Racionalidade econômica: o que é, e por que refutam? - Geekonomics
Economia Comportamental

Racionalidade econômica: o que é, e por que refutam?

racionalidade econômica

O conceito de racionalidade econômica não é algo difícil de compreender. Conceitualmente, agente racional é aquele cujas preferências são bem definidas. Isto é, o agente racional conhece suas preferências, sabe o que lhe causa prazer e sabe o que lhe causa dor.

O filósofo inglês Jeremy Bentham, citado pelo economista marginalista Jevons, exemplifica bem o raciocínio por trás desse conceito, ele diz o seguinte: A natureza pôs a humanidade sob governo de dois senhores soberanos, a dor e o prazer. Cabe apenas a eles indicarem o que deveríamos fazer. Ora, se a dor e o prazer são iguais para todos os seres humanos, quem, disposto de razão, preferiria a dor ao prazer?  Somente um louco, escolheria a dor e o sofrimento em detrimento do prazer e da satisfação.

Olhando por esse prisma, essa afirmativa está correta, na verdade é praticamente irrefutável a ideia de que somos todos “agentes racionais”. Entretanto, a crítica a racionalidade econômica, não está em sua conceituação, mas nos desdobramentos desta no decorrer do desenvolvimento da teoria econômica.

Ocorre que o conceito de racionalidade se explica através de outro conceito econômico muito conhecido, este é: a utilidade. De modo geral, a utilidade pode ser traduzida como satisfação e/ou prazer. De modo que, a utilidade (satisfação) é a prioridade de qualquer ser humano e pode ser obtida por meio de qualquer objeto que tenda a produzir benefício, vantagem, prazer ou felicidade; ou então, que possa evitar a ocorrência de dano, sofrimento, mal ou infelicidade. Ou seja, se a utilidade (satisfação/prazer) é a prioridade de qualquer indivíduo, nada mais justo do que dizer que buscaremos sempre pela otimização/maximização dessa satisfação (utilidade). Pronto, temos aí mais um conceito econômico ligado a racionalidade, este é: a maximização de nossos desejos/prazeres (utilidade).

Não é difícil compreender que o conceito de utilidade é algo muito subjetivo (afinal, como se mede o prazer?), mas ao longo do desenvolvimento da teoria econômica, a utilidade passou a ser objeto de estudo dos chamados economistas marginalistas, que buscavam através da “matematização” quantificar níveis ou graus de utilidade (satisfação/prazer), com intuído de definir qual seria o ponto ótimo ou a maximização dessa utilidade.

Deste modo, passou-se a classificar níveis de satisfação (utilidade), como se a satisfação (utilidade) de todos os indivíduos pudessem ser mapeadas e enquadradas nos mesmos moldes. Assim, criou-se padrões de comportamento e tudo que fugia destes “padrões” estabelecidos não poderia ser considerado racional.

Afinal, só é racional aquele que tem conhecimento perfeito de suas preferências, estando estas preferências conectadas intimamente com a maximização da satisfação/prazer (utilidade) que, por definição, pode ser quantificada (mais satisfeito/menos satisfeito) de forma padrão, isto é, todos os indivíduos buscam como primazia a maximização de sua satisfação (utilidade).

racionalidade econômica - utilidade

Esse pensamento, de uma forma geral, faz algum sentido e vou dar um exemplo do porquê. Utilizemos o dinheiro como exemplo, afinal esse é um “bem” desejado pela maioria de nós que, como agentes racionais, buscamos sempre pela sua maximização.  Ou seja, quanto mais dinheiro, melhor! Vejamos:

Se eu te perguntar se você prefere ganhar 1 real ou perder 1 real, qual seria sua resposta?

Agora, e se eu te perguntasse se você prefere ganhar 1 milhão ou perder 1 milhão de reais?

Muito provavelmente você deve ter respondido que prefere ganhar, tanto 1 real quanto 1 milhão de reais, afinal quem em sã consciência preferiria perder? Quem disposto de razão buscaria a dor em detrimento do prazer? Qual o indivíduo que não busca pela maximização de sua riqueza?

Bingo!!! Somos mesmo todos agentes racionais! O conceito de racionalidade, realmente faz todo sentido.

Será?

Vejamos, essa outra situação.

Se eu te perguntar se você alguma vez já deu esmola, dinheiro no semáforo ou na rua para alguém, o que você responderia?

Muito provavelmente se você tiver mais de 20 anos, me responderá que sim, já deu dinheiro para alguém. Alerta!!!! Você não é tão racional assim. Afinal, dinheiro é um bem que você sempre deseja, você busca sempre pela maximização de sua riqueza, e dar dinheiro para alguém que não te dará nada em troca, não é um comportamento racional.

Bom, ai você pode me dizer: “Ok, mas esse exemplo é muito extremo, um real é quase nada, mas um milhão eu não daria para ninguém”. Sim, você esta correto. Você, eu e a grande maioria dos que estão lendo esse texto,  não daria 1 milhão de reais porque não possuímos essa riqueza, ou seja, o dinheiro para nós é algo escasso, mas ambos conhecemos pessoas que já doaram um milhões e até mais e isso segundo a teoria econômica da racionalidade não pode ser classificado como um comportamento racional.

Bill Gates, através de sua fundação Fundação Bill & Melinda Gates doou cerca de 60 milhões de dólares esse ano para pesquisa contra o Covid-19, e todos temos que concordar que um homem que fundou um dos impérios mais bem sucedidos do nosso tempo não pode ser considerado louco, mas também não pode ser considerado um agente racional nos moldes da teoria econômica. Haja vista que pesquisa na área de saúde não é o foco da Microsoft.  Dai surge a pergunta: “o conceito de racionalidade econômica, realmente explica o comportamento humano em todas as suas dimensões?”. Para muitos economistas, alguns ganhadores de prêmio Nobel em economia e muito conhecidos dos pesquisadores comportamentais, a resposta é NÃO.

O que acontece é que o racional proposto pela economia é um conceito muito diminuto, restrito, “matematizado” e que pouco explica o comportamento humano diante de situações e decisões econômicas da vida real. Porque na vida real, dependendo da situação em que nos encontramos tomados decisões muito diferentes – eis uma das principais críticas da chamada economia comportamental à economia “tradicional”.

Para os conhecedores de economia comportamental, esse tema não é nada novo, os leitores atentos de Kahneman, Tversky, Thaler, Ariely e tantos outros economistas comportamentais, já estão familiarizados com os motivos da incoerência entre o pensamento econômico tradicional e a realidade do comportamento humano. Mas muitos dos que estão lendo podem não ter essa familiaridade e ainda questionarem, “mas por que tanta atenção a esse assunto; por que tanto debate sobre ser racional ou não?”.

racionalidade econômica - ariely kahneman tversky

Acontece, que os pressupostos desenvolvidos a partir do conceito de racionalidade econômica, se estendeu para todas as áreas da economia; empresas, instituições financeiras e até mesmo o governo, planejam e desenvolvem produtos e serviços baseados na ideia de que todos somos racionais e isso gera um grande descompasso entre o que é planejado e o efeito real de tais ações. Nesse sentido, um debate mais aprofundado sobre o que seria o real comportamento do individuo passou a ser uma peça chave na atualidade.

A compreensão de que não somos “tão racionais assim” e de que  possuímos vieses psicológicos no ajuda a compreender melhor as decisões tomadas no âmbito econômico no que se refere a consumo, finanças, negócios, etc. Assim, a abordagem comportamental tem sido foco de muitos estudos acadêmicos e também de ações dentro de muitas instituições.

Enfim, essa conversa pode ser muito longa, pois há muito a ser pensado sobre esse tema, mas me detenho aqui para não cansar o leitor. Espero que até aqui eu tenha conseguido colocar um pouco de luz sobre o que é racionalidade econômica e do porque esse conceito  receber tanta atenção e crítica nos últimos anos.

About the author

Érika Regina Gallo

Érika Regina Gallo

Doutoranda em Economia pelo Instituto de Economia da Unicamp, pesquisadora do tema economia comportamental aplicada às finanças, desde 2014 e palpiteira de plantão.

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