Reflexão de natal e fim de ano - Geekonomics
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Reflexão de natal e fim de ano

Reflexão de natal e fim de ano - geekonomics

Não é simples pensar o Natal como Economista Comportamental. A cada ano vem à mente uma série de incertezas e desejos. Desde se comportar bem, tomar as melhores decisões possíveis até mesmo agir de maneira coerente e ética, meus pensamentos não escapam dos clichês do encerramento rotineiro de mais um ciclo subjetivo da vida.

Sim eu disse ciclo subjetivo da vida. Afinal o que são as passagens de ano senão uma maneira subjetiva e esquemática de marcar a passagem do tempo?

Entretanto, mesmo consciente desta subjetividade esquemática da contagem do tempo em anos, não me é possível esquivar do ritual que se impõe. E sim faço e refaço planos nesta época, penso reafirmo meus desejos mais profundos para o futuro e mais do que nunca, sonho com futuro.

É também neste momento que uma frase dita pela protagonista do filme Le fabuleux destin d’Amélie Poulain me vem à mente como uma espécie de alerta. Qual frase? Você deve estar se perguntando. Segue abaixo no detalhe e exatidão que minhas memórias permitem recordar.

Os tempos são difíceis para os sonhadores. (Amélie Poulain).

Os tempos são mesmo difíceis aos sonhadores. Estamos em plena pandemia com restrições àquilo que há de mais precioso para a humanidade, a liberdade de ir e vir e o convívio social.

Ao mesmo tempo em que a humanidade experimenta um progresso e aumento substancial do bem estar, não é possível ignorar que ainda há um contingente de milhares de pessoas marginalizadas e excluídas dessa prosperidade que nós, uns poucos privilegiados gozamos.

Neste ano li muito mais do que talvez tenha lido em todos os outros anos, desde que aprendi a ler. Neste ano estive muito mais próximo dos ensinamentos que a Economia me proporcionou.

Os tempos são mesmo difíceis para os sonhadores. A inteligência artificial promete ser muito mais relevante em sua capacidade e conhecimento do que muitas pessoas. Será difícil competir com ela em algumas atividades profissionais logo ali, depois de amanhã.

Há o risco de não sermos bons o bastante para aprender algo novo na velocidade necessária para nos mantermos relevantes como profissionais. Há o risco de nos tornamos pessoais inúteis. Inúteis para atividades necessárias ao funcionamento do mercado.

Inútil porque o tempo não será suficientemente largo para que consigamos vencer os trade-offs mais difíceis da nossa vida cotidiana. Qual o equilíbrio entre aquilo que fazemos por que gostamos e aquilo que somos obrigados a fazer para conquistar o que gostamos.

Fora toda essa conversa de que trabalhar naquilo que gosta é não trabalhar e sim curtir a vida adoidado. Esse pensamento é anacrônico e revela o grau de alienação ao qual estamos submetidos atualmente.

Com raras exceções vivemos em dois mundos muito diferentes. Aquele idealizado por nós que em última análise é a soma dos sonhos que temos e aquele mundo real, que vivemos cotidianamente e que não raro está alicerçado sob a dura realidade de que temos desejos ilimitados e recursos cada vez mais limitados.

Pode parecer que a reflexão deste ano esteja meio pessimista e eu concordo. Este ano mais do que em qualquer outro fui incomodado com a seguinte questão:

O que eu posso fazer, como pessoa pensante, como economista e como cidadão que resulte na melhora do ambiente para as pessoas, que resolva os graves problemas da sociedade desigual em que estamos?

Passamos nossos dias estudando, descansando, consumindo, trabalhando… De que serve tudo isso? Para que estamos postando reflexões e besteiras nas redes sociais? Para que estamos gravando PodCasts, escrevendo textos, criticando esse ou aquele, opinando sobre isso ou aquilo?

Enquanto escrevo esse texto, penso em seguir os planos para os próximos anos de forma coerente com os objetivos profissionais e pessoais desejados após muita reflexão com pitadas de racionalidade. Penso também em como tornar estes planos menos egoístas e pessoais transformando-os em planos que impactem mais pessoas, que sirvam para resolver problemas que não são só meus, mas também dos outros.

Se quisermos melhorar o ambiente em que vivemos, temos que encontrar o equilíbrio entre os sonhos individuais, as necessidades de todos e a forma como estas necessidades se organizam e se complementam respeitosamente.

No final deste inacreditável ano de 2020, não tenho mais como aceitar que ainda haja pessoas que passam fome, que não tenham onde morar, que não tenham água potável ou esgoto.

Alienados que somos passamos nossos dias discutindo amenidades de todo tipo, enquanto nos cegamos ao problema que realmente importa:

Como reduzir a desigualdade social e de oportunidades?

Podemos até achar uma série de justificativas que atendam à nossa consciência para e que explicam a desigualdade que vemos pelo mundo. Podemos utilizar destas justificativas para nos sentirmos mais confortáveis ao ver pessoas em extrema fragilidade socioeconômica.

É relativamente acalentador, pensar que uma pessoa não tem casa para morar, simplesmente porque teve preguiça de trabalhar, ou porque não foi austera suficientemente para guardar parte do dinheiro ganhou ou ainda que gastou com bobagens.

Lá em nosso mais profundo íntimo sabemos que a realidade não é simples dessa forma. Sabemos que há muito mais envolvido no fato de terem algumas pessoas com várias casas e outras sem nenhuma casa.

Se você ainda consegue conviver com essas situações, se consegue encontrar alento nas narrativas fantasiosas de que todos podem, apenas com esforço pessoal, conquistar o que quiserem, cuidado.

A ciranda da individualidade misturada com a falsa narrativa de que é possível ganhar a corrida, independente do lugar em que você está na largada, é falsa.

Que possamos a partir deste inacreditável repensar nossas prioridades como sociedade.

Feliz natal e um ótimo 2021 para todos!

About the author

Anderson Mattozinhos

Anderson Mattozinhos

Economista, bookaholic, tecnófilo e jogador inveterado de videogames.

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