Ilusão Monetária: replicaram o estudo original - Geekonomics
Economia Comportamental

Ilusão Monetária: replicaram o estudo original

Ilusão monetária é um conceito desenvolvido pelas Ciências Comportamentais que tem impacto direto nas decisões financeiras das pessoas comuns e muita aplicação prática para análise de investimentos e finanças comportamentais e finanças pessoais.

O conceito é relativamente simples de se entender. Mas não se engane, essa simplicidade nos escapa com frequência quando tomamos nossas decisões sobre desempenho de nossos investimentos e decisões de compra e venda de bens.

Um trabalho conjunto de quatro pesquisadores das universidades de Hong Kong e da Grenoble Ecole de Management, repicaram o experimento inicial realizado por Shafir, Diamond e Tversky (1997) e encontrou resultados semelhantes.

Replicabilidade de experimentos em comportamento são sempre complexas, pois diferentes contextos, culturas e atributos pessoais são difíceis de mensurar e podem interferir nos resultados encontrados.

No entanto nem toda pesquisa comportamental está limitada por essa dificuldade e alguns efeitos encontrados, como a ilusão monetária, podem sim ter características mais universais.

A pesquisa publicada incialmente em fevereiro de 2020 acaba de receber nova aprovação de publicação no Journal of Economic Psychology de dezembro do mesmo ano, um reconhecimento e tanto para a publicação.

Shafir, Diamond e Tversky (1997) descreveram a ilusão monetária ou ilusão da moeda como:

“a inclinação das pessoas para pensar em dinheiro sem levar a inflação suficientemente em conta, ou seja, em termos nominais, em vez de em termos reais.”

Já os pesquisadores que replicaram o estudo definem de maneira mais ampla como sendo:

“A ilusão de monetária é a tendência de pensar sobre o dinheiro em termos nominais em vez de reais. Se houver inflação, o dinheiro perde valor com o tempo. A ilusão de dinheiro leva as pessoas a deixarem de considerar o impacto da inflação sobre o valor real do dinheiro.” 

Já escrevi também aqui alguns posts sobre ilusão monetária que você pode conferir clicando aqui.

Ilusão Monetária: ampliação do escopo da pesquisa

Os pesquisadores além de replicarem o estudo, adicionaram um novo campo para investigação. Eles investigaram se a estimativa que as pessoas têm em relação à inflação e o nível de atenção delas em relação ao indicador pode afetar suas decisões.

É esperado que as pessoas considerem em suas decisões a estimativa da inflação e se posicionem conforme acreditam que a inflação irá ser maior ou menor. Da mesma forma, espera-se que pessoas que tenham nível de atenção elevado para a inflação, usem este dado para balizar suas decisões, evitando assim decisões em termos nominais (desconsiderando a inflação).

Ilusão Monetária: os resultados da replicação

Os pesquisadores replicaram os problemas propostos na pesquisa original, sendo que foram replicados os de número 1 a 4.

O problema 1 se refere a um exemplo em que duas pessoas recebem aumento no salário sendo que a primeira num momento considerado sem inflação e a segunda num outro momento proposto com a presença de inflação.

Na proposição (enunciado) do problema são mostradas duas pessoas: Ann e Barbara. Cada uma delas recebe uma renda de $30.000,00 mensais.

Ann recebe então um aumento da ordem de 2% ($600,00) num contexto sem presença de inflação.

Barbara recebe um aumento da ordem de 5% (%1.500,00) sendo que é exposto que há uma inflação de 4%.

Pelo problema percebemos que em termos nominais (sem considerar inflação) Barbara recebeu um aumento maior que Ann. Considerando que Barbara recebeu seu aumento num contexto com inflação de 4%, em termos reais (descontando a inflação) temos que Ann recebeu um aumento maior que Bárbara.

Uma forma simples de verificar qual dos dois aumentos foi maior em termos reais é descontar a inflação do percentual de reajuste de Barbara e comparar com percentual de reajuste de Ann.

Aumento real de Barbara: 5% – 4% (inflação) = 1%

Aumento real de Ann: 2% – 0% (sem inflação) = 2%

Logo Ann (2%) > que Barbara (1%) em termos reais.

As perguntas foram expostas da seguinte forma, como mostra a tabela abaixo.

ilusao-monetaria-problema-01 - tabela 2

O gráfico abaixo mostra a comparação dos resultados entre o estudo original de Shafir et al. (1971) e a replicação recente.

É interessante que quando perguntados quem estava se saindo melhor em termos econômicos, os participantes relataram que Ann estava se saindo melhor. Esse resultado é interessante, pois mostra que a maioria percebe os efeitos da inflação sobre o aumento e parece decidir em termo reais e não nominais.

Vale destacar, no entanto, que há um contingente relevante de participantes que relatou ser Barbara aquela que estava se saindo melhor em termos econômicos, ou seja, este contingente que fora de 44% na replicação opinou em termos nominais, ou seja, apresentaram ilusão monetária.

A incoerência na decisão reside na pergunta dois. Quando perguntados quem estaria mais feliz no com o aumento, os participantes responderam na maioria que Barbara estaria se sentindo mais feliz.

Estranho, e inconsistente essa resposta, pois se os participantes estivessem conscientes dos efeitos da inflação e se decidissem considerando os temos reais, deveriam relatar que Ann estaria mais feliz. Ann recebeu aumento real de 2% enquanto Barbara de apenas 1%

Por último, quando perguntados sobre qual trabalho seria mais atraente, novamente vimos os participantes indicar que Ann teria o trabalho mais atraente em detrimento a Barbara.

ilusao-monetaria-problema-01 - grafico 2

A falta de replicabilidade dos estudos em Economia Comportamental e Ciências Comportamentais é um dos maiores eixos de crítica que pesquisadores nestas áreas sofrem.

Ver um estudo que replica e encontra dados semelhantes e que confirmam o estudo original da Ilusão Monetária é uma ótima notícia para a ciência comportamental. E vinda no fim de 2020, um ano difícil para a humanidade e para a Ciência Comportamental, muito criticada e questionada ao longo deste ano.

Deixo o link e referência do estudo logo abaixo para quem se interessar em aprofundar nas demais questões pesquisadas.

Até a próxima Geeks!

Link para baixar o estudo gratuitamente – CLIQUE AQUI

Referência

Ignazio Ziano, Li Jie, Tsun Shue Man, Lei Hoi Ching, Kamath Anvita Anil, Bo Ley Cheng, Gilad Feldman,Revisiting “Money Illusion”: Replication and Extension of Shafir, Diamond, and Tversky (1997), Journal of Economic Psychology, 2020.

 

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Anderson Mattozinhos

Anderson Mattozinhos

Economista, bookaholic, tecnófilo e jogador inveterado de videogames.

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