Economia Comportamental

Aversão ao arrependimento, pizza e delivery

aversao arrependimento - capa 4

Refletindo sobre como tenho me comportado ao pedir comida pelo delivery, percebi que há relação direta entre meu comportamento e a aversão ao arrependimento.

Gostamos de pensar que somos inteligentes, espertos e cultos. A Ciência Comportamental tem uma ideia diferente. Não que não sejamos inteligentes ou espertos, mas é que por vezes superestimamos nossa inteligência.

Pesquisas sobre tomada de decisão e escolhas, mostram que, diferente do que pensamos, tomamos decisões não de maneira perfeitamente racional.

Isso aliás é interessante.  Às vezes acabamos por criar narrativas que nos fazem pensar que agimos de forma perfeitamente racional, mas não se engane, é exatamente o contrário!

No geekonomics, lá no site, tenho mais trezentos posts onde mostro algumas situações onde agimos de forma muito diferente dessa racionalidade que acreditamos ter.

Eu mesmo, falho sistematicamente na hora de tomar decisões. Mesmo estudando e lendo sobre o assunto, sempre me pego errando vergonhosamente em decisões das mais simples às mais complexas em meu dia a dia.

É interessante que nosso comportamento seja assim. Uma vez, não lembro bem ao certo onde, ouvi que o problema com nossa tomada de decisões é que elas são tomadas, na grande maioria das vezes (estimam que em 95% das vezes), de maneira emocional e não racional.

aversao arrependimento - emocional

É simples comprovar como somos pessoas predominantemente emocionais. Quem nunca se emocionou às lágrimas ao assistir a um filme ou ler um livro?

Sabemos que é tudo ficção, sabemos que as pessoas não sofreram os males que estamos assistindo. Sabemos, mas mesmo assim não conseguimos deixar de nos emocionar.

Vários professores que tive, me disseram que não conseguimos desligar nossas emoções. Essa é inclusive uma das bases do estudo neuro científico aplicado à tomada de decisões, que alguns nomeiam no campo da economia como neuroeconomia.

Se não nos é possível desligar as emoções, a racionalidade calculista, objetiva e pragmática é ilusória em pelo menos 95% das decisões que tomamos. Tenso né?

É verdade que somos emocionais e que por vezes falhamos sistematicamente ao tomar nossas decisões. Antes de dar meu exemplo pessoal, vale dizer que isso pode não ser o fim do mundo.

Afinal de contas, é exatamente essa característica que diferencia ao extremo os humanos de outros seres no universo. Temos uma capacidade infinita e nata à empatia, às narrativas e isso teve um papel crucial para vencermos enquanto espécie.

Podemos Sem toda essa “irracionalidade”, sem toda essa empatia e emoção, me arrisco a dizer que o homo sapiens não teria conseguido se firmar enquanto espécie. Como conviver em sociedade sem essa empatia? Como criar um senso coletivo de moral, justiça e todo resto sem essa capacidade de nos conectar com as histórias contadas, escritas ou assistidas na tela?

Já está bem estabelecido pelas Ciências Comportamentais que apresentamos um tipo de comportamento que foi nomeado de aversão ao arrependimento.

Esse tipo de comportamento ou viés comportamental acontece por sermos sistematicamente tomados de emoção ao decidir. Ao contrário de pensar em todos os resultados e calcular as probabilidades matemáticas que envolvem cada decisão nossa, usamos atalhos.

Acontece que esses atalhos, exatamente por serem atalhos, nos levam a decisões rápidas. Estas, no entanto, acabam por conter elevadas doses emocionais aumentando as chances de decidirmos por impulso ou sem pensar direito no assunto.

Por elevada dose emocional, você pode entender como acontece quando:

– ouvimos uma música e temos vontade de ir fazer exercícios;

– assistimos um filme e choramos;

– compramos sem ter dinheiro para pagar (cartões de crédito);

– lemos uma frase impactante e alteramos nosso comportamento moral;

– somos guiados por aquilo que os outros fazem, mesmo quando discordamos.

Se você se reconheceu em algumas dessas situações… fique tranquilo, você é normal!

Nas Ciências comportamentais, um dos comportamentos já amplamente documentados em pesquisas é a aversão ao arrependimento.

Ao contrário do que pensamos, em geral não calculamos a probabilidades, nem consideramos todos os possíveis resultados ao tomarmos nossas decisões no dia a dia.

Aversão ao Arrependimento: um exemplo pessoal recente

Recentemente me peguei pensando sobre como decido sistematicamente errado ao pedir comida pelo delivery. Sempre acabo pedindo muito mais do que consigo comer e acabo comendo aquela pizza no dia seguinte de café da manhã.

Comer pizza no café da manhã é um péssimo hábito alimentar. E não consigo mudar isso. Sempre que tem pizza do dia anterior eu acabo comendo no café.

Mas porque eu sempre acabo pedindo muito mais comida do que sou capaz de comer?

aversao arrependimento - pizza-boxes

Ao fazer pedido em geral estou com fome e isso por si só já é uma péssima forma de pensar sobre o que comer. Ao acessar o aplicativo de delivery, com fome, acabo ficando com medo de que uma pizza apenas não dê conta de sanar minha fome por completo.

Penso que se uma pizza não matar minha fome, vou acabar tendo que fazer outro pedido. Nada demais, pedir de novo, você deve pensar. Mas eu penso que pedir outra pizza pode ser doloroso demais.

Estando com fome, imaginar duas esperas pela entrega, parece algo próximo à tortura para mim. Tenho medo de me arrepender de não comprar logo duas pizzas. Tenho medo da pizzaria fechar, de dormir com fome, de esperar novamente pela entrega que demora uma eternidade.

Enfim eu tenho aversão ao arrependimento

Eu penso no pior resultado possível de não pedir duas pizzas e em como me sentiria por continuar com fome e ainda ter que esperar uma hora ou mais pela segunda pizza. Esse meu sentimento total somado é meu nível de arrependimento se essa minha decisão, de pedir apenas uma pizza, for a decisão que ainda irá me deixar com fome.

Eu tenho ainda o viés do presente. Eu quero a “recompensa” toda logo e de uma única vez! Não quero ter que esperar mais uma hora por uma segunda pizza. Eu estou com fome, quero comer até me fartar agora de uma só fez! Eu quero antecipar a recompensa de ter tomado a difícil decisão de escolher qual pizza dentre tantas disponíveis! (WTF)

Quero agora, entenderam?

Sendo assim eu acabo escolhendo sempre a opção que minimiza meu arrependimento. Eu acabo escolhendo sempre a opção que antecipa a recompensa. Eu acabo então pedindo duas pizzas!

No dia seguinte então…

Lá estou eu no dia seguinte à minha decisão de pedir duas pizzas para não me arrepender. Abro a geladeira e lá estão, uma pizza inteira mais um terço de outra pizza.

Confrontado então com decisão do que tomar de café da manhã… Acabo escolhendo comer pizza!

aversao arrependimento - pizza saude dieta

Você deve estar pensando que nessa hora eu paro, penso, reflito e acabo optando por comer uma fruta ou algo mais saudável, deixando a pizza para outro momento, quem sabe o almoço ou jantar, né?

Pois é! Já disse que somos emocionais e que sistematicamente tomamos decisões não ótimas. Nesse caso acabo criando a narrativa de que irei me arrepender se a pizza estragar. Afinal eu paguei e pedi por ela na noite anterior.

Penso ainda que com esse exemplo, essa foi a última vez que pedi duas pizzas e que essa situação servirá para eu aprender e evitar ter que comer pizza no café, porque quero ser mais saudável e comer direito.

Então o que acontece?

Eu como a pizza que sobrou no café, prometo a mim a mesmo que é a última vez que caio na armadilha da aversão ao arrependimento e sou influenciado pelo viés do presente.

Hoje inclusive estou pensando em comemorar essa decisão racional que tomei, com base no aprendizado que tive com os erros das minhas decisões passadas ao pedir comida pelo delivery.

Vou logo pedir duas pizzas aqui para comemorar, afinal estou com muita fome e em comemorações sempre acabamos comendo além de conta, não é mesmo?

Gente!

Acreditem, acabei de ganhar um cupom desconto com frete grátis. Vou logo comprar três pizzas para aproveitar!

Affff! Eu sou muito esperto mesmo!

About the author

Anderson Mattozinhos

Anderson Mattozinhos

Economista, bookaholic, tecnófilo e jogador inveterado de videogames.

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