Meus dias com um grupo de apoiadores do governo - Geekonomics
Economia Comportamental

Meus dias com um grupo de apoiadores do governo

apoiadores do governo - capa

As redes sociais, influenciadas pelos algoritmos, acabam por fazer que tenhamos uma visão distorcida do mundo. A cada curtida que você dá é uma sinalização de que aquele conteúdo é interessante, então ela deve mostrar mais dele para você. E isso vale, pela generalização, para muita coisa. Se eu curto algo de apoio ao governo, as postagens que aparecerão serão pró-governo. Se curto algo contrário, provavelmente aparecerá mais coisas da oposição. E assim moldamos nossa visão de mundo.

Isso porque quando observamos só mensagens pro-governo, ou contra, tendemos a achar que a maioria das pessoas apoia ou não o governo. E isso ilude nossa percepção de realidade, dada que a frequência dos fatos que aparecem são enviesadas. E quando você está em um grupo de whatsapp pró-governo?

Vou relatar a minha história aqui. E vou alterar nomes para manter sigilo e situações. Me colocaram em um grupo de cerâmica artesanal (o tema do grupo foi alterado pelo sigilo). Particularmente não sei como entrei no grupo. Mas estava eu lá, em um grupo de cerâmica sem entender e muito menos já ter feito isso na vida. Achei inicialmente que o grupo se tratava da velha arte de moldar o barro.

Foram alguns dias até a primeira postagem criticando uma emissora de TV de grande porte do nosso país. Olhei aquilo e imaginei “talvez o cara esteja com raiva”. Mas os dias passaram e outras postagens semelhantes foram aparecendo. Então em conjunto com um amigo, que também entrou no grupo de gaiato, questionamos que talvez o governo não estivesse tão certo naquele posicionamento, pois ele era prejudicial.

Foi o primeiro momento que fui chamado de petista. Veja bem, não emiti absolutamente nada a favor do PT. Só levantei a questão de que talvez aquele ponto de vista do governo, que eu particularmente não concordava, era algo que não fosse muito legal. Em poucos dias eu era um dos comunistas do grupo.

Achei interessante que não me tiraram. Mas o fluxo do grupo era divertido. Eu dou risada de grupos assim, fico preocupado, mas me diverte ver aonde as pessoas chegam por fanatismo a um ponto de vista. O grupo da terraplana era outro que eu visitava frequentemente. Mensagens de cerâmica alternadas com mensagens de teorias da conspiração. O mundo está contra o governo. Eleições nos EUA foram fraude. E inúmeros outros pontos que qualquer pessoa com o mínimo de crivo crítico pelo menos questionaria. Mas continuemos.

Polarizacao Imagem de Gerd Altmann – via: Pixabay
Polarizacao Imagem de Gerd Altmann – via: Pixabay

 

Então um belo dia começaram a divulgar o tratamento precoce. Eu falei que aquilo e água com açúcar era a mesma coisa. Pronto. Agora além de comunista eu era burro, veja bem que os dois adjetivos nesse contexto não coexistiam até então. Tentei explicar que a remissão dos sintomas é comum, e que em média 3 pessoas falecem para cada 100 contaminadas. Dado que 97 pessoas iriam curar, fatalmente alguém que tomasse cloroquina seria atingida pela grande chance de ser curada.

Então tentaram me argumentar sobre gravidez psicológica e a cloroquina. Entendi isso como placebo. Mas como psicólogo, eu já tive contato com questões psicológicas graves e conheço questões relativas a placebo. Eu entendi dessa forma. Mas o argumento do sujeito, que chamo aqui de Clóvis, não parou por ai.

Após algumas lições sobre minha ingenuidade total na psicologia, eu tentei mostrar o efeito Dunning-Kruger para eles. Que basicamente diz que aqueles que são pouco preparados para uma área acabam tendo a ilusão de competência enorme, justamente por serem pouco preparados acham que já dominam. E isso vale para todas as áreas, psicologia, medicina etc… O indivíduo lê uma reportagem e acha que sabe melhor sobre tratamento precoce que o médico que estudou isso a vida toda.

Então, mostrei que correlação não é causalidade. E o famoso gráfico do índice de suicídios e filmes do Nicolas Cage. Há um site ótimo para isso: https://www.tylervigen.com/spurious-correlations . Aparentemente não fui muito bem compreendido.

Meu amigo foi expulso, ou ele era petista demais para os padrões do grupo ou porque ele perdeu a paciência e agrediu verbalmente o pessoal. Eu continuo lá. Não falo absolutamente nada, apenas vejo inúmeras teorias da conspiração e vez ou outra mostro fatos contra fakenews que aparecem. Já consegui parar algumas correntes. É um exercício de autoconhecimento, porque vez ou outra fico com raiva. Mas pelo menos me gera histórias para contar aqui.

Se eu acho que vou mudar eles? Fica o questionamento.

About the author

Rafael Jordão

Rafael Jordão

Rafael Jordão, é psicólogo de formação pela Universidade de Uberaba, possui MBA na área de Economia Comportamental pela ESPM e é mestrando em Psicobiologia na linha de comportamento econômico na USP. Atualmente é psicólogo organizacional na Ebserh. @rafael.jordao

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