Fraude em estudo de Economia Comportamental - Geekonomics
Economia Comportamental

Fraude em estudo de Economia Comportamental

Fraude em estudo de Economia Comportamental? Sim! Verdade inconveniente, mas verdade.

Que semana agitada para quem estuda, pesquisa, acompanha ou apenas gosta dos assuntos relacionados à Economia Comportamental. Foi também uma semana agitada para aqueles que gostam de uma boa treta.

Felizmente para mim, me incluo nos dois grupos. Obviamente você já sabe que gosto e acompanho de perto a Economia Comportamental. A novidade aqui, está no fato de curtir uma boa treta.

No bom sentido, as tretas que me atraem são aquelas que estimulam o debate, a diversidade de opiniões e que objetivam melhorar algo existente ou construir algo novo.

Evidência de fraude em estudo de Economia Comportamental

Aconteceu assim, depois de avaliarem dados de um estudo de Economia Comportamental, liberados publicamente por um dos pesquisadores, o site DataColada em colaboração com pesquisadores que não quiseram se identificar, encontrou provas de fraude nos dados.

Falar em escândalo é pegar leve nesse caso. Afinal de acordo com as evidências produzidas, a fraude foi um caso grosseiro de fabricação de dados que chegou não apenas a projetar os currículos dos pesquisadores, como também a direcionar até mesmo políticas públicas, como pode ser visto no tweet publicado pela @ashleywhillans.

Entendendo a fraude nos dados revelados pelo DataColada

Ao avaliar a base de dados os pesquisadores do site em conjunto com seus colaboradores anônimos identificaram quatro situações que comprovam a fraude. Foram elas:

1 – Suspeita de falha na aleatorização dos casos: os dados mostraram uma grande diferença na linha de base dos estudos selecionados. Inicialmente suspeitaram de não aleatorização, mas foi descartado quando encontraram demais evidências de fraude.

2 – Distribuição implausível dos dados referentes às milhas percorridas: Quando analisadas as milhas percorridas (dados do experimento) foi percebido que a distribuição delas eram improváveis. Ao plotar o gráfico com as frequências a investigação percebeu que os dados eram compatíveis com uma distribuição uniforme que variava num intervalo fixo entre 0 e 50.000 milhas. Ora, nenhum estudo com dados selecionados aleatoriamente espera encontrar distribuições uniformes, ainda mais com limites inferior e superior tão bem definido.

fraude ariely - datacolada
Imagem de: DataColada (http://datacolada.org/98)

3 – Sem Quilometragem Arredondada No Tempo 2: comparando os dados de quilometragem (dados do experimento) entre os dois momentos diferentes, no tempo 1 e no tempo 2, percebeu-se outro comportamento improvável.

Suspeita-se que os dados foram fabricados e, portanto, houve uma diferença nos valores obtidos no tempo 1 quando comparado àqueles obtido no tempo 2, mas não referente a um possível efeito do tratamento experimental. Foi observado que os dados do tempo 2 não tinham valores arredondados. Atribuiu-se essa inconsistência ao fato de que, as pessoas ao relatarem números relativamente grandes, tendem a arredondar seus valores.

Dessa forma, o comportamento de arredondamento foi verificado pelos dados obtidos no tempo 1, mas não para os dados obtidos no tempo 2, reforçando a hipótese de que estes tenham sido fabricados, multiplicando os dados do tempo 1 por uma constante aleatória para produzir os dados fictícios do tempo 2.

fraude ariely et al - datacolada -arredondamento
Imagem de: DataColada (http://datacolada.org/98)

4 – Fontes diferentes de formatação e arredondamento: outra peculiaridade nos dados foi percebida pelos investigadores.

Duas fontes diferentes no mesmo arquivo para o mesmo dado. Em geral dados exportados não trocam a fonte quando salvos. Mas quem sabe isso poderia ter acontecido ao acaso?

Não foi por acaso. Todos os dados com fontes Calibri estavam arredondados, mas os dados com formatação de fonte Cambria não apresentavam arredondamento, reforçando a constatação de que os dados no tempo 2 (fonte Cambria) foram fabricados com base em constantes aleatórias produzidas a partir dos dados do tempo 1 (fonte Calibri).

fraude ariely et al - datacolada - fontes
Imagem de: DataColada (http://datacolada.org/98)

Impactos para a Economia Comportamental da fraude no experimento de campo

É certo que a área perde muito com esse tipo de prática imoral. Mas é bom destacar que em toda profissão ou área existem maus profissionais. A postura de alguns pesquisadores em suas respostas à investigação do DataColada, já mostra haver dois tipos claros de pesquisadores neste caso.

Enquanto alguns se preocuparam e se posicionaram, reafirmando e reconhecendo a negligência na inspeção dos dados recebidos, outros se limitaram a assumir responsabilidade sem dar mais explicações.

Vale dizer que pelo visto nas cartas, a responsabilidade pelo recebimento dos dados da empresa, bem como todo o contato com ela, ficou a cargo da um único pesquisador, o Dan Ariely. Não saberemos se a fabricação dos dados foi feita por ele, ou pela empresa. Então enquanto não esclarecido teremos sempre a dúvida.

Mesmo não sendo possível esclarecer objetivamente a responsabilidade pela fabricação dos dados, pelo menos enquanto nenhuma das partes se posiciona a respeito (Ariely ou Empresa), uma coisa é certa, os pesquisadores erram feio.

Houve negligência e com isso perdem todos, os próprios pesquisadores, as revistas científicas e todos aqueles que trabalham ou utilizam dos insights e descobertas da Economia Comportamental de alguma forma.

Que este triste episódio sirva pelo menos para que os pesquisadores pensem melhor a respeito do seu papel e responsabilidades quando da publicação de seus resultados e descobertas científicas. Da mesma forma que haja maior cuidado das revistas especializadas e seus editores na aprovação mais criteriosa dos artigos e quem sabe até mesmo tais publicações possam repensar suas exigências. Um caminho é passar a exigir que os dados sejam publicados juntamente com os artigos e que estes estejam abertos à toda comunidade para utilização e validação.

Em tempo, vale destacar que este caso não desmerece os demais estudos do autor e todas as demais relevantes descobertas da Economia Comportamental nos últimos anos. Como já disse acima, especificamente para os autores do artigo objeto de investigação pelo DataColada, cabe lidar com problema de maneira transparente, como já fizeram.

Mas num ambiente de suspeitas de negligência quando à celeridade dos dados, acho que uma bom caminho seria abrir os dados dos demais estudos, neste caso, ganham os autores em transparência e ganha toda a comunidade científica que poderá analisar os dados com suas visões particulares.

Vou ficando por aqui, mas se quiser ler mais a respeito desse caso, recomendo acessar nossa newsletter Hashtag Economia Comportamental Nº 22 onde trouxe o tema de forma mais direta e descontraída.

Fizemos ainda uma live debatendo o assunto daquele jeito descontraído, sem censura, sem cortes de bem descontraído como sempre. Vídeo segue abaixo.

About the author

Anderson Mattozinhos

Anderson Mattozinhos

Economista com MBA em Economia Comportamental, já atuou como Professor na ESPM-SP, é empresário do setor de saúde, podcaster e idealizador do Geekonomics PodCast e site. Nas horas vagas divide seu tempo entre leitura de livros e games.

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