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Economia Comportamental

Fim de ano, pandemia e comportamento

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Fim de ano, como não pensar em festas?

Enfim parece que o impensável ano de 2020 começa a caminhar para o fim. Enquanto escrevo este post, estamos ainda em plena pandemia do COVID-19 com ameaças de retorno de forma ainda mais vigorosa, de uma nova onda de casos.

Tudo isso e como não bastasse, estão chegando as festas de fim de ano. As festas de fim de ano, natal e ano novo, são duas das mais simbólicas e importantes datas comemorativas ao redor de todo mundo. É nessa época que rotineiramente nos reunimos com parentes e amigos mais próximos, celebramos a religiosidade e a iminência de um novo recomeço, com novas expectativas e esperanças para o ano novo que se inicia.

A chegada das festas de final de ano, durante a pandemia e com surgimento de uma nova onda muito forte de novos casos ao redor do mundo, traz preocupações adicionais do ponto de vista comportamental.

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Sabemos que situações em que haja muita restrição a determinados comportamentos, atividades ou qualquer outra coisa, podem criar um sentimento que tem sido denominado de “fadiga comportamental”.

A ideia presente no conceito de fadiga comportamental está fundamentada basicamente na ideia de que as pessoas apresentam elevada tendência de negligenciar comportamentos desejados por longos períodos, quando estes estão condicionados a restrições muito severas de intensas.

É relativamente fácil pensarmos em exemplos do nosso cotidiano que retratam bem esse fenômeno de fadiga comportamental. Dietas muito rigorosas tendem a apresentar altas taxas de fracasso. Da mesma forma, a restrição no orçamento, que leva pessoas a uma vida de austeridade e rigidez nos gastos e gestão de suas finanças pessoas, pode levar a momentos de descontrole justificados muitas vezes como pequenas indulgências. O que num primeiro momento era só austeridade financeira, parece servir, num segundo momento, como justificativa ou endosso para perder a linha e fazer alguma extravagância de consumo.

É como se por um momento, o custo psicológico de se manter as restrições ficasse alto demais. Quando isso acontece, a reação emocional e impulsiva, toma as rédeas de nossas decisões.

Com a pandemia possivelmente apresentando uma segunda onda, talvez ainda mais forte que a primeira, preocupa que as pessoas possam estar emocionalmente fragilizadas demais.

Após quase dez meses de isolamento, máscaras e restrições de todo tipo e com alta carga emocional presente nas festas de fim de ano, preocupa que as pessoas possam estar dispostas a aceitar maiores riscos por apresentarem fadiga comportamental.

Apesar do conceito de fadiga comportamental não ser unanimidade nos estudos científicos e de estar sendo muito questionado atualmente devido à pandemia, não podemos negligenciar a alta carga emocional presente nas festas de final de ano.

Seja por fadiga comportamental, ou por fatores como negação da gravidade da situação sanitária baseada na extensa produção de Fake News e maus exemplos de líderes de Governo ao redor do mundo e em especial no Brasil; ou pela simples pressão social e emocional da família, voltar ao normal pré-pandemia não parece ser uma opção razoável.

Preocupa que as pessoas possam estar procurando justificativas para adotar comportamentos de risco em relação às chances de contaminação. Preocupa como as pessoas tomarão suas decisões nesse período de extrema restrição do convívio e de muitas outras atividades essenciais à convivência humana.

Viés da confirmação, Sergio Moro e dica de filme

E não faltarão ruídos para servir de argumento para negligência deliberada das restrições nas festas de fim de ano. Altas doses de otimismo reforçadas por vieses cognitivos como o da confirmação, podem nos levar a uma crise na saúde ainda maior, devido à pandemia.

Somos especialistas em filtrar informações que confirmem nossos pontos de vista. E nesse contexto é muito fácil e chega até mesmo ser algo estranhamente natural, que criemos mundos alternativos, criando narrativas como:

– As pessoas da minha família todas, sem exceção, são muito cuidadosas e não têm chances reais de estarem infectadas;

– São apenas dois dias, natal e ano novo, não vai acontecer nada demais;

– O contágio não acontece tão facilmente assim quanto dizem na imprensa;

– A doença não é tão grave como dizem nos jornais, muitas mortes nem devem ter sido por COVID-19;

– Temos medicamentos e tratamentos eficazes como a cloroquina no combate ao COVID-19.

Muitas podem ser as formas de criar um “universo paralelo” que justifique o abandono das restrições à circulação e aglomerações. Elas podem ser reais, parciais ou simplesmente falsas, mas nada disso importa muito. Verdades parciais, excesso de otimismo ou mentiras, servirão muito bem para justificar nosso desejo de comemorar o Natal e o ano novo como sempre fizemos.

O mais terrível disso tudo, é que mesmo pessoas que estudam e refletem sobre estas questões, como eu mesmo por exemplo, não têm a convicção de que conseguirão resistir às pressões pelas comemorações.

Enquanto escrevo este post, me preocupa que mesmo com toda minha atenção para evitar a fadiga comportamental, o viés da confirmação e o excesso de otimismo, eu acabe sucumbindo à pressão social e a alta carga emocional envolvida quando precisar me decidir sobre as festas de fim de ano.

Como sempre, é muito mais simples quando avaliamos o comportamento do outro.

Até a próxima Geeks!

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Anderson Mattozinhos

Anderson Mattozinhos

Economista, bookaholic, tecnófilo e jogador inveterado de videogames.

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