Economia Comportamental e novos investidores na bolsa - Geekonomics
Economia Comportamental

Economia Comportamental e novos investidores na bolsa

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A Economia Comportamental pode explicar o aumento dos investidores na bolsa de valores? Sim pode! Leia abaixo.

No ano passado e mesmo neste ano, umas das notícias mais comentadas e comemoradas pelo mercado financeiro foi o aumento da quantidade de CPFs cadastrados na bolsa de valores. Segundo dados da B3 somente no ano de 2020 houve um aumento de mais de 80% do número de CPFs cadastrados, comparados ao ano de 2019. Esse fenômeno gerou muito murmurinho entre os especialistas de mercado, que buscaram explicar e compreender esse comportamento.

As possíveis explicações são variadas, dentre estas encontra-se o aumento da quantidade de informações disponíveis (tais quais: jornais especializados, blogues ou mesmo a avalanche de diversos canais de “educação financeira” disponibilizados nas mais variadas plataformas online), o aumento de tempo livre ocioso causado pela pandemia, o avanço tecnológico, o aumento de fintechs…etc, etc, etc. De fato, todas essas explicações fazem muito sentido e devem ter sua parcela de colaboração para essa entrada maciça de investidores na bolsa de valores.  De modo que, eu não me arriscaria aqui a dizer que uma tem mais relevância que a outra. Dado que uma afirmação dessa magnitude necessitaria de muito estudo para ser comprovada.

Porém, como estamos ainda em um momento de “especulação” de possíveis causas, convido o leitor a especular, ou melhor, a refletir comigo sobre uma das possíveis explicações desse fenômeno, tendo como norte a nossa boa economia comportamental.

Além do aumento do número de ingressantes na bolsa de valores, nos últimos anos outro fenômeno, tão inédito quanto este, tem incidido no cenário econômico brasileiro, este é: a queda da taxa Selic. Segundo dados do banco central, desde o regime de metas de inflação, a taxa básica de juros (Selic) tem apresentado quedas contínuas. Se olharmos o histórico da taxa básica de juros nas últimas duas décadas, vamos perceber que em 1999 a taxa Selic se encontrava no patamar de 19% a.a., já em 2009 fechou o ano a 9,75% a.a., 2019 a 4,5% a.a., e atualmente encontra-se a 2% a.a., conforme definido na última reunião do Copom em 20 de janeiro do ano corrente. Ou seja, é a menor taxa histórica já registrada.

economia comportamental - selic

De fato, a taxa Selic foi, é e ainda será (assim esperamos) um grande ponto de referência para o mercado financeiro. Isso porque ela remunera, não só os títulos públicos que são os ativos de menor risco dentro do mercado de capitas brasileiro, mas também compõe grande parte dos investimentos de renda fixa no país. Desse modo, a taxa Selic é uma âncora forte quando falamos em investimento financeiro. Sendo assim, sua queda e o aumento de pessoas físicas na bolsa de valores podem apresentar uma forte correlação.

Suponhamos que você como agente racional (que na verdade você não é) se depare com a seguinte situação:

Cenário 1 – você tem um recurso financeiro e quer aplicar esse dinheiro buscando uma rentabilidade maior que a poupança e que, no mínimo, corrija a inflação (cujo fechamento do ano anterior foi de 7,6% a.a.). Agora suponhamos que você tenha duas opções de investimento: a) um ativo de baixíssimo risco, remunerado a uma taxa de 18% a.a.; b) um ativo de alto risco, negociado na bolsa de valores, cuja rentabilidade é incerta e a oscilação dos preços acontece o tempo todo. Ademais, buscando se informar melhor sobre os dois produtos, você encontra diversas informações sobre o ativo de renda fixa, o que não acontece quando você busca se informar sobre a bolsa de valores, pois as informações disponíveis são de difícil acesso e compreensão. Qual dos dois ativos você escolheria?

Agora suponhamos que:

Cenário 2 – você tem um recurso financeiro e quer aplicar seu dinheiro buscando uma rentabilidade que seja maior que a poupança e que, no mínimo corrija a inflação (fechada no ano anterior a 4,52% a.a.). Novamente, você se depara com duas opções de investimento:  a) um ativo de baixíssimo risco, remunerado a uma taxa de 2% a.a.; b) um ativo de alto risco, negociado na bolsa de valores, cuja rentabilidade é incerta e a oscilação dos preços acontece o tempo todo. Buscando se informar melhor sobre os dois produtos, você encontra diversas informações sobre ambos. Porém, uma grande maioria dos materiais encontrados, mostram como é possível ganhar dinheiro de forma rápida, aplicando na bolsa de valores. Qual dos dois ativos você escolheria?

economia comportamentalselic vs dividendos

 

Ambas as situações colocadas a cima, são extremamente simplistas, porém podem nos oferecer um “norte” para compreendermos o que pode estar acontecendo. Afinal, a primeira situação representa (em partes) o cenário de 2005 e a última situação representa (também em parte) o cenário observado no final do ano de 2020 e o início de 2021.

Para os que já estão familiarizados com a Prospect Theory, o que vou descrever agora, será nada mais do que obviedades. Porém, para os que estão começando a trilhar o caminho da economia e finanças comportamentais, talvez essa explicação tenha alguma “serventia” e possa oferecer alguns insights sobre a correlação queda da taxa Selic vs entrada na bolsa de valores.

Kahneman e Tversky (1979; 1992), apontam que existem, pelo menos, duas características cognitivas fundamentais em um processo de decisão, são estas: o ponto de referência e a aversão à perda. Elas são tão importantes, porque a avaliação individual de risco muda de acordo com o problema de escolha e o ponto de referência utilizado na hora de avaliar se uma opção nos levará à perdas ou ganhos. Os autores explicam que, em situações ou ambientes de risco e incerteza, se o ponto de referência é definido de tal forma que os resultados sejam vistos como ganhos, o comportamento esperado de aversão ao risco se confirma. Isto é, os indivíduos diante de uma escolha entre um ganho certo ou uma opção arriscada, dará preferência para a coisa certa, caso essa coisa certa ofereça ganhos.

Observado o cenário 1, não é difícil saber que a grande maioria das pessoas optaria pela coisa certa, isto é, o investimento que paga 18% a.a., remunera acima da inflação e ainda oferece baixíssimo risco. Esse é um comportamento esperado, afinal diante de uma escolha que envolve risco e incerteza vamos preferir a coisa certa, se ela nos oferece ganhos.

Entretanto, se observamos o cenário 2, a escolha da maioria já não se torna tão evidente assim. Isso porque, com uma taxa que remunera abaixo da inflação os ganhos não são tão evidentes e a sensação na verdade é de que estamos perdendo dinheiro, ou melhor não estamos ganhando. Esse sentimento nos impulsiona a tomar mais riscos, nos fazendo optar por entrar na bolsa de valores, mesmo este ambiente sendo de extremo risco.

Conforme a Prospect Theory nos ajuda a compreender, isso acontece porque ao utilizarmos a taxa Selic como ponto de referência, passamos a ver os possíveis resultados futuros como perdas. E quando esse gatilho é acionado estamos à mercê do viés psicológico aversão à perda.

economia comportamental aumento investidores na bolsa - perspectiva

A coisa funciona assim: diante de resultados negativos o viés psicológico de aversão à perda é acionado, de modo que o comportamento de aversão ao risco não se confirma. Ou seja, caso o resultado da comparação entre o ponto de referência e os possíveis resultados financeiros futuros seja negativo, o viés psicológico (aversão à perda) fará com que os indivíduos escolham opções mais arriscadas em detrimento de escolhas seguras, a fim de evitarem as perdas. Isso ocorre, porque como bem nos lembra Kahneman (2011, p. 350) “[nós] simplesmente gostamos mais de ganhar do que de perder”. O autor ainda nos lembra, que a dor de perder é tão intensa que diante de perdas concretas ou de possíveis perdas, optamos pelo risco a fim de evita-la.

Deste modo, quando observamos que a taxa Selic encontra-se abaixo da inflação o sentimento é de que esse investimento nos proporcionará ganhos inferiores ao que esperamos e para evitar essa perda, ou melhor “não ganho”, passamos a assumir mais riscos, logo entrar na bolsa de valores começa parecer uma opção atraente. A coisa ganha uma proporção maior quando incluímos outros elementos.

A disponibilidade de informação somadas a facilidade de operação no mercado de ações, somadas as manchetes de que cada dia mais pessoas estão entrando na bolsa de valores, ajudam a impulsionar essa tendência a “tomar mais risco”, pois aciona diversos gatilhos mentais, tais quais:  “somos bem informados”;  “todo mundo esta entrando, logo se eu entrar e perder dinheiro, não perco sozinho”; “melhor arriscar do que perder”, etc, etc, etc… Esses gatilhos mentais, somados a nossa aversão à perda fazem com que passamos a ter reações exageradas (ouverreaction) diante da real situação. O que fomenta a ideia de que entrar na bolsa de valores é uma excelente opção em detrimento dos investimentos renda fixa.

Esse movimento de “manada” que observamos atualmente, não é de todo “incomum” na bolsa de valores. Na verdade, o observamos quase que diariamente; quando um ativo começa a subir e logo muitos passam a acreditar em uma “tendência de alta” ou vise e versa. Ou então, quando alguma notícia política é divulgada e o “mercado muda de humor”.

Todos esses fenômenos observados na bolsa de valores têm no fundo uma explicação psicológica, afinal por trás da escolha por ingressar nesse mercado, dos preços que sobem e descem, estão os inúmeros indivíduos que tomam decisões e estão à mercê de seus gatilhos mentais e vieses de comportamento.

Enfim, acreditando que permaneci em demasia nesse assunto, libero o leitor para fazer suas próprias reflexões. Mas gostaria de apontar que, de fato os investimentos em renda fixa não estão performando de forma motivadora, mas entrar na bolsa de valores somente com base em “informações da internet” não é nada “racional” – se é que alguma coisa que acontece no mercado financeiro possa ser definido como tal.

Porém, talvez se investirmos mais tempo em compreender nossos vieses psicológicos, assim como nos educarmos financeiramente, conheceremos melhor não só o ambiente onde estamos nos inserindo, seus produtos e serviços, mas conheceremos também nossas próprias reações, fazendo com que possamos tomar melhores decisões.

Destarte, quero dizer que o objetivo desse artigo, não foi oferecer uma resposta objetiva sobre o tema, mas promover uma reflexão sobre uma das possíveis causas desse movimento de entrada maciça na bolsa de valores e quiçá oferecer algum insight para quem busca compreender melhor o comportamento do investidor e do mercado financeiro.

About the author

Érika Regina Gallo

Érika Regina Gallo

Doutoranda em Economia pelo Instituto de Economia da Unicamp, pesquisadora do tema economia comportamental aplicada às finanças, desde 2014 e palpiteira de plantão.

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