referência.

Há casos ainda em que preferimos seguir com a maioria porque errar em conjunto é psicologicamente mais confortável. Tendemos a evitar discordâncias e por vezes preferimos arriscar errar em conjunto do que arriscar acertar sozinho.

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Nesse processo a rede de referência (reference network) tem um papel crucial em nossas decisões e comportamentos. Por rede de referência entenda:

“Uma rede de referência é um conjunto de indivíduos que são importantes para mim quando tenho que tomar uma decisão específica.” (Bichieri, 2006)

Entenderam a importância da rede de referência?

Caso não seja avaliada a forma de mover a rede para engajamento no novo comportamento desejado, como por exemplo: adotar medidas de prevenção ao Coronavírus, intervenções com Nudges tendem a não funcionar ou a apresentar resultados insatisfatórios.

É sempre bom reforçar que o contexto é que importa. Nesse ponto devemos expandir a definição de contexto, considerando como um dos pontos centrais a rede de referência onde as intervenções serão realizadas.

Quem não leu nos últimos anos notícias que revelam grupos que se recusam a vacinar seus filhos a si próprios? Um exemplo de rede de referência com comportamento interdependente e coletivo, que se estrutura como barreira a evolução de iniciativas de saúde pública.

Sem dúvidas, a rede de referência aumenta muito a complexidade de adoção de intervenções comportamentais, porque estas redes são muito complexas, diversas e não apresentam padrões facilmente decodificáveis de comportamento.

Mesmo ações como a do Behavioural Insighs Team que se dispôs a compartilhar seus resultados com aplicação de ciência comportamental em mensagens de texto, devem ser realinhados levando em consideração o contexto onde serão aplicados.

Intervenções que funcionam no Reino Unido podem não surtir nenhum efeito aqui no Brasil. Pensar na definição de contexto expandindo seu entendimento como sendo resultado também da ação da rede de referência é indispensável para obter sucesso ao replicar intervenções comportamentais.

Mudar comportamento não é simples!

Saber disso é importante para evitar que políticas públicas de combate ao Coronavírus ou quaisquer intervenções que objetivem mudança de comportamento, não sejam conduzidas apenas para conforto psicológico dos responsáveis pela sua condução.

Nesse contexto as Ciências Comportamentais podem ajudar.

Pense nisso e pense também em sempre ter um Economista Comportamental na sua equipe de projeto quando o objetivo deste seja a mudança de comportamento das pessoas.

 

About the author

Anderson Mattozinhos

Anderson Mattozinhos

Economista, bookaholic, tecnófilo e jogador inveterado de videogames.

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