Aulas online engajamento e desafios comportamentais - Geekonomics
Economia Comportamental

Aulas online engajamento e desafios comportamentais

Aulas online em tempos de pandemia com escolas fechadas e restrições à circulação e aglomeração de pessoas, deixaram de ser apenas uma tendência para se tornarem uma necessidade.

Uma discussão que ainda se faz muito timidamente é sobre o modelo a se adotar nas aulas online. É certo que a mudança do presencial para o online impõe não apenas desafios tecnológicos, mas também metodológicos e acima de tudo comportamentais.

Uma crítica que sempre fiz a respeito dos desafios metodológicos reside no simples fato, muitas vezes negligenciado, de que o modelo para aulas online nem de longe deve se aproximar do modelo atual das aulas presenciais.

Em termos de experiência do aluno, as aulas online devem evitar a simples replicação da metodologia das aulas expositivas. Reproduzir a mesma metodologia das aulas presenciais apenas com a diferença de que estas aulas passam a ser gravadas ou transmitidas via internet, ignora importantes fatores comportamentais que podem afetar o engajamento dos alunos e consequentemente seu aprendizado.

Aulas online engajamento e desafios comportamentais

A velocidade que se impôs a todos os profissionais e instituições de saúde com a pandemia, forçou a migração para o modelo online e é certo que nesse processo, não houve tempo para planejamentos.

Nesse contexto a prioridade inicial era inquestionável: preservar o setor educacional a qualquer preço, os empregos de professores e demais trabalhadores da cadeia educacional e os alunos que deveriam de alguma forma manter seu vínculo com o aprendizado e todos seus benefícios.

Passado o choque inicial, os desafios que já estavam postos há tempo devem voltar à pauta. O ensino online é uma tendência e tem seus benefícios. Mas sem as devidas reflexões a respeito do comportamento de estudantes e professores, este novo modelo, agora inescapavelmente necessário tende acentuar suas fragilidades ampliando o desinteresse dos alunos.

Aulas online e aversão à perda

Aulas online engajamento e desafios comportamentais 2

Em Economia Comportamental a aversão à perda, de forma bem resumida pode ser entendida como a tendência que temos a experimentar com mais intensidade emocional as perdas que os ganhos, mesmo quando perdas e ganhos apresentarem a mesma magnitude.

Essa ideia de aversão à perda é amplamente pesquisada e um dos estudos mais relevantes para o tema veio do psicólogo Daniel Kahneman com sua teoria da perspectiva. A pesquisa pode ser sintetizada de maneira simplificada pelo gráfico abaixo.

aulas online aversão perda-teoria-perspectiva

Em relação às aulas online, penso que um fator pode apresentar impacto significativo para os estudantes. Gosto do modelo online e já experimentei quase de tudo em termos de educação online, como aluno e como professor.

Uma diferença sutil entre dois modelos impactou consideravelmente meu engajamento, com as aulas, talvez com reflexos para minha percepção de riscos, perdas e ganhos relacionados ao engajamento com as aulas online, são eles:

– Aulas transmitidas ao vivo

– Aulas gravadas

Relembrando as aulas que tive nos diferentes cursos que fiz percebi que meu engajamento com o ensino quando as aulas eram ao vivo foi muito superior quando comparado ao engajamento com as aulas online.

Mas por que essa diferença em termos de engajamento nas aulas online?

Posso com certa tranquilidade afirmar que não se tratou do conteúdo, pois participei de modelos em que havia os dois tipos de abordagem para as aulas ao vivo e gravado.

Acontece que refletindo sobre o assunto recuperei alguns pensamentos que podem explicar a diferença de engajamento e que tem relação direta, na minha visão, com a aversão à perda.

As aulas ao vivo tinham algumas motivações adicionais quando comparadas com as aulas gravadas. Vou listar algumas:

– Possibilidade de perguntar diretamente ao professor durante as aulas e receber a resposta imediatamente;

– Interação em tempo real via chat com colegas de turma;

– Pressão adicional: como as aulas não ficavam gravadas, sentia haver uma pressão a mais para assistir e aproveitar ao máximo cada minuto da aula, pois não teria a oportunidade de assistir novamente.

As duas primeiras motivações que descrevi acima, são relevantes, mas podem ser amenizadas com certa facilidade. Por exemplo, a plataforma de ensino pode prever que perguntas sejam feitas e respondidas em vídeo pelo professor. Ou quem sabe até mesmo pelas redes sociais.

O mesmo acontece com os colegas de turma. Sendo online grupos em redes sociais e web conferências apenas com alunos podem ser ao mesmo tempo canais de compartilhamento de conteúdo extra como meio de interação entre os alunos.

A “pressão adicional” imposta pelo sentimento de perder a aula ao vivo podendo simplesmente perder todo aquele conteúdo de forma definitiva, parece ter servido de motivação adicional aumentando com isso me engajamento com esse tipo de aula.

Claro que essa hipótese não foi testada, deixo a ideia aos pesquisadores. Aos outros leitores, deixo a pergunta sobre suas experiências pessoais.

Vocês percebem essa diferença de engajamento?

Refleti também sobre aqueles cursos em que as aulas aconteciam ao vivo, porém com gravação para que aqueles impossibilitados de estar online ao vivo pudessem assistir. Neste caso meu engajamento também era muito baixo.

O motivo do meu baixo engajamento para as aulas perdidas no ao vivo e que ficavam disponíveis suas gravações pode ser também aversão à perda. Mas neste caso, não propriamente a aversão à perda, mas a aversão ao reforço de perceber que perdi a interação.

Outro fator pode ter influenciado para ter pouco engajamento em assistir as aulas perdidas gravadas: a procrastinação e o viés do presente.

Aulas online procrastinação e viés do presente

Aulas online procrastinação e viés do presente 3

As aulas gravadas acabam sendo como um seguro sem custos para mim. Isso porque era sempre possível postergar essa “dor” de assistir às aulas, substituindo por atividades mais frívolas e prazerosas como jogar vídeo game, assistir seriados na TV ou simplesmente não fazer nada rsrsr.

Aqui atuava aquilo que as pesquisas sobre o viés do presente já documentam amplamente: os comportamentos, suas recompensas e seus prazeres são superestimados no presente e, portanto, têm motivação extra na motivação de nossas escolhas.

Como em geral estudar demanda muito esforço cognitivo e isso tem custos elevados ao nosso sistema de recompensas, fracassamos com frequência. O benefício do estudo é postergado ou pelo menos de difícil percepção imediata.

Já aquelas atividades concorrentes aos estudos como: jogar vídeo game, dormir, assistir seriados nos proporcionam recompensas mais imediatas. Daí a dificuldade em escolher adiar o prazer de certas atividades para se engajar nos estudos.

Para concluir, penso que além destas questões da diferença entre ao vivo e gravado outros pontos merecem atenção que falamos de aulas online. A duração de cada aula, a dinâmica utilizada, os recursos audiovisuais e a facilidade que alunos assistindo aulas online tem para desviar sua atenção são também pontos centrais que devemos avaliar.

Vale ainda reforçar que entendo o tamanho do desafio aos educadores e ao sistema educacional como todo. A emergência em se criar um modelo com a urgência necessária impediu que discussões mais aprofundadas sobre o melhor modelo fosse feita num primeiro momento.

No entanto, passada a emergência inicial é hora de ter foco na urgência da revisão do modelo que na grande maioria passou a televisionar as mesmas aulas que antes eram assistidas pelos alunos presencialmente. Sem os elementos da experiência presencial esse modelo não se sustenta.

Sem termos a opção de retornar às aulas presenciais no momento, ou ainda, com toda a incerteza sobre quando será possível a retomada e de que forma, uma reformulação e discussão dos sistemas de aprendizado online merecem mais atenção.

Até a próxima Geeks!

About the author

Anderson Mattozinhos

Anderson Mattozinhos

Economista com MBA em Economia Comportamental, já atuou como Professor na ESPM-SP, é empresário do setor de saúde, podcaster e idealizador do Geekonomics PodCast e site. Nas horas vagas divide seu tempo entre leitura de livros e games.

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